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Dois Lados da Guerra: Crítica Dupla Jogos Vorazes: A Esperança Parte 1
Depois de Em Chamas elevar o nível da franquia Jogos Vorazes nos cinemas, Jogos Vorazes: A Esperança Parte 1 chega com dois desafios. O primeiro é conseguir adaptar um livro bastante metafórico sem que isso fique cansativo na telona e o segundo é introduzir o último filme para encerrar a série com chave de ouro. Para fazer essa crítica vou contar com uma fórmula que já utilizei para algumas outras críticas que fiz: a crítica dupla.
Na primeira parte do meu texto você poderá ler uma crítica sem spoilers, levando em conta a qualidade técnica do filme e não levando em consideração que ele é uma adaptação. Já na segunda parte, eu vou analisar o filme como a primeira parte da adaptação do livro A Esperança, logo, conterá muito spoiler. No final, farei um balanço entre essas minhas duas considerações para tentar avaliar o filme de uma forma geral.
Uma ótima continuação - Crítica Sem Spoiler
Ao mesmo tempo em que é fácil enumerar várias características marcantes do filme, é fácil definí-lo com poucas palavras. Tudo é emocionalmente arrebatador. Tanto as cenas simples com diálogos bem marcados quanto as que envolvem uma ação maior estão completamente impecáveis. Chega a ser bárbaro o nível da produção realizada e ela aliada a um conjunto de atores talentosos, com atuações marcantes, fazem desse filme um definitivo “must-see”.
Não posso começar essa parte sem dar exclusividade a ela: Jennifer Lawrence. Eu sinceramente não consigo enxergar outra pessoa fazendo Katniss. Não há nenhum momento em que eu pense “poxa, ela poderia ter se entregado mais”. Aliás, no filme todo eu fiquei impressionado com tamanha entrega e determinação para fazer de cada cena um feito único. Só pela expressão facial ela consegue transmitir de forma quase paupável o que sua personagem está sentido e confesso que me emocionei várias vezes. O longa foi dela, sem dúvidas.
Outra atuação memorável foi de Josh Hutcherson que mesmo fazendo uma participação pequena conseguiu emocionar em todas as suas cenas. Junto com Lawrence, ele encontrou uma nítida química que transcende as telas seja em cenas dramáticas ou em momentos de mais tensão. Os dois, juntos e separados, alcançaram suas melhores atuações da franquia até agora.
Seria muita injustiça deixar de mencionar nomes como Philip Seymour Hoffman, Julianne Moore, Natalie Dormer, Elizabeth Banks, Woody Harrelson, Jena Malone e outros mais que fizeram desse filme um evento único. Os que retornaram para seus personagens parecem ainda mais confortáveis com seus papéis e os iniciantes não fizeram feio. Conseguiram se integrar facilmente no grupo e roubar cenas como se já fossem de casa.
Por mais que o filme seja uma adaptação de um livro infanto-juvenil ele não se limita nas cenas em que há uma necessidade de chocar o público. Muito pelo contrário. Esse é o filme mais sombrio e dramático da franquia e não poupa o uso da violência para mostrar o que há para ser mostrado. A direção opta por um clima mais escuro para amadurecer ainda mais a história que por si só já pode ser considerada adulta pelos temas abordados.
E é justamente o enredo que é o grande trunfo do filme e do livro. Muito do que nossa sociedade já passou e ainda passa nos dias de hoje é retratado de forma magistral. Até onde vai um governo opressor para calar seu povo e até quando esse mesmo povo se calará diante de tanta negligência desse mesmo governo? Hoje mesmo li uma matéria em que três jovens foram detidos na Tailândia por fazerem o símbolo com os dedos da rebelião presente na série Jogos Vorazes, no cinema. Isso tudo para mostrar descontentamento com o golpe militar no país.
Esse é o mote da história. Até quando iremos nos calar perante a tudo de errado que está acontecendo no mundo? Até quando vamos nos iludir dizendo que tudo está bem? Quantas vidas já vimos serem perdidas enquanto o governo passa muito bem, obrigado, desfrutando de toda a riqueza, enquanto muitos vivem em situação de miséria? O livro é como se fosse o tordo e o filme, só mais uma forma de divulgá-lo e aumentar o pensamento de revolução. Até porque, até em uma democracia podemos ver reflexos de Jogos Vorazes.
