Marcelo S
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Ainda Estou Aqui
Ainda Estou Aqui
5,0
Enviada em 15 de fevereiro de 2025
Eu lembro do burburinho que o 'Ainda Estou Aqui' estava fazendo nos festivais de Cannes, de Veneza, no meio do ano passado, eram elogios e mais elogios, e Walter Salles estava lá com Fernanda Montenegro e Selton Mello, e concorreu a Palma de Ouro, fora os minutos e minutos de ovação logo após o filme ser exibido, como já é de comum nestes festivais.
E eu já estava muito curioso pra poder conferir o longa, que sequer tinha data possível de estreia por aqui, estava mesmo rodando os festivais afora, e ganhando cada vez mais status e adeptos. Até o filme realmente estrear por aqui em novembro passado.

'Ainda Estou Aqui' realmente é uma experiência única para quem vai acompanhar na sala de cinema, pois uma coisa é você assistir sozinho em casa, e outra é você compartilhar aquela experiência com outras pessoas em uma sala de cinema e ver como cada uma responde a tudo que foi assistido, e ver a resposta do público ao fim do filme é muito gratificante para quem pôde acompanhar um filme tão especial, tão único.
Se Walter Salles já havia do acertado a mão certeiramente em 'Central do Brasil' e "Diários de Motocicleta', com 'Ainda Estou Aqui' ele fez a sua obra mestre, de anos e anos de experiência em filmes, de tudo o que aprendeu em erros e acertos em seus filmes, e entregou uma película que nada mais é do que um recorte de uma época sombria da história brasileira.

Um dos acertos de Salles com o filme, é o longa se passar na região da zona sul todo o seu primeiro ato, quando conhecemos a família Paiva, o ponto em que estão na vida, sua rotina, como é a relação do casal Eunice e Rubens, como é a rotina com seus filhos, das adolescentes aos mais crianças. Todos os colegas de trabalho que cercam Rubens, com o que ele lida no dia a dia, ajudando nas escondidas aqueles que são perseguidos pelo governo atual, entre outros.
É claro que é uma rotina de uma família da classe alta da sociedade brasileira, e por conta disto o filme se passa na região da Zona Sul do Rio de Janeiro, região nobre da cidade, o que acaba nos entregando uma rotina mais básica, onde Rubens trabalha, Eunice possui outras atividades, as crianças sempre estão na praia, Vera a mais adolescente sempre está saindo com os amigos, indo ao cinema, sempre gravando quando estão de carro, curtindo a febre do rock inglês. Mas mesmo assim temos um vislumbre bom do cenário atual, onde a Ditadura vai escalando, está em uma crescente, com o exército nas ruas, polícia parando carros nas avenidas, á procura de 'comunistas', 'terroristas', qualquer um que segundo eles estão em conluio contra a pátria.

E é um cenário todo muito bem construído por Walter, que praticamente nos faz ser quase um membro da família Paiva, porque nos afeiçoamos rapidamente a cada um deles, a cada um dos filhos, já ficamos intimos de Rubens, e Eunice é como se já tivéssemos conhecido a muito tempo, porque, pelo menos para mim, já em sua primeira fala, não há estranheza na personagem, é como se ela nos apresentasse cada um, como se fôssemos um amigo íntimo, isso foi o que senti vendo Fernanda trazer Eunice à vida no longa.
A impressão que dava, ao assistir o longa em seu primeiro ato, é que poderia ter fácil mais 1 hora de filme só com aquela rotina da família, acompanhando seu dia a dia, seus afazeres, que não cansaria quem assiste.

Por tudo isso, é tão impactante e revoltante, quando Rubens abruptamente é levado por homens para prestar 'depoimento' de rotina, responder algumas perguntas, e não volta mais... deixando Eunice e seus filhos sem resposta, sem ter ideia do que está acontecendo, fazendo com que Eunice, que está aflita, proteja seus filhos menores, e oriente os mais velhos, deixando entender no ar que Rubens foi levado da mesma forma que os embaixadores estavam sendo levados como os noticiários informavam.
Tudo isso se torna ainda mais obscuro quando a própria Eunice é levado junto de sua filha Eliana, para ser interrogada no mesmo local que Rubens foi levado, e lá ela acaba tendo a experiência e ciência do que a Ditadura anda fazendo com as pessoas, pois por mais que ela acabe ficando presa em uma solitária por dias e dias sem fim, outros estão sendo torturados das mais variadas formas possíveis... todos sendo forçados a entregar conhecidos que possam estar tramando contra o país, ou confessar que alguém da família ou a si próprio é um 'terrorista', confessar a quanto tempo está em conluio com eles.

