Carlos Castro
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4,0
Enviada em 23 de março de 2019
O retorno de Jordan Peele confirma que o sucesso de crítica e público de Get Out não foi sorte de principante e nem nada do tipo. O cineasta prova seu valor em seu segundo filme, com uma direção autêntica, um apuro técnico irretocável e um roteiro quase perfeitamente arquitetado.

Começando pelo roteiro, então, que pra mim é o maior destaque do filme. A mente criativa de Peele traz uma história que foge de obviedades e não tem nada de convencional, tanto em conteúdo quanto em narrativa. A ameaça aqui é fantasiosa, mas desesperadamente real, por não se tratar de fantasmas, monstros, zumbis e sim apenas humanos. O mistério é estabelecido sem demora e a intriga sobre o que de errado está acontecendo cresce a cada pista que é fornecida. Algumas situações são questionáveis e isso é proposital, pois a revelação final, além de surpreender, explica muitas das falas e atitudes da personagem principal. Por ter esse feeling ao saber o que exatamente revelar durante o desenrolar e pelo significado subjacente das metáforas que a trama carrega, é de se esperar indicações a prêmios por melhor roteiro.

Engraçado que, onde o filme mais acerta, também é onde comete seu maior erro: os diálogos de humor. Em Get Out o diretor também usa esse artifício, mas por um personagem que não está presente onde o conflito acontece e por estar distante, suas situações engraçadas não interferem no clima de tensão que é estabelecido na casa dos brancos. Já em Us, são os próprios personagens que estão passando pela situação desesperadora que soltam as piadinhas que soam deslocadas e acaba por quebrar, mais de uma vez, o suspense que o diretor cria. Ele acaba quase se enforcando.

Mas, felizmente, isso não compromete o filme, porque Jordan Peele realmente sabe criar atmosfera, sendo essa a principal característica de sua direção. A música magistralmente trabalhada somada com as boas atuações e as cenas bizarras causa desespero no espectador, que a certa altura da história, já não sabe pelo que esperar.

Minha apreciação por Get Out e o embalo das críticas positivas que Us recebeu, fez com que eu fosse assistir o filme com as expectativas muito altas e isso acabou me frustrando no quesito terror. É claro que a intenção do diretor foi causar mais suspense do que horror, dado o ritmo paciente em que a história é contada. No entanto, o filme se beneficiaria muito com cenas de conflito mais empolgantes e um grau a mais no aspecto técnico de filmes de terror. Os vilões não são tão assustadores e suas atitudes são pouco ameaçadoras. Confesso que esperava mais subversão e violência.

Mesmo assim, o filme não deixou de me surpreender. Além da qualidade técnica de direção e roteiro já citada, a extraordinária trilha sonora me chamou bastante atenção, e por ser um projeto extremamente autoral, me admira a coragem de Jordan Peele em correr riscos por expor suas ideias sem subestimar o espectador e contar com ele para que Us seja mais um sucesso de público, pois de crítica já é realidade.