A melhor novela da teledramaturgia brasileira!Escrita no fim dos anos 80, em um Brasil recém-saído da ditadura, a obra se sustenta até hoje porque não depende de contexto histórico específico, mas de um dilema que permanece atual: em um sistema falho, vale a pena ser honesto?
A trama se organiza a partir do choque entre dois caminhos. De um lado, Raquel, símbolo da ética e do trabalho duro, que enfrenta a desigualdade e a exploração cotidiana sem abrir mão de seus valores. Do outro, Maria de Fátima, sua filha, que adota o “vale tudo” como filosofia de vida, usando mentiras, manipulações e atalhos para ascender socialmente. Acima delas paira Odete Roitman, representação máxima do poder econômico, da frieza e da impunidade estrutural.
O grande mérito da novela está em não oferecer uma resposta confortável. Vale Tudo não premia automaticamente a honestidade nem pune de forma exemplar a corrupção. O caminho reto é mostrado como árduo, lento e desgastante; o caminho torto, embora mais rápido, é instável, paranoico e cercado de riscos. Ambos cobram um preço alto. Não há vitória limpa — apenas escolhas e consequências.
Essa recusa em moralizar de forma simplista transforma a novela em algo raro: uma obra popular que confia na inteligência do público. O final não ensina “como viver”, mas devolve a pergunta ao espectador. Cada um decide qual custo está disposto a pagar: o esforço contínuo de nadar contra a corrente ou a tensão constante de viver num jogo sem regras.
Décadas depois, Vale Tudo segue atual justamente porque o Brasil que ela retrata ainda existe. A desigualdade, o jeitinho, a corrupção normalizada e a sensação de que o sistema não recompensa o mérito continuam presentes. Assistir à novela hoje é desconfortável — e esse é seu maior acerto.
No fim, Vale Tudo não diz se vale a pena ser honesto. Ela apenas mostra que nenhum caminho é fácil, e que a verdadeira decisão não é sobre sucesso, mas sobre quem você se torna ao tentar alcançá-lo.