Anine W.
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Filho de Saul
Filho de Saul
4,0
Enviada em 19 de fevereiro de 2016
Um filme pesado, muito pesado, como já foi dito. Não só pelas cenas chocantes e inconcebíveis a um ser humano, mostradas (e já vistas em outros tantos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial), porém aqui mais chocantes ainda, por mostrarem não só a mortandade em massa, o genocídio, mas os detalhes de
como FUNCIONAVA toda a engrenagem da máquina da morte, ou "Situação Final": as câmaras de gás.
Tudo funcionava sob o comando cruel, através do terror (prisioneiros executados sucessivamente às centenas por dia ou, individualmente, por simples prazer), dos berros constantes e bem audíveis dos soldados alemães, e da fraqueza física e psicológica. Muitas cenas foram desfocadas ou apareciam pela metade, para não se transformarem em algo extremamente mórbido. Este não era o objetivo do diretor.
O protagonista, Saul, era um Sonnderkomando, homens escolhidos aleatoriamente para fazer todo do serviço pesado, "sujo" de recepção aos prisioneiros desde a chegada em caminhões ou trens, obrigá-los a tirarem toda a roupa rapidamente, fazerem fila homens, mulheres e crianças misturados, recolherem no meio de suas roupas os objetos de valor (principalmente de ouro), enquanto um soldado falava em voz alta: "Rápido, tomem o banho, porque a sopa está esfriando!" E as pessoas, sem saber absolutamente o que estava acontecendo e porque estavam naquela situação, eram empurradas às centenas para dentro das câmaras de gás. Depois os sonnderkomandos fechavam as portas e aguardavam para recolher os corpos, arrastá-los pelo chão, empilhá-los num caminhão, que saiam rumo à etapa seguinte que era a cremação (havia outro grupo específico para esta "tarefa"), e, por fim, lavar tudo bem esfregado, porque o grupo de prisioneiros seguinte já aguardava sua vez. A estas cenas eu nunca tinha assistido de forma tão real. As cenas eram focadas a partir do personagem principal, Saul, num campo reduzido, quase que o tempo todo. Isto torna o cenário mais claustrofóbico. Esta situação diária a que estes homens eram submetidos, obrigados, transformou Saul em um ser letárgico, sem emoção visível, numa defesa de sua mente. Afinal, que ser humano sobreviveria incólume a tanta atrocidade? Mas todo este "esquema" repetitivo é quebrado por um menino que sobrevive (por pouco tempo). Saul, sem demonstrar qualquer sentimento de dor, inicia uma jornada constante e obstinada pelo enterro de forma digna e condizente com sua religião (que é a de enterrar o corpo com a benção de um Rabino). Para concretizar este seu pensamento fixo, e agora único objetivo de vida, empreende verdadeiras peripécias, arriscando sua vida e a de seus companheiros, sem pensar em mais nada. O personagem, até então muito bem caracterizado pelo ator Géza, perde-se um pouco na tentativa de compor um "pai" (no filme isto fica duvidoso, porque ele afirma que é, mas seus companheiros dizem: "mas você não tem filhos!") obstinado à procura do rabino para fazer o enterro. Falha do diretor (aliás, muitas falhas ou "furos" deixados) que dificultam ao expectador ter empatia total pelo personagem. No meio de um movimento de resistência e tentativa de fuga de seus companheiros de grupo, num trabalho de verdadeiras "formiguinhas", conseguindo um feito aqui, um material ali, com imensas dificuldades e perigos, ele se mostra TOTALMENTE INSENSÍVEL E ALHEIO, batalhando unicamente em prol de seu objetivo. NADA MAIS IMPORTA, nem mesmo sua vida.
A forma como tudo se desenrola, situações "mal contadas", como quando, do nada, larga seu trabalho de limpeza, sai e sobe num caminhão com um grupo responsável por executar tarefa diferente da dele e NENHUM SOLDADO LHE PERGUNTA: "onde você está indo? quem lhe deu a ordem?" Por muito menos, alguns foram fuzilados, sem tempo de responder. O diretor provavelmente quis mostrar um judeu convicto de suas crenças religiosas, capaz de qualquer coisa para realizar aquilo que considera certo. Este fanatismo leva o personagem a uma situação para FORA de todo a cruel realidade mostrada no filme, que é o extermínio em massa dos judeus e outras minorias, consideradas inferiores pelos algozes alemães do Terceiro Reich, como que em uma atuação em paralelo, um filme dentro de outro filme. Transforma o personagem em um ser único, independente, solitário em sua luta particular e egoísta. Não é possível a empatia com uma pessoa assim. Culpa maior do diretor que não soube integrar as duas situações paralelas, possíveis, porém mais próximas a um devaneio, a uma fuga do real, a uma imaginação beirando à loucura. Na cena final, é possível entender o personagem Saul, sua última vontade. Mas o filme em si deixa muitas interrogações, muitas incongruências, muitas incoerências, muitas falhas do tipo amadoras, como quando Saul, vestindo seu casaco marcado com o "X" vermelho às costas, relativo a sua função, sai, se infiltra em grupo com função diferente (para procurar um rabino), sendo o único com o "X" no meio deles, e fica incólume, sem ser questionado..