Após alguns trabalhos como coadjuvante e coprotagonista, Glen Powell entra de vez em uma fase em que busca se sustentar sozinho como protagonista, e Chad Powers surge como um dos projetos mais pessoais dessa nova etapa. Depois de chamar atenção em filmes recentes e no remake de O Sobrevivente, de Edgar Wright, o ator agora migra para as séries com uma proposta que mistura esporte, identidade e comédia constrangedora. O resultado é curioso: uma série que funciona muito bem quando aposta no humor, mas que se perde justamente quando tenta ir além dele.
Ambientada no universo do futebol americano universitário, Chad Powers acompanha Russ Holliday, um ex-quarterback cuja carreira desmoronou após um erro grave. Anos depois, ele cria uma nova identidade e, por meio de disfarces, tenta se infiltrar como jogador walk-on em um time em crise, buscando uma segunda chance. A premissa já indica que tudo caminha para o desastre, e a série tem plena consciência disso. O problema é que, ao final, fica a sensação de que havia material suficiente para ir além da superfície, algo que nunca se concretiza de fato.
Inspirada em um sketch/documentário da ESPN, exibido no programa Eli’s Places, no qual Eli Manning se disfarça para participar de treinos universitários, a ideia chamou a atenção de Glen Powell e Michael Waldron justamente pelo potencial de expansão narrativa. A adaptação para o formato de série acerta ao assumir o humor constrangedor como principal motor da história. Esse tipo de comédia, que provoca riso misturado com desconforto, funciona aqui não apenas pela situação em si, mas pela maneira como os diálogos e as cenas são conduzidos.
Grande parte desse mérito passa diretamente por Glen Powell. O ator demonstra mais uma vez estar extremamente à vontade na comédia, exibindo um domínio de tempo e entrega que vai além do que já apresentou em comédias românticas ou filmes de ação. Em Chad Powers, Powell passa cerca de 80% da série irreconhecível, escondido sob maquiagem pesada e próteses, o que reforça ainda mais sua capacidade de sustentar o humor sem depender de sua imagem conhecida. Mesmo sem o rosto, o carisma permanece intacto.
Essa escolha aproxima a série de trabalhos como Assassino Por Acaso, de Richard Linklater, onde Powell também consegue imprimir presença mesmo quando assume uma identidade diferente. A diferença é que, em Chad Powers, o disfarce não é pontual, mas parte central da narrativa. Isso acaba consolidando o ator como um dos nomes mais interessantes da atualidade dentro da comédia e de seus subgêneros, seja no romance, na ação ou na dramédia, ainda que aqui a última categoria nunca se desenvolva plenamente.
O humor da série se constrói a partir do constrangimento constante. São diálogos em que Chad se enrola em sua própria mentira, situações em que a máscara quase cai diante de todos e momentos em que o personagem inventa justificativas cada vez mais absurdas para sustentar a farsa. O espectador sabe que tudo vai dar errado, mas continua assistindo justamente para entender como a série vai conduzir esse inevitável colapso. Nesse aspecto, Chad Powers é eficiente do início ao fim.
A contradição surge quando a série tenta equilibrar esse humor com uma camada dramática que nunca encontra o mesmo peso. A proposta de um ex-jogador falido, odiado pelo público e em busca de redenção é apresentada, mas raramente explorada de forma consistente. Esse passado serve mais como ferramenta narrativa para gerar situações cômicas do que como um elemento emocional capaz de aprofundar o personagem. Há ali um material evidente para uma história mais humana, mas a série opta por não se comprometer com isso.
O resultado é um desequilíbrio claro. A série não se leva a sério durante a maior parte do tempo, o que funciona muito bem para o humor. Porém, quando pede para ser levada a sério, o impacto não vem. O espectador já foi condicionado a esperar a próxima piada, e não uma consequência emocional. Isso gera um distanciamento que impede qualquer envolvimento mais profundo com a jornada de Russ Holliday. O arco de redenção existe na ideia, mas não na prática.
Outro problema significativo está na decisão do estúdio em encerrar a temporada de forma abrupta. Assim como ocorreu em outras produções recentes da Hulu/Disney, a sensação é de que a série foi filmada como um todo e depois dividida artificialmente. O final chega de maneira tão repentina que causa estranhamento imediato, levando o espectador a checar se realmente não há mais episódios disponíveis.
Essa escolha compromete completamente o impacto da história. Todo o caminho da série aponta para o momento em que a verdade vem à tona, quando Chad Powers deixa de existir e Russ Holliday é desmascarado. No entanto, a narrativa é interrompida justamente antes das consequências. Não há repercussão, não há enfrentamento, não há fechamento emocional. O corte elimina o que havia de mais interessante a ser explorado e esvazia qualquer peso dramático que poderia existir.
No fim das contas, Chad Powers funciona muito bem quando abraça sua natureza cômica e constrangedora, sustentada principalmente pela entrega de Glen Powell. O ator carrega a série com carisma e segurança, mesmo escondido sob camadas de maquiagem. Porém, quando a produção tenta se aproximar de algo mais sério, acaba tropeçando em sua própria condução. Michael Waldron demonstra habilidade para o humor, mas não aproveita o potencial emocional da proposta, deixando de construir um arco de redenção mais sólido.
Com episódios curtos e um encerramento abrupto, a série termina deixando uma sensação clara de oportunidade perdida. Chad Powers poderia ter sido mais do que uma boa comédia desconfortável. Resta agora saber se a segunda temporada irá finalmente lidar com as consequências prometidas ou se continuará presa a esse desequilíbrio entre rir da situação e ignorar tudo o que ela poderia representar.