Porém, para aqueles que não seguem a franquia de filmes tão avidamente ou não leram os livros, eu acho recomendável pelo menos ver o filme anterior. Há algumas partes em que se cabia o uso de flashbacks para o público se lembrar do que ocorreu, mas infelizmente eles não estão presentes. Logo, para aqueles que não se lembram tão bem do antecessor, esse pode ser um pouco confuso para assimilar e é preciso lembrar que esse filme é uma continuação.
spoiler: Uma adaptação real - Crítica Com Spoiler do Livro Quando olhamos para trás e vemos adaptações como Jogos Vorazes e Em Chamas fica muito claro alguns pontos. O primeiro de tudo é que são filmes feitos acima de tudo para os fãs da série, recheados de passagens e falas precisamente copiadas. Uma outra característica é de fato a maior adaptação de todas: a transformação de uma história em primeira pessoa para uma equivalente em terceira pessoa. Jogos Vorazes: A Esperança Parte 1 não só continua a mesma fórmula de sucesso como faz isso ainda mais excessivamente. Porém, houveram alguns pontos em que a adaptação pecou um pouco. Pontos positivos - Distrito 8: Eu esperei muito por essa cena, talvez foi a que eu mais tenha esperado e cada segundo foi perfeitamente perfeito. A parte em que Katniss entra no hospital e vê todos os feridos foi desesperador e chocante. Fiquei muito comovido nessa parte. Depois houve toda aquela passagem do bombardeio e a cena em que Katniss manda uma mensagem para o presidente. Acho que nem em meus devaneios eu conseguiria ter visualizado tudo tão precisamente no lugar. - Árvore forca: Gente, na boa, eu ainda não consegui assimilar essa passagem. Ela foi algo tão surreal que ainda não a processei completamente. Imaginava a música com um ritmo diferente, mas não importa. Ela ficou muito melhor do que imaginei e ainda com a voz de Jennifer Lawrence e sua atuação foi um dos ápices da franquia no cinema. - Filmagem das Propagandas: Além de ser um alívio cômico para toda a tensão e o drama que o filme carrega, foi outra cena bem fiel e foi pontuada com um momento em que eu quase me levantei da cadeira e aplaudi: a chegada de Haymitch. Sério, foi como se eu estivesse lendo o livro enquanto via a cena. Parabéns a todos os envolvidos. - Revoltosos e Snow: Por mais que eu soubesse que haveriam as já famosas cenas extras sobre o que se passa em Panem fora do alcance de Katniss, eu fiquei absolutamente surpreso. Tudo o que foi feito só ajudou a ambientar toda a trama e o contexto que o livro passa apenas pelos olhos e sentimentos confusos da protagonista. Aqui, tudo ganha mais corpo, literalmente. Nós podemos ver Snow matando vários inocentes sem nenhuma piedade. Em contra partida, pessoas perdendo suas vidas inteiramente por uma causa. Como não se emocionar com a cena em que eles sobem em árvores e explodem todos os pacificadores? E ainda mais com a cena em que eles cantam a música da árvore forca para detonar a represa? Mesmo sabendo que iriam morrer, todos continuaram o seu caminho em prol da missão e ficaram lado a lado usando um colar de “Esperança”. O Snow de Donald Sutherland está incrível e eu gostei dele ter ganhado mais destaque nesse filme. A cena de seu discurso sobre o tordo foi perfeita para ilustrar a grande ditadura que Panem se encontra e mais ainda pelo fato de sua neta, que propositalmente se parece com Prim, ficar com medo por usar uma trança como Katniss. - Personagens: Praticamente todos estiveram muito bem, mas quero destacar alguns aqui. -> Peeta: Estava completamente perfeito. Desde sua primeira aparição até o fim do filme. Destaque para a cena em que ele pula para cima da Katniss. Foi um momento tão tenso que eu já estava quase parando de olhar para a cena. Não foi só a garota em chamas que ficou sem fôlego. -> Haymitch: Desde a sua entrada triunfal dizendo “E é assim, meus caros, que morre uma revolução” até cenas menores com Katniss ele deu show. Também serviu para dar aquela meia parada no drama com suas piadas e suas ironias. Foi ótimo de se ver. -> Plutarch: Não há muito do que se falar sobre ele. Desempenhou muito bem seu papel sendo o cabeça por trás das ações do distrito 13 e o grande conselheiro de Coin. Ele foi outro que ganhou mais espaço no filme, merecidamente. -> Finnick: Apesar de