Walter Salles foi muito feliz ao retratar de forma coesa e centrada os horrores de quem sofreu nas mãos da ditadura na década de 60/70, de como familiares perdiam seus entes queridos que eram arrastados de dentro de casa, sem nenhum aviso prévio ou motivo real, se estivesse fazendo alguma atividade que não condiz com as diretrizes do governo, ou se está agindo contra a visão do governo atual, é levado para 'prestar esclarecimentos' e nunca mais é visto, não se sabe o que aconteceu ou deixou de acontecer com a pessoa. Ou você era levado e passava por uma série de torturas para entregar alguém conhecido ou confessar algo do qual você não tem culpa, e depois de semanas e em alguns casos meses, você é libertado sem pedido de desculpas, sem aviso, sem nada, sem paradeiro de onde possa estar seu parente ou amigo.
Em outros casos, a pessoa tinha que se exilar em outro país para fugir da opressão do governo/exército, que poderia muito bem sumir com você sem mais nem menos... esse foi o caso de alguns músicos e políticos, que passaram por essa situação à época.

É chover no molhado falar que a força motriz do longa foi Fernanda Torres, com uma atuação esplêndida, impecável, corajosa, inspiradora de Eunice Paiva, que foi uma mulher que aguentou de cabeça erguida tudo o que teve que lidar depois que Rubens foi levado pelo exército. Ela teve que cuidar da família por conta própria, ter serenidade para não expor os filhos mais novos ao horror que estavam passando, e foi um porto seguro para as mais velhas, Veroca, Eliana e Babiu, que ou sabiam exatamente o que se passava ou tinha uma certa noção de tudo que cercava o sumiço de seu pai.
Acho que a cena que mais define o que é o filme 'Ainda Estou Aqui', é quando Eunice está com as filhas, na sorveteria se não me engane, e ela olha outros casais e namorados, curtindo, rindo, sendo felizes, aproveitando a companhia um do outro, e Eunice não tem mais seu marido para lhe amar, paparicar, elogiar, como fazia sempre que saíam, como na cena no começo do filme antes de Veroca viajar para Londres. Essa cena ao mesmo é uma das mais fortes e uma das mais lindas do filme.

Fernanda nós estávamos acostumados a acompanhar em trabalhos mais cômicos, como a Vani em 'Os Normais' ou a Fátima em 'Tapas e Beijos', anos a fio fazendo essas personagens, e os trabalhos mais dramáticos não chegava muito no grande público, os trabalhos audiovisuais que ela fazia eram mais cômicos e alguns dramáticos estavam mais relacionados ao teatro... portanto, ver a Fernanda como uma atriz mais experiente em um trabalho dramático, com uma carga pesada e exigente, e entregar uma atuação nesse nível, completa e envolvente, é de se brilhar os olhos, porque é aquele tipo de trabalho que gostamos de acompanhar e enaltecer em um filme.
O mesmo digo de Selton Mello que por mais que tenha tido menos tempo de tela, por motivos óbvios, nos entregou um Rubens com um tom na medida certa... um grande pai, atencioso, decidido, responsável, dedicado ao que faz, por fora também ajudando quem necessita, uma grande marido, um homem inteligente, sagaz, uma atuação muito redonda, sem deixar nada de lado. Foi um coadjuvante perfeito no filme.

Dentre tantos atores que vimos passando pelo longa, em papéis menores, ou em participações chave, temos Dan Stulbach, Daniel Dantas, Marjorie Estiano, Humberto Carrão, Maitê Padilha, Marjorie Estiano, a grandíssima e onipotente Fernanda Montenegro.
Mas queria destacar a Valentina Herszage como Veroca, que desde a primeira cena no carro com seus amigos, onde foram parados numa Blitz, fez um belo trabalho... ela deu personalidade e carisma para Veroca, e sempre era muito bom vê-la em cena, e acho que cabia mais tempo de tela para ela que seria muito bem vindo.
Bárbara Luz que fez Nalu também entregou um ótimo trabalho, fez uma Babiu gostosa de se acompanhar, uma menina que sempre estava pra cima, em seu mundinho onde sonhava com um namorado inglês igual ao John Lennon, e suas danças ao som daquela famosa música francesa que eu sempre esqueço quem canta. E também Luisa Kosvski como Eliana mais jovem, ela que sempre se mostrava interessada nas conversas de seu pai e com seus amigos sobre o que acontecia na cidade, e teimava com a mãe para poder conferir o telejornal antes de dormir. Todo o elenco mirim no filme fez um belo retrato da família Paiva, e tiveram carisma para conquistar o público.
Olivia Torres e Antonio Saboia que fizeram respectivamente Babiu e Marcelo adultos, também estiveram muito bem, com o tempo de tela que lhes foram dado, e fizeram um bom recorte de duas crianças que eram novas demais pra entender o que acontecia naquele período, e trocavam lembranças e confissões sobre a época e seu pai, quando estavam reunidos com Eunice.
Com relação a trilha sonora do filme, aqui temos uma voadora no lustre atrás da outra, músicas que conversam com o que o filme propõe e que casa muito bem com as cenas onde a canção está inserida... tem Roberto Carlos com 'As Curvas da Estrada de Santos' e 'Como Dois e Dois', tem Os Mutantes com 'Baby', tem Gal com 'Açauã', Nelson Sargento, Tim Maia, duas do Caetano 'Fora da Ordem' e ' índio'... e a que pra mim é a trilha master do filme, que toca no meio e depois ao subir os créditos ao término, 'É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo' de Erasmo Carlos, o Tremendão.

