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    A Origem
    Críticas AdoroCinema
    5,0
    Obra-prima
    A Origem

    Um sonho que não se esquece

    por Lucas Salgado

    Uma das muitas funções de um crítico de cinema é não se deixar influenciar por grandes expectativas. Um julgamento objetivo só será possível se analisado aquilo que o filme é e não aquilo que se esperava que fosse. Obviamente, como vivemos em um mundo globalizado, em que tomamos conhecimento dos grandes acontecimentos no momento em que ocorrem, algumas vezes não é possível escapar do nascimento de certa expectativa por um projeto tão elogiado e discutido como A Origem. Quando isso acontece, cabe ao crítico apenas assumir o que esperava do filme e como este se saiu diante desta expectativa, somado claramente às análises pertinentes de estrutura e conteúdo.

    Desta forma, em tom confessional, admito que esperava que A Origem fosse um grande filme. Acontece que, ainda assim, estava errado. O longa é muito mais do que um "grande filme". Trata-se do melhor filme da carreira de Christopher Nolan, o que não é pouca coisa, tendo em vista que dirigiu Amnésia, Batman Begins e Batman - O Cavaleiro das Trevas, e o melhor de 2010, até a data de seu lançamento. Dizer que trata-se de uma obra-prima seria exagero, uma vez que para tanto devemos esperar para ver como o filme vai envelhecer, mas assumo o risco de afirmar que o longa virá a ser uma obra-prima.

    A história gira em torno de um grupo de ladrões que rouba segredos valiosos do profundo subconsciente durante o sono das pessoas, quando a mente está em seu estado mais vulnerável. E só cabe dizer isso sobre a sinopse, para não cair na tentação de revelar detalhes importantes da trama.

    Nolan é o diretor mais criativo de sua geração e com Inception (no original) esta criatividade atinge um ponto que somente os grandes gênios atingiram. Por essas e outras, o diretor tem sido constantemente (e erroneamente, diga-se) comparado com ícones do cinema como Stanley Kubrick e Federico Fellini. A própria ideia de criatividade e originalidade repele essas equivocadas comparações. Ser original, neste caso, significa ser único.

    O longa promete ser tão significativo neste início de século XXI quanto Matrix foi no final do século XX. Os dois filmes, a propósito, têm muito em comum, principalmente o fato de criarem um universo fantástico através de efeitos visuais mas sem ignorarem a necessidade de um roteiro interessante. Neste sentido, A Origem até supera o referido filme, uma vez que, por mais que a complexidade seja parecida, deixa menos pontas soltas. Matrix, já prevendo continuações, deixou uma série de coisas a completar que acabaram mal solucionadas nos dois últimos filmes. Já no longa de Nolan isso não acontece, em que tudo o que precisava foi explicado.

    Com mais uma brilhante atuação de Leonardo DiCaprio, um ator cada vez mais competente, A Origem tem como principal mérito o fato de abranger diversos gêneros cinematográficos sem fracassar em nenhum deles. É uma ficção científica fascinante, uma ação pungente e, por que não, um drama romântico de proporções surpreendentes. Marion Cotillard (lindíssima), Joseph Gordon-Levitt, Cillian Murphy, Michael Caine, Tom Berenger, Ken Watanabe e Ellen Page completam o elenco do filme. A atriz de Juno, inclusive, tem papel fundamental de representar a plateia na produção. É através de sua personagem, uma novata no grupo, que os espectadores tem acesso às explicações mais diretas sobre o universo fantástico.

    Apesar de bem desenvolvido e explicado, e até por isso, é importante destacar que o filme exige do espectador curiosidade e perspicácia para captar suas principais nuances. Resumindo, o longa não trata o espectador como ignorante.

    A Origem é uma união de multiplos acertos. A direção de arte e a fotografia são excepcionais, variando de forma significativa dependendo do sonho em foco. É interessante notar, no entanto, que o roteiro não usa a fiigura do sonho para tomar grandes liberdades com relação ao mundo real. Ou seja, não é porque estamos vendo um sonho que veremos estradas de tijolos amarelos ou elefantes voadores. A trilha sonora merece destaque a parte, com um trabalho excelente desenvolvido por Hans Zimmer. O compositor vencedor do Oscar realizou um trilha intensa, utilizando-se basicamente de duas notas musicais - lembrando o tema clássico de Tubarão, desenvolvido por John Williams. A música "Non, Je Ne Regrette Rien", cantada por Edith Piaf, está presente no longa e é muito mais que uma referência à personagem que rendeu o Oscar à Marion Cotillard. O tema principal composto por Zimmer é derivado justamente desta canção.

    Primeiro trabalho completamente original de Nolan desde sua estreia na direção com Following (1998), A Origem é um sonho do qual você não vai esquecer quando acabar. Um filme para ser visto e revisto.  

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