O Tempo Que Te Dou, série espanhola da Netflix criada por Nadia de Santiago, não é apenas uma história sobre o fim de um relacionamento, mas um estudo sensível e minucioso sobre o processo de luto amoroso, e, mais profundamente, sobre como a memória e o tempo se entrelaçam quando tentamos seguir em frente.
A série se desdobra em 10 episódios curtos, de 11 minutos cada, mas isso não significa superficialidade. Muito pelo contrário, a concisão é aliada da intensidade. Cada episódio é dividido entre passado e presente, começando com mais tempo dedicado às lembranças e, aos poucos, deslocando o foco para o agora. Esse recurso narrativo não é gratuito, pois traduz o movimento interno de Lina, protagonista e alter ego da criadora, que tenta reorganizar sua vida após o fim com Nico.
O tempo, que dá nome à série, é o fio condutor. Não apenas como cronologia, mas como sensação. Porque o luto amoroso não segue lógica, nem calendário. Ele invade em ondas. E a série traduz isso com simplicidade poética, memórias surgem sem aviso, desencadeadas por cheiros, paisagens ou o mais banal dos gestos. O espectador acompanha essa travessia silenciosa com uma intimidade quase desconfortável.
A atuação contida, o uso sutil da trilha sonora, a fotografia naturalista e a ausência de grandes clímax fazem da série uma exceção no catálogo da Netflix, mais afeita a narrativas espetaculares. O Tempo Que Te Dou aposta no comum, no cotidiano, e por isso mesmo toca tão fundo. Lina não é feita para ser admirada, nem julgada. Ela é feita para ser sentida.
Ainda que a proposta minimalista possa não agradar a todos, e que a ausência de maiores arcos dramáticos possa gerar certa frustração em quem espera resoluções tradicionais, é justamente essa recusa em "encerrar" que torna a obra tão verdadeira. Porque, muitas vezes, o fim de uma história de amor não é um ponto final, mas uma vírgula prolongada, que vai sendo silenciada com o tempo.
Ao final dos 110 minutos totais, o que se tem não é uma história sobre amor, mas sobre permanência e desapego. O Tempo Que Te Dou não ensina a esquecer, ensina a lembrar com menos dor. E isso, na sua economia de palavras e gestos, é de uma grandeza rara.