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    Pina
    Críticas AdoroCinema
    5,0
    Obra-prima
    Pina

    O outro cinema 3D

    por Bruno Carmelo

    De maneira discreta, passando pelos festivais internacionais de cinema sem levar nenhum prêmio de destaque, Pina chega aos cinemas brasileiros longe dos holofotes. Enganam-se aqueles que acreditam que esta é uma simples biografia da dançarina e coreógrafa alemã Pina Bausch, e que é necessário ser um íntimo da dança contemporânea para apreciar o filme. Este documentário ultrapassa a simples biografia, e seu interesse vai muito além da história de vida de Pina.

    Inicialmente, este é o retrato de uma personalidade como raramente se vê no cinema. Pense nos "biopics" mais famosos sobre músicos destes últimos tempos, sejam eles em ficção ou documentário. A grande maioria foca no acesso ao estrelato e na decadência, ressaltando a vida difícil dos biografados, para tornar a conquista do sucesso algo ainda mais impressionante. A vida de Edith Piaf (Piaf - Um Hino ao Amor), Ray Charles (Ray) e outros foi retratada como um espetáculo, como a trajetória excepcional de um gênio.

    Pois Pina apresenta o retrato de uma profissional. Wim Wenders, fã assumido de sua conterrânea há décadas, não apresenta nenhum interesse pela infância de Pina Bausch, pela origem de seu talento ou o fim de sua vida. O que interessa neste filme é o que fez da alemã uma figura conhecida no mundo inteiro: suas coreografias. Por isso, pode surpreender uma biografia em que quase não se veja a biografada, mas esta é a originalidade do projeto: desmistificar a pessoa para se focar inteiramente na dança.

    Para isso, Wim Wenders escolheu o 3D, ferramenta rara dentro dos documentários, e ainda mais rara no dito "cinema de arte". Enquanto a terceira dimensão costuma ser usada para se obter efeito um maior de imersão, este filme opta por aumentar a noção de espaço – fundamental à dança. Ao invés de limitar os dançarinos de Pina Bausch aos palcos, o diretor leva-os igualmente às ruas, a enormes galpões, salões vazios, usinas desativadas. Seguindo o lema da coreógrafa ("Dancem, dancem, senão estamos perdidos"), o filme ignora o aspecto elitista da dança contemporânea e leva-a a todas as pessoas, justamente como Pina sempre quis fazer.

    Nestes enormes espaços, profundos e na maioria dos casos vazios, o espectador tem apenas a dança e o espaço para apreender. A trilha pop-eletrônica colabora para atribuir um ritmo pulsante às sequências de dança, enquanto o 3D fornece uma impressão de espaço infinito, de um palco que se estende para muito além da projeção. Os dançarinos se movem sobre solos que não terminam nunca, saindo do espaço quadrado das telas, tornando-se vivos junto à plateia. Esqueça o 3D como ilusão, magia: este filme propõe um realismo ainda maior, ainda mais potente, justamente pela proximidade que se instaura com a dança. Wenders percebeu que, enquanto o cinema é uma arte do tempo, a dança sempre foi uma arte do espaço – e o 3D permitiria uma fusão impressionante deste aspecto essencial de cada um.

    Entre números de dança, alguns dos bailarinos falam de suas experiências pessoais com Pina Bausch. Os mais experientes mostram admiração, enquanto os mais jovens temem e mesmo criticam a personalidade da dançarina. Pina, o filme, encontra-se do lado destes últimos: numa abordagem bastante moderna pelo uso de sua tecnologia 3D e sua música eletrônica, ele ousa ter uma visão crítica e não idealizada de sua heroína, algo muito diferente dos mártires sofridos e perturbados das biografias musicais comerciais. A discreta Pina Bausch, que nunca explorou o uso de sua própria imagem, teria gostado bastante.

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