A direção de Arte do filme também é incrível, assim como a cenografia, remetendo fielmente à época da década de 1970, com móveis, portões, quintais, ruas, os automóveis principalmente, onde a maioria pra não dizer todos, são itens de colecionadores, que emprestam para ser usado no filme, ou alugaram, algumas coisa assim.

Assisti ao filme duas vezes no cinema, a última foi a mais tranquila com muitas moças chorando de soluçar, e outras tantas outras pessoas boquiabertas, nas cenas onde Eunice era interrogada, ou quando ela estava tomando banho ao sair da prisão, ou na cena onde eles deixam a casa no Rio para se mudarem para São Paulo.
A primeira vez que fui, em novembro passado, foi da mesma forma que da última agora, um silêncio total ao assistir o filme com algumas pequenas conversas baixas ali e acolá... mas o fim da sessão, ao subir os créditos com Erasmo Carlos de fundo, puxaram um "Sem Anistia", e aí foi outro gritando, e mais outro e depois mais outro,,, e logo depois alguém falando "Não Passarão". É sempre bom ter essas reações nas salas, e não tem preço presenciar este tipo de experiência que só o cinema consegue proporcionar... as pessoas se manifestando, um filme que mexeu com praticamente todo mundo.

Agora, a parte que deve ter pego muitos de surpresa, inclusive eu... o reconhecimento ao filme nas principais premiações da temporada:

-Só para Filme Estrangeiro temos a lembrança de praticamente todos, Globo de Ouro, Critics Choice, BAFTA, Satellite Awards, Oscar;

-Para Fernanda Torres então, a lembrança no Globo de Ouro, Satellite Awards e o OSCAR... sendo que Fernanda já fez história nessa temporada de premiações para o Brasil, levando o prêmio no Globo de Ouro e no Satellite Awards, ambos por Melhor Atriz em Filme Drama. E o prêmio no Globo abriu as portas pra conseguir a tão desejada indicação ao Oscar.

-E é claro, mencionar a histórica e importante indicação a Melhor Filme no Oscar, totalmente inédito, nunca antes um filme brasileiro havia conseguido tal feito, e no dia dos anúncios, já extasiado em ver que Fernanda tinha sido finalmente indicada, fui pego de sopetão quando anunciaram o nome do filme sendo indicado, e tomei um susto e comemorei com punho cerrado... foi demais, que dia foi aquele, trabalhei o resto do dia com um sorriso no rosto. Quem não estava feliz e sorrindo aquele dia, não merecia nada.

Nos Estados Unidos o filme estreou em meados de Janeiro, em pouquíssimas salas e em cidades selecionadas, e estreou já com esse status de filme vencedor do Globo de Ouro para Fernanda Torres, o que já levou algumas pessoas ao cinema. Mas com o passar das semanas, no boca a boca, crescendo entre o público, o filme aumentou para mais de 500 salas no país inteiro, e em muitas cidades, vem fazendo um sucesso estrondoso no States o filme, claro que não em nível Blockbuster, Wicked, Guerra Civil, mas o quanto o filme vem conquistando o público americano realmente é algo lindo de se ver.
No X, antigo Twitter, são muitos relatos de pessoas lá dos EUA que saem da sessão aos prantos, elogiando demais a atuação da Fernanda, praticamente exigindo que a Academia lhe dê o Oscar de atriz... e outras páginas e demais pessoas colocando o filme como o vencedor da categoria de Melhor Filme em suas previsões, nem é o Filme Internacional, mas Melhor Filme mesmo. A gente sabe que o corpo votante da academia não tem essa mesma emoção que o público americano que se manifesta no X tem, mas realmente tudo é possível e 'Ainda Estou Aqui' só vem crescendo em popularidade e quem sabe, pode sim muito acontecer de vencermos o principal prêmio da noite, agora tudo é possível.

Pela europa também o filme fez muito sucesso, com filas grandes num domingo gelado a noite em Portugal pra ver o filme no cinema, na Itália teve relatos de salas lotadas, na França teve um barulho também... enfim.

Acho que 'Ainda Estou Aqui' já é vencedor, com tudo o que o filme conquistou e ainda conquista mundo afora, e óbvio dentro do Brasil, nunca um filme brasileiro foi esse arrasa quarteirão todo, acho que 'Cidade de Deus' foi o que mais chegou perto, o mais relevante, mas 'Ainda Estou Aqui' superou mas de muito longe, e já é motivo de orgulho pro país, pros cinéfilos brasileiros, e como eu disse é vencedor por tudo o que fez, independente de Oscar ou não.

Vejam no Cinema! Sem Anistia!
Assistido 25/11/24 e 11/02/25