não estar tão louco quanto no livro, ainda consegui ver sua essência ali. Seu modo de fazer nós para relaxar e o amor incondicional por Annie. É uma pena que seu grande momento tenha sido ofuscado, mas falarei sobre isso mais a frente. -> Cressida: Simplesmente esplêndida. Desde sua caracterização completamente fiel até o modo de falar. Quando ela abria a boca você via aquele sotaque da Capital de que todos falam. Sua personagem foi muito bem trabalhada. - Atenção nos detalhes: Toda boa adaptação que se prese não se resume em copiar as passagens dos livros pura e simplesmente. Às vezes, há coisas que não se fazem tão importantes para estar no filme, mas quando estão, representam o grande trabalho que tiveram para levar o máximo do mundo do livro para a telona. Um claro exemplo é a primeira cena com Katniss dizendo para si mesma o que era verdadeiro, enquanto estava escondida. Além desse, temos vários outros como a Katniss distraindo todos brincando com o Buttercup e fazendo uma analogia dessa brincadeira inocente com o que o Snow está fazendo com ela. Aliás, só o fato do gato estar presente no filme, já é uma coisa louvável. Também há uma tomada logo no início do filme que pega a Katniss descendo o elevador do distrito 13. Eu me lembrei na hora da mesma tomada, em um filme anterior, dela subindo com Peeta, Haymitch e Effie para o centro de treinamento. Será que foi coincidência ou alusão ao fato de que ali seria a mesma coisa que na Capital? Comentem o que acham. Para finalizar, o caderno de Cinna com a frase “Eu ainda aposto em você” foi a cereja do bolo. Pontos neutros Tiveram algumas modificações que não consegui decidir se foram boas ou foram ruins, então achei melhor colocar como neutro, porque pode ser uma outra visão para a história. - Coin: Achei a personagem muito boazinha e legal com Katniss. No livro, logo de cara ela já mostra todas as garras e demonstra logo que quem está no comando é ela e que Katniss é apenas um fantoche em suas mãos. Eu só não achei que esse foi um ponto negativo porque eu acho que isso foi intencionalmente uma manobra do enredo para que na Parte 2 ela choque mais com suas atitudes. - Effie: Por mais que eu tenha gostado muito de ver Effie na história onde ela originalmente não estava e que eu acho que deveria estar, eu sou meio chato com essas alterações de adaptações que tiram quatro e colocam um no lugar. Porém, como fico dividido entre a bela presença da personagem no filme e a história do livro, deixo isso como ponto neutro, uma outra visão da história. - Gale: Eu gostei da forma como Liam conduziu o personagem, mas não sei se a atuação dele foi tão boa assim. Por mais que seu personagem seja mais introspectivo e caladão, tiveram horas que achei faltar expressão em Liam, mas não sei se isso foi a interpretação que ele deu para Gale ou falta de vontade. - Algumas mudanças: Nessa adaptação especialmente houveram várias mudanças em relação às falas. Sim, elas estavam idênticas ao livro, mas diversas vezes eu vi que os personagens estavam trocados. Isso não interferiu de jeito nenhum na adaptação, só mostrou mais uma vez, uma visão diferente. Outra coisa que mudaram foi a atitude da Katniss. No livro, ela é quem toma a decisão de voltar ao doze e de sair para caçar. Ela até trava uma batalha com Coin para poder ganhar permissão para fazer isso. No filme, ela acaba sendo levada a fazer isso, mesmo sem demonstrar vontade o que descaracteriza um pouco a personagem, mas não chega a ser um erro. Acho que quiseram evidenciar que ela é apenas um símbolo que eles usam e abusam e que não tem tanto poder para mandar ou desmandar nas ações do distrito 13. - Boggs e Paylor: Eu imaginei os dois completamente diferentes lendo o livro. Eu achava que o Boggs era um pouco menos rígido e um pouco mais legal, mas no geral não interferiu muito. Já Paylor eu fiquei um pouco chocado. No livro ela é retratada com mais ou menos trinta anos, tendo uma expressão nova, para o cargo em que ocupava. No filme eu acho que eles exageraram no envelhecimento dela, mas nada tão grave. Pontos Negativos - Equipe de preparação: O problema todo não foi substituir a equipe pela Effie. O problema foi terem cortado uma parte importante da história que era a passagem da Katniss vendo o