Há séries que começam prometendo um bom suspense e terminam deixando no espectador apenas uma sensação de cansaço. Scarpetta parece trilhar exatamente esse caminho.
Inspirada na obra da escritora Patricia Cornwell, a série até ensaia um início interessante. O universo da medicina legal, os crimes complexos e a atmosfera investigativa sugerem um thriller digno de atenção. Mas, à medida que os episódios avançam, a narrativa parece gradualmente deslocar seu foco da construção dramática para algo mais próximo de uma vitrine de posicionamentos contemporâneos.
Nada contra diversidade ou novas abordagens de personagens — pelo contrário, boas histórias sempre souberam incorporar diferentes perspectivas. O problema surge quando essas escolhas deixam de ser orgânicas e passam a funcionar como sinais excessivamente evidentes. A protagonista, por exemplo, aparece em diversas cenas com figurinos que parecem deliberadamente pensados para neutralizar qualquer traço de feminilidade tradicional — gravatas incluídas. Não há problema algum nisso, exceto pelo fato de que a insistência acaba chamando mais atenção para o símbolo do que para a personagem.
Ao mesmo tempo, muitos personagens masculinos são retratados de forma curiosamente frágil ou deslocada, enquanto as figuras femininas assumem quase sempre o papel de eixo narrativo e moral da história. Em teoria, poderia ser uma tentativa de equilíbrio; na prática, o resultado às vezes soa menos como complexidade dramática e mais como uma inversão um pouco simplista de estereótipos.
Há também um relacionamento homossexual na trama. A presença de personagens LGBTQ+ em narrativas contemporâneas é absolutamente natural e frequentemente enriquecedora. O ponto aqui é outro: a relação praticamente não interfere no desenvolvimento da história. A cena do casamento, por exemplo, surge como um momento isolado, sem impacto real sobre a investigação ou os acontecimentos centrais. Fica a impressão de que poderia desaparecer da série sem alterar absolutamente nada.
Entre as escolhas narrativas mais curiosas está a história de uma viúva que conversa com um avatar da falecida por meio de inteligência artificial. Em teoria, a ideia poderia explorar temas interessantes sobre memória, luto ou tecnologia. Na prática, a execução é tão estranha que beira o involuntariamente cômico.
Outro problema é a constante alternância entre passado e presente. Saltos temporais podem enriquecer um thriller, mas aqui parecem mais confundir do que aprofundar a trama. O espectador frequentemente se vê tentando reorganizar mentalmente os acontecimentos, em vez de mergulhar no suspense.
As interpretações também não ajudam muito. Muitos personagens parecem estranhamente mecânicos, como se os diálogos tivessem sido escritos mais para sustentar determinados discursos do que para revelar emoções ou conflitos reais.
E há ainda a irmã da protagonista — uma personagem que parece existir para testar a resistência do público. Exagerada, afetada, barulhenta e constantemente impertinente, ela interrompe o ritmo da narrativa com uma frequência que rapidamente se torna cansativa.
No final, Scarpetta deixa a impressão de uma obra que poderia ter sido um thriller forense envolvente, mas que se perde em escolhas narrativas dispersas e em uma certa obsessão por sinalizar temas contemporâneos em detrimento da própria história.
Talvez por isso seja inevitável lembrar de filmes como The Silence of the Lambs. Ali, cada cena existia para fortalecer a tensão dramática e o desenvolvimento psicológico dos personagens. Não havia necessidade de sublinhar mensagens — elas emergiam naturalmente da própria narrativa.
Em comparação, Scarpetta parece falar muito sobre o que quer representar, mas acaba dizendo pouco sobre o que realmente deveria importar: contar uma boa história.