A vigésima temporada de Malhação, exibida entre 2012 e 2013, marcou um dos momentos mais emblemáticos da longeva série adolescente da TV Globo. Mesmo sem alcançar índices expressivos de audiência, a trama conquistou um espaço especial na memória do público, tornando-se uma das mais cultuadas entre os fãs. Com um elenco carismático, temáticas modernas e uma abordagem mais próxima da realidade dos jovens da década de 2010, essa edição se consolidou como um reflexo fiel da Geração Z, sendo lembrada com nostalgia por aqueles que a acompanharam.
Após algumas temporadas que tentaram inovar sem grande repercussão, a edição de 2012 trouxe uma renovação bem-sucedida ao apostar em uma narrativa mais dinâmica e personagens cativantes. Com autoria de Rosane Svartman e Glória Barreto, a trama abandonou o modelo anterior focado em batalhas entre grupos estudantis e se voltou para dramas individuais, explorando relações familiares, conflitos emocionais e dilemas sociais. O cenário principal, o fictício Colégio Quadrante, funcionava como um microcosmo das inseguranças e desafios típicos da adolescência.
Dentre os protagonistas, destacaram-se Ju (Agatha Moreira), Lia (Alice Wegmann) e Dinho (Guilherme Prates), cujas jornadas envolviam descobertas pessoais e relacionamentos conturbados. A decisão de incluir temas como transtornos alimentares (bulimia), assédio virtual e abandono parental demonstrou a intenção dos roteiristas de dialogar de forma mais próxima com os jovens telespectadores. Essa escolha conferiu uma autenticidade à temporada que não se via há tempos na franquia.
Se há um fator que diferencia essa temporada das demais é a construção dos personagens. Diferentemente de edições anteriores, em que os protagonistas eram retratados de forma mais idealizada, Malhação 2012 apresentou figuras humanas e falhas, tornando-as mais identificáveis. Lia, por exemplo, era rebelde e introspectiva, mas escondia uma grande fragilidade emocional devido à ausência materna. Ju, por sua vez, representava o sonho e a insegurança de uma jovem que desejava ingressar no competitivo mundo da moda.
Dinho, inicialmente retratado como um típico garoto popular e aventureiro, teve sua jornada interrompida precocemente quando seu intérprete, Guilherme Prates, deixou a trama. A saída do ator resultou na entrada de Vitor (Guilherme Leicam), personagem com um passado sombrio e um drama familiar mais denso, trazendo novos conflitos para a história. Esse tipo de mudança no elenco, embora arriscada, ajudou a manter a narrativa dinâmica e imprevisível.
Outros personagens marcantes foram Fatinha (Juliana Paiva) e Orelha (David Lucas). Fatinha, inicialmente vista como uma "periguete", revelou-se uma das personagens mais queridas da temporada, conquistando o público com sua autenticidade e carisma. Seu envolvimento com Bruno (Rodrigo Simas) gerou um dos casais mais icônicos da novela. Já Orelha, o blogueiro encrenqueiro, simbolizava a ascensão da cultura digital e a problemática da exposição excessiva nas redes sociais, algo extremamente relevante na época.
A temporada de 2012 inovou ao tratar de temas que refletiam as mudanças sociais da década. Um dos pontos mais discutidos foi o cyberbullying, ilustrado pelo personagem Orelha e seu blog sensacionalista. A trama também abordou a homofobia e os estereótipos de gênero por meio do personagem Rafa (Rodolfo Valente), um jovem que sofria preconceito por gostar de moda e balé.
Além disso, a questão da violência urbana foi representada pela história de Vitor, que passou meses preso injustamente após ser manipulado pelo próprio irmão, Sal (Pedro Cassiano). A subtrama envolvendo tráfico de drogas e um sequestro evidenciou um tom mais sério e maduro na narrativa, diferenciando essa temporada das anteriores.
Outro aspecto relevante foi a representação da diversidade social e racial. A personagem Rita (Jéssica Ellen), jovem negra e filha de uma cantora famosa, trouxe um novo olhar para a questão da identidade e das dificuldades enfrentadas por filhos de pais ausentes. Sua relação com Bruno demonstrou os desafios do amor jovem em meio a inseguranças e intrigas.
Apesar da qualidade do roteiro e da boa recepção por parte dos fãs, a audiência da temporada não correspondeu às expectativas da TV Globo. Com uma média geral de 14,82 pontos no IBOPE, essa edição registrou uma das menores audiências da história da série até então. A concorrência com outras formas de entretenimento digital e a queda do interesse do público juvenil na TV aberta podem explicar esse fenômeno.
No entanto, mesmo com números relativamente baixos, Malhação 2012 sobreviveu ao tempo e hoje é considerada uma das melhores edições do programa. Seu impacto pode ser medido pelo carinho do público, que frequentemente a cita como uma das mais memoráveis, ao lado da temporada de 2004. Além disso, personagens e cenas dessa fase foram reaproveitados na novela Salve-se Quem Puder (2021), um indicativo de sua relevância cultural.
A vigésima temporada de Malhação conseguiu capturar a essência da juventude do início da década de 2010, tornando-se um retrato fiel da Geração Z da época. Com personagens autênticos, temáticas relevantes e um roteiro bem estruturado, essa edição provou que Malhação ainda tinha fôlego para se reinventar. Embora sua audiência não tenha sido expressiva, seu legado permanece vivo na memória dos fãs, consolidando-a como uma das temporadas mais queridas e marcantes da história do programa.