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Baile de máscaras
De Bruno Carmelo
Você provavelmente já ouviu falar em histórias como esta: uma jovem princesa é forçada a se casar com um rei pouco afetuoso, e passa a levar uma vida monótona. Ela não tarda a se apaixonar por um homem jovem e belo - o exato oposto de seu marido -, dando início a uma relação amorosa secreta. A literatura, o cinema e o teatro estão repletos de tramas idênticas a esta, e O Amante da Rainha segue fielmente a cartilha. O grande atrativo, neste caso, é o fato de se tratar de uma trama real, representando um dos grandes episódios da história da Dinamarca.
No entanto, enquanto simples narrativa cinematográfica (afinal, ninguém é obrigado a conhecer as fontes verídicas do roteiro), esta produção de 2h20 de duração pode decepcionar um pouco por sua previsibilidade. A princesa inocente, o rei louco, o amante carinhoso, a sogra ambiciosa e o padre conservador estão presentes, em seus lugares predeterminados no tabuleiro, na ordem esperada de aparição. Também existe um número considerável de diálogos explicativos, detalhando a crise social da Dinamarca no final do século XVIII. Isto nasce da clara vontade de exportar o filme para países estrangeiros, mas acaba dando origem a falas artificiais, em que os personagens dizem uns aos outros coisas que ambos já deveriam saber.
Mesmo assim, salta aos olhos a produção grandiosa do filme, com seus cenários suntuosos, figurinos detalhados e trabalho primoroso de fotografia. Percebe-se o cuidado sempre impecável da Zentropa, uma das maiores produtoras de cinema do norte europeu, que costuma cuidar dos filmes de Lars von Trier – um dos produtores deste drama, aliás. As atuações também são interessantes, principalmente de Mads Mikkelsen, que desenvolve uma boa ambiguidade entre o médico apaixonado e o ambicioso articulista político.
Entre os raros traços de originalidade, dois deles merecem ser destacados: primeiro, o fato de o amor entre a rainha Caroline Mathilde (Alicia Vikander) e o médico Johann Struensee (Mikkelsen) ser retratado como um mero pano de fundo para o tema da entrada do Iluminismo no norte da Europa. Quando deve optar entre o amor da rainha e seu idealismo político, Struensee não hesita: escolhe a política. Em Hollywood, provavelmente a história de amor ganharia traços mais lacrimosos. Outra ousadia é o feroz discurso anticlerical, que dificilmente apareceria com tanto cinismo em algum país de maior tradição cristã.
Por fim, O Amante da Rainha consegue ser ao menos tão bom quanto as dezenas de grandes romances de época que o cinema já produziu. Embora não consiga se destacar, ele integra um grupo de alta qualidade.
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