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    Julie & Julia
    Críticas AdoroCinema
    2,3
    Regular
    Julie & Julia

    Mulheres de Fases

    por Francisco Russo

    Filmes que falam sobre culinária costumam ter a capacidade de abrir o apetite do espectador. É difícil resistir ao desfile de pratos e quitutes, mesmo os mais requintados. É o que acontece com Julie & Julia, mesmo não sendo esta sua intenção principal. Aqui a culinária é um meio, não o objetivo. Tanto Julia Child quanto Julie Powell a usam para descobrir a si próprias, realizar sonhos pessoais e encontrar um rumo na vida. Além disto, a diretora Nora Ephron aproveita para exibir um breve panorama sobre a mulher do pós Segunda Guerra Mundial e a dos dias atuais.

    Julia Child vivia na Paris de 1948, devido ao trabalho como diplomata do marido. Esbanjava simpatia, mas não tinha muito o que fazer. Sua entrada na conceituada escola Le Cordon Bleu foi quase um capricho, daqueles típicos de endinheirados entediados. Deu certo. A partir de então passou a desenvolver um livro de receitas, visando apresentar à dona de casa americana a culinária francesa.

    Julie Powell tem 30 anos e trabalha no estressante mundo do telemarking. É o "patinho feio" de sua turma de amigas, que estão em situação financeira e profissional bem melhor. Escritora frustrada, Julie resolve impor a si mesma um desafio: realizar as 524 receitas do livro de Julia Child ao longo de um ano e relatar suas experiências em um blog, ferramenta em expansão em um mundo cada vez conectado.

    A relação entre Julie e Julia nasce deste desafio. Ao longo das pouco mais de duas horas é apresentado o desenrolar da vida de cada uma, em paralelo, com situações de empolgação e tristeza meticulosamente calculadas para que ocorram em sintonia. Só que a história de vida de ambas não é tão interessante assim. Desta forma, o que existe em torno delas torna-se o grande chamariz. São os pequenos detalhes que caracterizam tão bem cada época e que demonstram o porquê de cada uma ter agido desta forma.

    Um exemplo: em uma cena emblemática, Julie sente-se humilhada pelas amigas. Não por seu jeito de ser, mas por não ter obtido sucesso. E, na cultura americana, não obter sucesso é um pecado grave. Eis o suficiente para que decida dar a volta por cima e se auto impor o desafio envolvendo sua musa inspiradora, Julia Child. A competitividade dos dias atuais está ali exposta. O novo conceito de escritor, envolvendo a interatividade com o público, também está presente através do blog. Até mesmo a necessidade que surge de receber comentários de pessoas que não se tem a menor ideia de quem sejam, como forma de preencher o vácuo ansioso por alguma atenção e valorização. Este é o mundo moderno, que cada vez mais substitui o contato pessoal pelo virtual.

    Por sua vez, Julia leva uma pacata vida de dona de casa sem ter o que fazer. Suas principais lamentações são a ociosidade e o fato de não poder ter filhos. É outro sintoma típico da época, onde as mulheres ainda não tinham saído de forma tão voraz para o mercado de trabalho. O machismo presente no meio da culinária - ainda existente -, a inexistência de uma aspiração pela fama e o casamento sólido com Paul Child são outras características que representam bem qual era, geralmente, o papel da mulher neste período.

    Estas análises e comparações dão o tom de Julie & Julia. Amparado pela bela atuação de Meryl Streep, que dá um charme especial graças aos trejeitos e gracejos aplicados em sua Julia Child, e a simpatia de Amy Adams em sua Julie Powell, trata-se de um filme leve e agradável. Peca por alguns exageros, já que em certos momentos a história de Julia é alongada em excesso para que seu momento de vida coincida com o vivido por Julie no presente. Destaque também para aquele que talvez seja a maior demonstração das mudanças ocorridas entre as épocas de Julia e de Julie: o uso da manteiga. Fartamente utilizada por Julia, é hoje quase que execrada da cozinha moderna. O mundo, realmente, mudou bastante.

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