O Problema do "Autista Gênio": Um Estereótipo Conveniente
The Good Doctor repete um dos estereótipos mais cansativos na representação do autismo na TV: o "savant" genial e solitário, cuja inteligência extraordinária compensa suas dificuldades sociais. Shaun Murphy (Freddie Highmore) é um cirurgião prodígio com memória fotográfica e diagnósticos infalíveis — uma narrativa que, embora cativante, distanciada da realidade da maioria das pessoas autistas.
A série perpetua a ideia de que pessoas autistas só são dignas de respeito e espaço profissional se forem excepcionalmente talentosas. Isso ignora a diversidade do espectro, onde muitos autistas não têm habilidades "superpoderosas" e ainda assim merecem inclusão.
Autismo como Tragédia ou Superação: A Narrativa Redutora
Assim como Atypical, The Good Doctor oscila entre duas abordagens problemáticas:
- O autista como fardo (a família e colegas sofrem por tê-lo por perto).
- O autista como herói inspiracional (vencendo barreiras apesar de sua condição).
A série não explora o autismo como uma experiência humana complexa, mas como um obstáculo a ser superado ou um trampolim dramático para emocionar o público neurotípico.
Se Shaun não fosse um gênio médico, será que a série existiria? Ou será que o autismo "comum" (sem savantismo) ainda não é considerado interessante o suficiente para a TV?
A Falta de Autenticidade: Consultoria Autista como Pano de Fundo
Apesar de incluir alguns atores autistas em papéis secundários (como pacientes), a série não priorizou vozes autistas na criação do protagonista. Shaun é uma interpretação neurotípica do autismo — com maneirismos exagerados, falta de nuances e uma linearidade emocional que não reflete a diversidade do espectro.
Assim como Atypical, The Good Doctor foi feita para neurotípicos, não para autistas. Seu objetivo não é representar, mas ensinar o público a "tolerar" o autismo — um enfoque paternalista que perpetua a ideia de que pessoas autistas precisam ser "aceitas" em vez de simplesmente existirem em suas próprias condições.
O Dilema da Inclusão Performática
A série é aplaudida por "mostrar a luta de um autista no mercado de trabalho", mas ignora questões estruturais:
- Por que Shaun é o único autista no hospital por várias temporadas?
- Por que a série não explora autistas não-verbais, com maiores necessidades de apoio ou de diferentes origens raciais e socioeconômicas?
- Por que o sofrimento dos personagens neurotípicos (como o mentor Dr. Glassman) tem mais profundidade emocional do que o do próprio Shaun?
The Good Doctor não é sobre inclusão real, mas sobre inclusão que vende — uma versão palatável do autismo, sem desafiar verdadeiramente os preconceitos da sociedade.
O Final Previsível e a Falta de Evolução
Após sete temporadas, Shaun não desafia o sistema médico — ele se adapta a ele. Ele se casa, tem filhos e vira chefe de cirurgia, mas sua jornada não questiona as estruturas capacitistas do hospital. A mensagem final? "Autistas podem ser bem-sucedidos se seguirem as regras neurotípicas" — não uma crítica, mas uma conformidade.
The Good Doctor poderia ter sido revolucionária se tivesse mostrado que o problema não é o autismo, mas um mundo que se recusa a se adaptar. Em vez disso, preferiu ser um drama médico convencional com um protagonista "diferente".
Uma Série Para Neurotípicos, Não Para Autistas
The Good Doctor não é uma má série — é bem atuada, tem momentos emocionantes e trouxe visibilidade ao autismo. Mas não é a representação autêntica que a comunidade autista merece.
Se você quer entender o autismo, não assista The Good Doctor — converse com autistas de verdade. A série é, no máximo, um passo inicial em uma longa jornada que a TV ainda precisa percorrer.