Como fã de Raul Seixas desde os meus 7 anos e colecionador e pesquisador, eu gostaria de estar aqui escrevendo um grande elogio para essa série. Sonhei a vida toda em ver uma obra audiovisual que fizesse jus à complexidade e à grandiosidade de Raul Seixas. Mas, infelizmente, essa produção ficou muito aquém do que o artista merece.
Desde o primeiro episódio, fica claro que “Raul Seixas: Eu Sou” tem problemas sérios de pesquisa histórica, direção e construção de personagem. A começar pelos erros de cronologia, como a cena em que Raul canta Let Me Sing, Let Me Sing no Festival Internacional da Canção de 1972, com Rita Lee de noiva, algo que nunca aconteceu naquela ocasião. Também no show do Phono 73, a plateia aparece fazendo o gesto de “chifres” com as mãos, popularizado apenas anos depois no rock e heavy metal, demonstrando falta de cuidado com detalhes culturais da época. Outro exemplo é a sessão de gravação de Mosca na Sopa, mostrada como se Raul estivesse se apresentando ao vivo, totalmente desconexa da realidade de estúdio daquele período.
A direção de Paulo Morelli e Pedro Morelli entrega um Raul Seixas raso, reduzido a um homem obcecado por sucesso, egocêntrico e invejoso, sem explorar suas dimensões mais profundas, filosóficas e espirituais. Quem conhece a trajetória do artista sabe que Raul era um homem de muitas camadas, leitor de Aleister Crowley e outros pensadores célebres que teve influências que moldaram sua visão de mundo e sua música. Infelizmente, a série trata esses estudos apenas como “excentricidades”, sem conexão real com o conceito de Sociedade Alternativa ou sua filosofia de vida.
Os diálogos soam artificiais, muitas vezes didáticos demais, aproximando-se do tom de novela, o que torna a narrativa arrastada, especialmente no segundo episódio. As interpretações não ajudam na imersão e, embora isso não seja culpa exclusiva dos atores, fica claro que o roteiro não oferece suporte para performances mais profundas.
A caracterização de Paulo Coelho, por exemplo, reforça estereótipos místicos, ignorando seu papel essencial como parceiro criativo. Outros parceiros igualmente importantes na história de Raul, como Claudio Roberto, Marcelo Nova, Rick Ferreira, Miguel Cidras, Leno Azevedo e Tony Osanah, foram ignorados ou tiveram participações mínimas. Até Dalva Borges, que cuidou de Raul nos momentos mais difíceis, foi totalmente deixada de lado.
Quando chega o rompimento com Paulo Coelho, a série acelera bruscamente, pulando álbuns, períodos e fatos importantes. A sensação é de que houve pressa em encerrar a história, deixando de fora pessoas, músicas e fases que marcaram a vida e a carreira de Raul Seixas.
A escolha de Supla para interpretar Elvis Presley é discutível, assim como a qualidade das capas de discos mostradas. Soma-se a isso a frustração de muitos fãs que esperavam ouvir as gravações originais das músicas em momentos-chave, mas receberam apenas trechos.
Por fim, a morte de Raul é retratada de forma diferente da realidade, optando por um caminho ficcional que não traz o impacto emocional que sua trajetória merece.
“Raul Seixas: Eu Sou” é uma série que tinha potencial para ser definitiva, mas se tornou uma oportunidade desperdiçada. Falta profundidade na abordagem, precisão histórica, cuidado com detalhes culturais e, acima de tudo, respeito pela complexidade humana e artística de Raul Seixas. Como fã, lamento que, mais uma vez, Raul tenha sido retratado apenas como um personagem caricato, quando ele era, na verdade, um dos artistas mais profundos, contraditórios e geniais que o Brasil já teve.