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    Tabu
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    Tabu

    Poesia em preto e branco

    por Lucas Salgado

    Mesmo tendo acabado de fazer 40 anos e feito sua carreira em um centro pouco conhecido por uma grande cinematografia, no caso Portugal, o diretor Miguel Gomes conseguiu se colocar numa posição de destaque no cinema Europeu. Após chamar a atenção com o ótimo Aquele Querido Mês de Agosto, o cineasta vai além e faz um trabalho marcante e repleto de personalidade em Tabu.

    Tabu - FotoTodo em preto e branco, o filme é ao mesmo tempo uma homenagem ao cinema e ao amor. Começa sua história retratando a rotina solitária de Aurora (Laura Soveral), uma figura meio que abandonada e enlouquecida em seu condomínio em Lisboa. Já de idade avançada, ela convive apenas com a empregada e uma vizinha, sendo que nenhuma sabe nada sobre seu passado. Naquele momento, o espectador também não sabe nada e tampouco se interessa muito sobre sua vida, sobre quem é aquela mulher.

    Felizmente, o longa mostra que o espectador estava errado e que havia toda uma grande história por trás daquela figura pouco atrativa. A partir daí, somos jogados para a África portuguesa, onde Aurora (agora interpretada pela linda Ana Moreira) vive com o marido. Neste momento, nos deparamos com uma figura muito mais interessante. Independente, passa seu tempo caçando e alimentando o filhote de jacaré de estimação. 

    A presença no animal no filme é bem interessante. Além do lado exótico, ele funciona quase que como um personagem ao "apresentar" Aurora ao explorador Gian-Luca Ventura (Carloto Cotta). Os dois iniciam um romance apaixonado e proibido, que dá à bela jovem a sensação de viver um conto de fadas, algo que não é fácil de sobreviver em um ambiente tão hostil.

    Tabu - FotoTentando evitar o melodrama, Tabu investe em situações dramáticas com altas doses de realismo, tudo para alcançar uma reviravolta que seria assinada por Shakespeare.

    A fotografia de Rui Poças é um dos principais elementos do filme, não apenas pelo preto e branco, que dá um visual clássico e ainda funciona como um contraponto diante do nosso conhecimento da África selvagem, sempre muito colorida. As opções de tomadas também são extraordinárias. Muitas vezes nos deparamos com a câmera parada e acabamos obrigados a confrontar aquela situação dura, aquele belo momento de romance e paixão e até apreciar um número musical inquieto e marcante.

    Além de dirigir e assinar o roteiro, Miguel Gomes é responsável pela montagem ao lado Telmo Churro, e também se sai bem na função. O longa é muito bem conduzido e não há queda de ritmo. Há ainda a inteligente divisão em capítulos: prólogo, parte um - paraíso perdido, parte dois - paraíso e epílogo. Mesmo a parte dois se passando antes da um e com o espectador sabendo que as coisas não acabariam bem (como aponta o contraponto entre os títulos paraíso perdido e paraíso), é impossível não se envolver na história, comprovando mais uma vez o talento de Gomes na condução de seus filmes.  

    Uma obra que merece ser conferida com atenção. Trata-se de uma aula de cinema ao mesmo tempo que conta com precisão sua história, sendo difícil não se envolver com Aurora e sua trajetória. Gomes investe no romance, no drama e até mesmo no humor, tudo usando de muita poesia e de uma técnica precisa.

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