distrito 13 torturando pessoas inocentes por um pedaço de pão. Porém, como isso faz parte da conscientização de que Coin não era tão boa assim e que de certa forma ela é que nem o Snow, devem ter tirado justamente para ocorrer a grande virada na parte 2. Mesmo assim, eu não aprovei. E me pareceu que a cena final da Katniss vendo o Peeta amarrado enquanto a Coin fazia um discurso de “liberdade aos vencedores” foi um pouco para saldar essa dívida que o filme fez com o livro. O que acham? - Pedidos do Tordo: Por mais que a cena de Katniss anunciando que seria o Tordo para Coin tenha ficado muito parecida até nas falas, faltou uma coisa muito importante. Ela “esquece” de dizer que quando a hora chegar, será ela quem vai matar o Snow. Isso não só interfere nesse filme como no próximo. Nesse, não ficou tão claro o ódio dela pelo Snow, só na cena em que ela está no distrito 8 ela expressou isso, nas demais cenas, ela ficou com mais medo do que raiva. Já na parte 2, será ela quem vai atirar a flecha para “matar o Snow” e possivelmente vamos ter que esperar uma adaptação para que isso ocorra. O que eu não gosto de cortes assim é que mais 5 segundos de cena e uma frase, tudo estaria perfeito. É a mesma coisa de haver a dança entre Katniss e o Plutarch, mas ele não mostrar o relógio em Em Chamas. Como disse acima, tem alguns detalhes que importam e de tão simples de serem executados fica a pergunta porque os deixaram de fora. Fiquei ainda mais triste por ela falar sobre o Buttercup e não falar sobre isso. - Revelação do Finnick: Achei a cena muito mal construída. Por mais que eu tenha gostado deles mostrarem a invasão da Capital, preferiria que não tivesse tido essa cena em prol de focarem nessa parte da história que é importante. É o grande momento do Finnick, o grande momento dele cair nas graças do público para haver mais sofrimento na parte 2. Depois dessa passagem no livro eu fiquei comovido com sua história. Ao cortarem as cenas dele e juntarem com as cenas de ação da invasão, eles quebraram o foco das duas coisas. Teve uma hora que eu não sabia se eu prestava atenção no que o Finnick estava dizendo ou se na ação que estava acontecendo. Poderiam ter separado as duas cenas e fazer cada uma em sequência normal mesmo. - Explicação de algumas coisas: Por mais que o filme tenha sido bastante detalhado, ficou devendo mostrar algumas coisas mais claras. A primeira coisa foi o modo de operação do distrito 13 que não ficou tão evidente. Primeiro, cada um tem um horário diário que deve ser estritamente seguido. Sem falar na comida que é completamente racionada. A Effie chega a falar de não ter café e até citar a democracia, mas acho que poderiam ter aprofundado mais nessa questão. Mostrar mais que o distrito 13 não deixa de ser uma ditadura, mesmo que todos tenham direitos iguais. Outra coisa que o filme não abordou bem foi o fato da Prim e da mãe de Katniss trabalharem no hospital do distrito 13. Ficou muito vago isso e meio que jogaram que querem que a Prim seja médica sem nem mencionar que ela trabalhava no hospital esse tempo todo. Além disso, a cena do lago com Katniss cantando a árvore forca poderia ter um sentido muito maior se com um diálogo eles explicassem que o pai era quem costumava a cantar a música para ela e aquele era o lago onde eles iam juntos, já que não me lembro disso ser mencionado em filmes anteriores.
Resumo da Obra
O filme está excelente e com ainda mais força do que os seus antecessores. Ficou nítido que nele a produção usou e abusou da liberdade de adaptação para construir uma história com uma visão um pouco diferente com a do livro. É claro que ocorreram alguns deslizes por causa disso e alguns são até imperdoáveis, mas no geral a adaptação foi muito superior a outras adaptações disponíveis no mundo do cinema.
Porém, nada conseguirá apagar o brilho ou silenciar a voz do tordo e de seus milhares de seguidores que transformaram esse filme em uma bela obra de arte política. Na minha cabeça ainda ecoa o som da indignação e do desespero, quase que igual ao inesquecível “Do you hear the people sing?” do clássico Les Misérables. E a única coisa que me vem em mente é que Jogos Vorazes: A Esperança Parte 1 é um daqueles filmes que não podem ser apenas vistos, mas sim sentidos.
