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Corações Sujos

Passado a limpo

por Roberto Cunha
Pouca gente sabe, mas tão logo o Estados Unidos encerrava a guerra com o Japão, aqui, no Brasil, uma outra batalha, de dimensões menores, começava a ser travada entre os imigrantes japoneses. Esse conflito interno foi tratado no livro campeão de vendas "Corações Sujos", de Fernando Morais, e um filme inspirado nessa história é o que o cineasta Vicente Amorim traz para o cinema. Misturando ficção e realidade, o roteiro buscou explorar também outras possibilidades e uma pista é a narração feminina, acompanhada de bonita trilha oriental, criando um clima épico.

Espalhados em colônias, os japoneses encaravam os brasileiros como inimigos. E quando a notícia de que o Japão tinha se rendido chegou nas ondas do rádio, a primeira reação de boa parte deles foi negar o fato. Ainda mais porque essa notícia tinha um acréscimo: o Imperador assumiu ser um mortal e não um Deus, destruindo todas as crenças milenares. Em uma dessas colônias, um coronel da reserva desafia a lei, faz uma reunião e hasteia a bandeira japonesa. Um militar de baixa patente brasileiro reprime o ato e ainda limpa a bota com o símbolo que antes flamulava no mastro. Durante a noite, esse mesmo grupo acaba sendo preso, interrogado e o uso de um patrício para ajudar acabou servindo para que os revoltados cunhassem o termo Coração Sujo, marcando aqueles que traíram a sua pátria ao aceitar a derrota e ajudar o inimigo.

Dentro desse contexto, o roteiro explora a ideia de um homem comum tornar-se um assassino para honrar o império, abrindo mão de sua vida e de seu amor. Para dar mais veracidade a trama, a maior parte dos diálogos é em japonês. Por essa razão, o espectador verá um filme nacional legendado e isso, acredite, pode ser ruim para uma camada da sociedade que não curte legendas. É o fantasma da TV dublada. Entre os destaques do elenco, o protagonista Tsuyoshi Ihara, que fez Cartas de Iwo Jima e, entre os brasileiros, Eduardo Moscovis, que interpreta um militar com um pouco mais de sensibilidade que os outros. A participação, no entanto, é pequena.

Segundo os produtores, a estreia no Japão foi ótima, o que é animador para o cinema nacional. Por aqui, sua trajetória começa neste fim de semana. Longe do estereótipo da ação, existem algumas sequências com pequenas doses de violência, mas o filme passa longe da seita Shindo Renmei, que deu origem aos tais atos. Corações Sujos é, acima de tudo, uma história de dor, sofrimentos e perdas. No entanto, a aposta nos poucos diálogos e nos muitos silêncios, mesmo que acompanhados de (boas) imagens, pode significar frieza para muita gente. Afinal, brasileiro ouve, como mostram sua relações com o rádio no passado e, atualmente, com a televisão. Assim, fica a dúvida se esse "passado a limpo", vai conquistar o coração dos espectadores, que podem sentir falta de um mergulho um pouco mais evidente nos conflitos pessoais mostrados.
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