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Suspíria - A Dança do Medo
Críticas AdoroCinema
2,5
Regular
Suspíria - A Dança do Medo

O clássico pelo avesso

por Bruno Carmelo

“Elas são bruxas!”, se exaspera uma perturbada Patricia (Chlöe Moretz) em visita ao terapeuta. É curioso como o novo filme escancara, desde a primeira cena, algo que o clássico Suspiria (1977) demorava cerca de 90 minutos para revelar. “Elas querem entrar em mim”, reclama a jovem dançarina, enquanto toca o próprio sexo. Em sua adaptação pós-moderna do terror italiano, o diretor Luca Guadagnino parece ter abraçado o desafio de explorar a mesma premissa - uma jovem dançarina atormentada por fenômenos estranhos numa academia de balé - para fornecer um filme oposto.


Assim, o cenário multicolorido e teatral da produção original é trocado por uma academia escura e cinzenta; as insinuações de sexualidade e perversão femininas são escancaradas; o caráter fabular é substituído por um recorte histórico preciso (a Guerra Fria e os resquícios da Segunda Guerra Mundial). Mesmo a dança, praticamente ausente no filme da década de 1970, é utilizada em diversas cenas, adquirindo um papel narrativo fundamental. Pode-se dizer que o novo filme decide retirar do clássico sua aura fantástica para se aproximar de um ultrarrealismo no qual datas, locais históricos e efeitos visuais verossímeis são fundamentais para provocar o espectador.



O começo dessa jornada “em seis atos e um epílogo”, como afirma o letreiro, é muito bem-sucedido. A trama constrói um forte senso de ambientação através de movimentos de câmera agressivos e da investigação do corpo das atrizes durante os ensaios. Guadagnino explora a noção de desgaste físico para justificar uma estafa mental indispensável à introdução dos delírios e paranoias. Uma cena em que a dança da novata Susie Bannion (Dakota Johnson) condiciona outra dança aterrorizante, numa sala distante, constitui o melhor momento do filme: em poucos minutos, o projeto resume a ideia de passar entre o controle e o descontrole, entre a dedicação e o sacrifício, entre o esforço e a tortura. A construção psicológica inicial é fascinante, ajudada pelo trabalho cru das luzes frias e montagem brusca.


No entanto, a narrativa é conduzida por um cineasta jamais se ateve ao domínio das sugestões: ele gosta de deixar seus significados claros, suas simbologias explícitas. Para um filme de terror, essa abordagem implica numa narrativa inchada de signos sem desenvolvimento pleno, sucedendo-se uns aos outros pelo simples prazer do acúmulo. São muitos flashes de pesadelos aterrorizantes, muitas luzes claras passeando pelos cômodos, muitas imagens de cabelos longos e noticiários sobre a busca por terroristas na cidade dividida de Berlim. Suspíria consegue ser ao mesmo tempo lacônico e redundante: por um lado, sua metáfora política nunca se desenvolve a contento, por outro lado, ela é mencionada tantas vezes que ocupa um tempo excessivo na trama. Mesmo as interpretações do próprio filme ficam a cargo do terapeuta Klemperer (Tilda Swinton), que explica o significado de alucinações, descreve o fenômeno das “três mães”, justifica a crença em mitos. O aspecto “intelectual” do filme se converte numa autoleitura aborrecida, por impedir ao espectador chegar às mesmas conclusões sozinho.



Mas nada se compara ao terço final, quando Guadagnino aposta numa extravagância sangrenta e operística, não muito distante do desejo de destruição de mãe!, de Darren Aronofsky. O filme aposta que mais é melhor, embora o tratamento do grotesco se leve tão a sério que beire a paródia. Talvez esta seja a principal deficiência da versão contemporânea de Suspiria: não perceber seu caráter inerentemente alegórico, colocando a Guerra Fria e uma reunião de bruxas no mesmo patamar de seriedade e realismo. Apesar de sua grandiloquência (ou por causa dela), nenhuma cena do novo projeto consegue alcançar o nível de terror da simples perseguição ao pianista e seu cachorro na produção original: enquanto Dario Argento trabalhava o poder da sugestão, o diretor italiano aposta num jogo em que todas as cartas estão claras.


Ao menos, Suspíria - A Dança do Medo é marcado por uma produção competente, refinada, além de um trabalho uniformemente bom do elenco. As atrizes foram escolhidas pelos traços que vêm demonstrando em produções recentes: Tilda Swinton pelo poder camaleônico de mentora, Dakota Johnson pela fragilidade ocultando uma libido aflorada, Chlöe Moretz pela figura de adolescente perturbada. Infelizmente, a dança tão bem retratada no início se converte numa decepcionante apresentação do espetáculo “Volk”, em montagem tão fragmentada que mal se enxerga o corpo das dançarinas em movimento. Por fim, os espectadores terão conhecido a trama original numa versão deslumbrada com sua própria produção, seus recursos, sua possibilidade de ser maior e mais chamativo. A comparação entre os dois filmes também permite enxergar o valor da forma em relação ao conteúdo: a partir de premissas idênticas, Argento e Guadagnino chegam a resultados totalmente distintos, cada um fruto de seu tempo e de uma crença específica no valor da linguagem cinematográfica.

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