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    Wall-E
    Críticas AdoroCinema
    5,0
    Obra-prima
    Wall-E

    À moda antiga

    por Francisco Russo

    É sempre bom assistir a filmes da era do cinema mudo. Trata-se de outro estilo, refletido não só na visão de mundo da época mas na própria linguagem cinematográfica. Um cinema mais simples, mais expressivo, que contava sua história basicamente através de emoções, sem as pirotecnias atuais e com muita criatividade. Não que o cinema falado seja ruim, existem várias pérolas produzidas neste formato. Mas o cinema mudo tem seu charme. E é justamente este sentimento que Wall-E, a ousada nova produção da Pixar, traz de volta.

    Ousada porque foge completamente do panorama do cinema de animação comercial da última década. O que chega a ser até curioso, visto que a ascensão da animação computadorizada começou com Toy Story, 1º longa-metragem da... Pixar. Curioso, mas não estranho. Ao longo dos anos o estúdio sempre se mostrou um passo a frente dos demais. Não apenas investiu na melhoria técnica da animação, mas também no roteiro de cada um de seus projetos. E este é seu grande diferencial: ao invés de explorar ao extremo uma mesma fórmula, a Pixar busca criar. Em cada um de seus filmes pode-se perceber situações surpreendentes, seja em pequenos detalhes de contexto ou no próprio conceito do filme. Wall-E vai neste segundo caminho. Chega a ser espantoso ver uma suposta animação infantil com tantas referências à história do cinema e seguindo um caminho tão diferente do lugar comum de animais falantes engraçadinhos que a animação comercial se tornou.

    Tudo começa a partir de uma Terra inóspita e entulhada de lixo, uma visão que já de início surpreende. Nele vive o pequeno robô Wall-E, que tem por missão compactar o lixo existente. Tendo apenas a companhia de uma barata - uma ótima aposta corajosa da Pixar -, Wall-E é também curioso. Coleciona diversos objetos que encontra durante o trabalho, que indicam que neste mesmo planeta um dia já houve vida. E assiste, repetidas vezes, uma fita VHS do musical Alô, Dolly!. Lembra dele? Hoje em dia pouco lembrado, concorreu a 7 Oscars em 1969 e fez muito sucesso. É apenas a 1ª, e mais explícita, de uma série de citações que fazem com que qualquer conhecedor de cinema se delicie.

    Como se pode perceber, a vida de Wall-E é solitária. Até surgir Eva, um moderno robô que passa a vasculhar todo o planeta. Sempre curioso, Wall-E tenta conhecê-la. E se apaixona. Uma situação insólita por serem dois robôs os envolvidos, mas ao mesmo tempo terna e cativante. Pois o sentimento deles não é apresentado por palavras, mas por emoções. Praticamente em metade do filme não há diálogos, apenas ruídos robotizados que quase sempre são a repetição dos nomes do casal. A excelência da animação e os precisos movimentos de Wall-E e Eva, cuidadosamente e carinhosamente calculados, dão o tom. E nasce uma história de amor, das mais puras e singelas que o cinema produziu nos últimos anos.

    Há diversas cenas que impressionam, especialmente as situadas no espaço. Uma em especial merece destaque: o balé de Wall-E e Eva, quando se divertem voando do lado de fora da nave. É uma cena mágica, pela junção precisa da beleza visual e emocional. Neste momento o filme já mudou bastante sua história, trazendo à tona o que aconteceu com os humanos que abandonaram a Terra. E aqui vem mais uma grande idéia da Pixar, com uma análise crítica da sociedade moderna. Mais uma vez, surpreendente.

    Se Wall-E pudesse ser definido com apenas uma palavra talvez a ideal seja graciosidade. Pela história, pelo visual, pelos personagens carismáticos. Um filme corajoso em sua proposta, com claro enfoque adulto mas que pode também agradar ao público infantil. Resumindo, mais uma pérola da Pixar.

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