Depois de Em Chamas elevar o nível da franquia Jogos Vorazes nos cinemas, Jogos Vorazes: A Esperança Parte 1 chega com dois desafios. O primeiro é conseguir adaptar um livro bastante metafórico sem que isso fique cansativo na telona e o segundo é introduzir o último filme para encerrar a série com chave de ouro. Para fazer essa crítica vou contar com uma fórmula que já utilizei para algumas outras críticas que fiz: a crítica dupla.
Na primeira parte do meu texto você poderá ler uma crítica sem spoilers, levando em conta a qualidade técnica do filme e não levando em consideração que ele é uma adaptação. Já na segunda parte, eu vou analisar o filme como a primeira parte da adaptação do livro A Esperança, logo, conterá muito spoiler. No final, farei um balanço entre essas minhas duas considerações para tentar avaliar o filme de uma forma geral.
Uma ótima continuação - Crítica Sem Spoiler
Ao mesmo tempo em que é fácil enumerar várias características marcantes do filme, é fácil definí-lo com poucas palavras. Tudo é emocionalmente arrebatador. Tanto as cenas simples com diálogos bem marcados quanto as que envolvem uma ação maior estão completamente impecáveis. Chega a ser bárbaro o nível da produção realizada e ela aliada a um conjunto de atores talentosos, com atuações marcantes, fazem desse filme um definitivo “must-see”.
Não posso começar essa parte sem dar exclusividade a ela: Jennifer Lawrence. Eu sinceramente não consigo enxergar outra pessoa fazendo Katniss. Não há nenhum momento em que eu pense “poxa, ela poderia ter se entregado mais”. Aliás, no filme todo eu fiquei impressionado com tamanha entrega e determinação para fazer de cada cena um feito único. Só pela expressão facial ela consegue transmitir de forma quase paupável o que sua personagem está sentido e confesso que me emocionei várias vezes. O longa foi dela, sem dúvidas.
Outra atuação memorável foi de Josh Hutcherson que mesmo fazendo uma participação pequena conseguiu emocionar em todas as suas cenas. Junto com Lawrence, ele encontrou uma nítida química que transcende as telas seja em cenas dramáticas ou em momentos de mais tensão. Os dois, juntos e separados, alcançaram suas melhores atuações da franquia até agora.
Seria muita injustiça deixar de mencionar nomes como Philip Seymour Hoffman, Julianne Moore, Natalie Dormer, Elizabeth Banks, Woody Harrelson, Jena Malone e outros mais que fizeram desse filme um evento único. Os que retornaram para seus personagens parecem ainda mais confortáveis com seus papéis e os iniciantes não fizeram feio. Conseguiram se integrar facilmente no grupo e roubar cenas como se já fossem de casa.
Por mais que o filme seja uma adaptação de um livro infanto-juvenil ele não se limita nas cenas em que há uma necessidade de chocar o público. Muito pelo contrário. Esse é o filme mais sombrio e dramático da franquia e não poupa o uso da violência para mostrar o que há para ser mostrado. A direção opta por um clima mais escuro para amadurecer ainda mais a história que por si só já pode ser considerada adulta pelos temas abordados.
E é justamente o enredo que é o grande trunfo do filme e do livro. Muito do que nossa sociedade já passou e ainda passa nos dias de hoje é retratado de forma magistral. Até onde vai um governo opressor para calar seu povo e até quando esse mesmo povo se calará diante de tanta negligência desse mesmo governo? Hoje mesmo li uma matéria em que três jovens foram detidos na Tailândia por fazerem o símbolo com os dedos da rebelião presente na série Jogos Vorazes, no cinema. Isso tudo para mostrar descontentamento com o golpe militar no país.
Esse é o mote da história. Até quando iremos nos calar perante a tudo de errado que está acontecendo no mundo? Até quando vamos nos iludir dizendo que tudo está bem? Quantas vidas já vimos serem perdidas enquanto o governo passa muito bem, obrigado, desfrutando de toda a riqueza, enquanto muitos vivem em situação de miséria? O livro é como se fosse o tordo e o filme, só mais uma forma de divulgá-lo e aumentar o pensamento de revolução. Até porque, até em uma democracia podemos ver reflexos de Jogos Vorazes.
