Baila Comigo
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Luiz Eduardo
Luiz Eduardo

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Crítica da série
4,5
Enviada em 18 de dezembro de 2025
Baila Comigo | 1981 | 165 capítulos | 20 horas | Rede Globo

Na transição dos anos 1970 para a década seguinte, o horário novelesco das 20 horas era revezado por três autores, de orientações distintas:

- Janete Clair, apelidada A Maga das Oito, que oferecia histórias densas e personagens sofridos em busca de grandes redenções, como o protagonista Márcio Hayalla, de O Astro (1977);

- Gilberto Braga, que procurava trazer os impasses sociais da Zona Sul carioca em Água Viva (1980);

- Lauro César Muniz, inovador nos temas e nas estruturas narrativas. Espelho Mágico (1977), ao retratar a rotina da classe teledramatúrgica, chegou a criar uma metanovela para situar a trama.

Em março de 1981, um quarto autor apresentou sua proposta para o horário. Baila Comigo estreava, escrita por Manoel Carlos, no rastro da apologia à ginástica e às danças modernas.

A espinha dorsal da história é familiar aos fãs do autor. Helena se apaixona, ainda adolescente, pelo chefe Quim, papel de Raul Cortez, e engravida de gêmeos. Como jogo de acomodação, um menino foi criado por Quim e sua esposa Martha, enquanto o outro ficou com Helena, agora casada com o médico aposentado Plínio. Adultos, os irmãos João Victor e Quinzinho ignoram a existência um do outro — e a manutenção desse paralelismo delicado gera os impasses e tensões que sustentam toda a trama.

Aqui, temos um ponto interessante. O ritmo de Baila Comigo é calmo, permeado de reflexões, monólogos e pequenas discussões, mas não chega a ser lento ou arrastado. Antes disso, trata-se de uma novela que prioriza a exposição do drama mais íntimo em suas dimensões cotidianas, misturadas aos pequenos prazeres, como os ruidosos almoços de domingo ou as aulas de ginástica na academia. São cenas longas de digressões, lembranças e reflexões sobre os caminhos possíveis dentro das situações colocadas.

Essa proposta de trama exige um grande elenco que a sustente, e Baila Comigo não decepciona nesse aspecto. Tony Ramos encarna os gêmeos com precisão, diferenciando-os por recursos de postura, respiração e fala. O caloroso carioca Quinzinho e o austero empresário João Victor são distintos entre si, mas representam qualidades que não conseguem andar separadas. Seus pares românticos, de certa forma, deixam entrever esse complemento: a séria pediatra Lúcia (Natália do Valle) e a rebelde jornalista Mira (Lídia Brondi, em interpretação particularmente feliz) são atraídas pelas respectivas espontaneidade e formalidade dos irmãos.

A contraparte madura da história também prende a atenção em momentos sutis. A saudosa Lilian Lemmertz oscila com habilidade entre a culpa quase física de ter dado um filho — culpa que interfere em todo o núcleo familiar — e o alívio quase banal do café na sala de estar. Por sua vez, Tereza Rachel imprime à sua Martha um tom muito particular: o da mulher abastada de meia-idade que fez de sua relação disfuncional com o marido um hobby igualmente desajustado. São pequenas maldades que precisam de um oponente à altura, e, nesses momentos, o Quim de Raul Cortez brilha, sempre entre a doçura sedutora e a canalhice disfarçada. Bom acréscimo a esse núcleo é Sílvia, velha atriz de teatro interpretada por Fernanda Montenegro, que confere um tom reflexivo às incertezas tipicamente humanas. Nota-se aqui uma característica interessante das novelas da época, que o autor oportunamente manteve: a personagem sem história definida e algo vagante, mas perspicaz na leitura do desenrolar geral da trama.

Sendo uma produção de 1981, ambientada na Zona Sul carioca, Baila Comigo não poderia dispensar certos modismos de época. Um deles foi tão relevante que deu o mote para o título da novela: a academia de ginástica, com núcleo próprio — destaque para a professora Joana, interpretada por Betty Faria. A academia ecoa os dramas dos demais núcleos da história, embora ela própria não possua um enredo substantivo. Isso pode refletir justamente a opção de Manoel Carlos por uma condução mais natural da narrativa: aqui, o drama não carrega o peso trágico típico de Janete Clair, mas funciona como um pressuposto que direciona toda a ação do enredo.

Após 165 capítulos e inúmeros ganchos, a pergunta se impõe: vale a pena assistir Baila Comigo? A resposta é afirmativa. A estreia de Manoel Carlos no horário nobre da Globo apresentou uma proposta sensível e cuidadosamente construída — mais interessante, inclusive, do que a fase posterior a História de Amor, marcada por sucessos de audiência frequentemente restritos ao cotidiano rarefeito de personagens bem-nascidas do Leblon. Talvez o exercício mais instigante hoje seja imaginar uma nova versão da novela e as adaptações que essa dramaturgia intimista exigiria de um público hiperconectado em 2025.