Porém, para aqueles que não seguem a franquia de filmes tão avidamente ou não leram os livros, eu acho recomendável pelo menos ver o filme anterior. Há algumas partes em que se cabia o uso de flashbacks para o público se lembrar do que ocorreu, mas infelizmente eles não estão presentes. Logo, para aqueles que não se lembram tão bem do antecessor, esse pode ser um pouco confuso para assimilar e é preciso lembrar que esse filme é uma continuação.
spoiler: Uma adaptação real - Crítica Com Spoiler do Livro Quando olhamos para trás e vemos adaptações como Jogos Vorazes e Em Chamas fica muito claro alguns pontos. O primeiro de tudo é que são filmes feitos acima de tudo para os fãs da série, recheados de passagens e falas precisamente copiadas. Uma outra característica é de fato a maior adaptação de todas: a transformação de uma história em primeira pessoa para uma equivalente em terceira pessoa. Jogos Vorazes: A Esperança Parte 1 não só continua a mesma fórmula de sucesso como faz isso ainda mais excessivamente. Porém, houveram alguns pontos em que a adaptação pecou um pouco. Pontos positivos - Distrito 8: Eu esperei muito por essa cena, talvez foi a que eu mais tenha esperado e cada segundo foi perfeitamente perfeito. A parte em que Katniss entra no hospital e vê todos os feridos foi desesperador e chocante. Fiquei muito comovido nessa parte. Depois houve toda aquela passagem do bombardeio e a cena em que Katniss manda uma mensagem para o presidente. Acho que nem em meus devaneios eu conseguiria ter visualizado tudo tão precisamente no lugar. - Árvore forca: Gente, na boa, eu ainda não consegui assimilar essa passagem. Ela foi algo tão surreal que ainda não a processei completamente. Imaginava a música com um ritmo diferente, mas não importa. Ela ficou muito melhor do que imaginei e ainda com a voz de Jennifer Lawrence e sua atuação foi um dos ápices da franquia no cinema. - Filmagem das Propagandas: Além de ser um alívio cômico para toda a tensão e o drama que o filme carrega, foi outra cena bem fiel e foi pontuada com um momento em que eu quase me levantei da cadeira e aplaudi: a chegada de Haymitch. Sério, foi como se eu estivesse lendo o livro enquanto via a cena. Parabéns a todos os envolvidos. - Revoltosos e Snow: Por mais que eu soubesse que haveriam as já famosas cenas extras sobre o que se passa em Panem fora do alcance de Katniss, eu fiquei absolutamente surpreso. Tudo o que foi feito só ajudou a ambientar toda a trama e o contexto que o livro passa apenas pelos olhos e sentimentos confusos da protagonista. Aqui, tudo ganha mais corpo, literalmente. Nós podemos ver Snow matando vários inocentes sem nenhuma piedade. Em contra partida, pessoas perdendo suas vidas inteiramente por uma causa. Como não se emocionar com a cena em que eles sobem em árvores e explodem todos os pacificadores? E ainda mais com a cena em que eles cantam a música da árvore forca para detonar a represa? Mesmo sabendo que iriam morrer, todos continuaram o seu caminho em prol da missão e ficaram lado a lado usando um colar de “Esperança”. O Snow de Donald Sutherland está incrível e eu gostei dele ter ganhado mais destaque nesse filme. A cena de seu discurso sobre o tordo foi perfeita para ilustrar a grande ditadura que Panem se encontra e mais ainda pelo fato de sua neta, que propositalmente se parece com Prim, ficar com medo por usar uma trança como Katniss. - Personagens: Praticamente todos estiveram muito bem, mas quero destacar alguns aqui. -> Peeta: Estava completamente perfeito. Desde sua primeira aparição até o fim do filme. Destaque para a cena em que ele pula para cima da Katniss. Foi um momento tão tenso que eu já estava quase parando de olhar para a cena. Não foi só a garota em chamas que ficou sem fôlego. -> Haymitch: Desde a sua entrada triunfal dizendo “E é assim, meus caros, que morre uma revolução” até cenas menores com Katniss ele deu show. Também serviu para dar aquela meia parada no drama com suas piadas e suas ironias. Foi ótimo de se ver. -> Plutarch: Não há muito do que se falar sobre ele. Desempenhou muito bem seu papel sendo o cabeça por trás das ações do distrito 13 e o grande conselheiro de Coin. Ele foi outro que ganhou mais espaço no filme, merecidamente. -> Finnick: Apesar de não estar tão louco quanto no livro, ainda consegui ver sua essência ali. Seu modo de fazer nós para relaxar e o amor incondicional por Annie. É uma pena que seu grande momento tenha sido ofuscado, mas falarei sobre isso mais a frente. -> Cressida: Simplesmente esplêndida. Desde sua caracterização completamente fiel até o modo de falar. Quando ela abria a boca você via aquele sotaque da Capital de que todos falam. Sua personagem foi muito bem trabalhada. - Atenção nos detalhes: Toda boa adaptação que se prese não se resume em copiar as passagens dos livros pura e simplesmente. Às vezes, há coisas que não se fazem tão importantes para estar no filme, mas quando estão, representam o grande trabalho que tiveram para levar o máximo do mundo do livro para a telona. Um claro exemplo é a primeira cena com Katniss dizendo para si mesma o que era verdadeiro, enquanto estava escondida. Além desse, temos vários outros como a Katniss distraindo todos brincando com o Buttercup e fazendo uma analogia dessa brincadeira inocente com o que o Snow está fazendo com ela. Aliás, só o fato do gato estar presente no filme, já é uma coisa louvável. Também há uma tomada logo no início do filme que pega a Katniss descendo o elevador do distrito 13. Eu me lembrei na hora da mesma tomada, em um filme anterior, dela subindo com Peeta, Haymitch e Effie para o centro de treinamento. Será que foi coincidência ou alusão ao fato de que ali seria a mesma coisa que na Capital? Comentem o que acham. Para finalizar, o caderno de Cinna com a frase “Eu ainda aposto em você” foi a cereja do bolo. Pontos neutros Tiveram algumas modificações que não consegui decidir se foram boas ou foram ruins, então achei melhor colocar como neutro, porque pode ser uma outra visão para a história. - Coin: Achei a personagem muito boazinha e legal com Katniss. No livro, logo de cara ela já mostra todas as garras e demonstra logo que quem está no comando é ela e que Katniss é apenas um fantoche em suas mãos. Eu só não achei que esse foi um ponto negativo porque eu acho que isso foi intencionalmente uma manobra do enredo para que na Parte 2 ela choque mais com suas atitudes. - Effie: Por mais que eu tenha gostado muito de ver Effie na história onde ela originalmente não estava e que eu acho que deveria estar, eu sou meio chato com essas alterações de adaptações que tiram quatro e colocam um no lugar. Porém, como fico dividido entre a bela presença da personagem no filme e a história do livro, deixo isso como ponto neutro, uma outra visão da história. - Gale: Eu gostei da forma como Liam conduziu o personagem, mas não sei se a atuação dele foi tão boa assim. Por mais que seu personagem seja mais introspectivo e caladão, tiveram horas que achei faltar expressão em Liam, mas não sei se isso foi a interpretação que ele deu para Gale ou falta de vontade. - Algumas mudanças: Nessa adaptação especialmente houveram várias mudanças em relação às falas. Sim, elas estavam idênticas ao livro, mas diversas vezes eu vi que os personagens estavam trocados. Isso não interferiu de jeito nenhum na adaptação, só mostrou mais uma vez, uma visão diferente. Outra coisa que mudaram foi a atitude da Katniss. No livro, ela é quem toma a decisão de voltar ao doze e de sair para caçar. Ela até trava uma batalha com Coin para poder ganhar permissão para fazer isso. No filme, ela acaba sendo levada a fazer isso, mesmo sem demonstrar vontade o que descaracteriza um pouco a personagem, mas não chega a ser um erro. Acho que quiseram evidenciar que ela é apenas um símbolo que eles usam e abusam e que não tem tanto poder para mandar ou desmandar nas ações do distrito 13. - Boggs e Paylor: Eu imaginei os dois completamente diferentes lendo o livro. Eu achava que o Boggs era um pouco menos rígido e um pouco mais legal, mas no geral não interferiu muito. Já Paylor eu fiquei um pouco chocado. No livro ela é retratada com mais ou menos trinta anos, tendo uma expressão nova, para o cargo em que ocupava. No filme eu acho que eles exageraram no envelhecimento dela, mas nada tão grave. Pontos Negativos - Equipe de preparação: O problema todo não foi substituir a equipe pela Effie. O problema foi terem cortado uma parte importante da história que era a passagem da Katniss vendo o distrito 13 torturando pessoas inocentes por um pedaço de pão. Porém, como isso faz parte da conscientização de que Coin não era tão boa assim e que de certa forma ela é que nem o Snow, devem ter tirado justamente para ocorrer a grande virada na parte 2. Mesmo assim, eu não aprovei. E me pareceu que a cena final da Katniss vendo o Peeta amarrado enquanto a Coin fazia um discurso de “liberdade aos vencedores” foi um pouco para saldar essa dívida que o filme fez com o livro. O que acham? - Pedidos do Tordo: Por mais que a cena de Katniss anunciando que seria o Tordo para Coin tenha ficado muito parecida até nas falas, faltou uma coisa muito importante. Ela “esquece” de dizer que quando a hora chegar, será ela quem vai matar o Snow. Isso não só interfere nesse filme como no próximo. Nesse, não ficou tão claro o ódio dela pelo Snow, só na cena em que ela está no distrito 8 ela expressou isso, nas demais cenas, ela ficou com mais medo do que raiva. Já na parte 2, será ela quem vai atirar a flecha para “matar o Snow” e possivelmente vamos ter que esperar uma adaptação para que isso ocorra. O que eu não gosto de cortes assim é que mais 5 segundos de cena e uma frase, tudo estaria perfeito. É a mesma coisa de haver a dança entre Katniss e o Plutarch, mas ele não mostrar o relógio em Em Chamas. Como disse acima, tem alguns detalhes que importam e de tão simples de serem executados fica a pergunta porque os deixaram de fora. Fiquei ainda mais triste por ela falar sobre o Buttercup e não falar sobre isso. - Revelação do Finnick: Achei a cena muito mal construída. Por mais que eu tenha gostado deles mostrarem a invasão da Capital, preferiria que não tivesse tido essa cena em prol de focarem nessa parte da história que é importante. É o grande momento do Finnick, o grande momento dele cair nas graças do público para haver mais sofrimento na parte 2. Depois dessa passagem no livro eu fiquei comovido com sua história. Ao cortarem as cenas dele e juntarem com as cenas de ação da invasão, eles quebraram o foco das duas coisas. Teve uma hora que eu não sabia se eu prestava atenção no que o Finnick estava dizendo ou se na ação que estava acontecendo. Poderiam ter separado as duas cenas e fazer cada uma em sequência normal mesmo. - Explicação de algumas coisas: Por mais que o filme tenha sido bastante detalhado, ficou devendo mostrar algumas coisas mais claras. A primeira coisa foi o modo de operação do distrito 13 que não ficou tão evidente. Primeiro, cada um tem um horário diário que deve ser estritamente seguido. Sem falar na comida que é completamente racionada. A Effie chega a falar de não ter café e até citar a democracia, mas acho que poderiam ter aprofundado mais nessa questão. Mostrar mais que o distrito 13 não deixa de ser uma ditadura, mesmo que todos tenham direitos iguais. Outra coisa que o filme não abordou bem foi o fato da Prim e da mãe de Katniss trabalharem no hospital do distrito 13. Ficou muito vago isso e meio que jogaram que querem que a Prim seja médica sem nem mencionar que ela trabalhava no hospital esse tempo todo. Além disso, a cena do lago com Katniss cantando a árvore forca poderia ter um sentido muito maior se com um diálogo eles explicassem que o pai era quem costumava a cantar a música para ela e aquele era o lago onde eles iam juntos, já que não me lembro disso ser mencionado em filmes anteriores.
Resumo da Obra
O filme está excelente e com ainda mais força do que os seus antecessores. Ficou nítido que nele a produção usou e abusou da liberdade de adaptação para construir uma história com uma visão um pouco diferente com a do livro. É claro que ocorreram alguns deslizes por causa disso e alguns são até imperdoáveis, mas no geral a adaptação foi muito superior a outras adaptações disponíveis no mundo do cinema.
Porém, nada conseguirá apagar o brilho ou silenciar a voz do tordo e de seus milhares de seguidores que transformaram esse filme em uma bela obra de arte política. Na minha cabeça ainda ecoa o som da indignação e do desespero, quase que igual ao inesquecível “Do you hear the people sing?” do clássico Les Misérables. E a única coisa que me vem em mente é que Jogos Vorazes: A Esperança Parte 1 é um daqueles filmes que não podem ser apenas vistos, mas sim sentidos.