Minha conta
    Crítica: Em Defesa de Jacob, da AppleTV+, se apoia no mistério e no peso da dúvida
    Por Barbara Demerov — 29 de mai. de 2020 às 19:17

    Série dramática possui ótimas performances de Chris Evans e Michelle Dockery.

    NOTA: 4,0 / 5,0

    ATENÇÃO! O texto a seguir pode conter SPOILERS de Em Defesa de Jacob.

    "Ele fez ou não fez?". Se há uma única pergunta que pode resumir toda a experiência de assistir a Em Defesa de Jacob, essa seria a ideal. Não há um capítulo sequer no qual a dúvida não apareça - tanto para o espectador quanto para os próprios personagens da minissérie, que possuem o mesmo número de informações que o público.

    Portanto, é muito difícil criar apenas uma linha de raciocínio e segui-la por todo o caminho percorrido pela narrativa. São as dúvidas mais cruéis e horripilantes que se sucedem episódio após episódio, ao mesmo tempo em que cada momento de afeto e esperança de pais desesperados como Andy (Chris Evans) e Laurie (Michelle Dockery) simultaneamente se encaixam como uma luva para nos fazer pensar que, sim, pode estar tudo bem. Pode ser apenas uma impressão. Ou não?

    O maior mérito de Em Defesa de Jacob recai exatamente neste ponto: no de deixar uma pontinha de dúvida mesmo quando tudo indica ser o contrário do que nos é mostrado. Afinal, como pode um garoto como Jacob Barber (Jaeden Martell) ser o responsável de um assassinato bárbaro contra seu colega de classe? Um garoto criado por pais presentes e amorosos em um lar harmonioso?

    A minissérie criada por Mark Bomback e muito bem dirigida por Morten Tyldum (O Jogo da Imitação) balanceia bem suas contradições. A começar pelo ponto de vista que guia o espectador do início ao fim: que acaba por ser o de Andy, um pai e advogado que imediatamente passa a defender seu filho sem pestanejar. A discordância principal da história está no fato dele ser um profissional racional que se baseia em fatos e provas; mas, por mais que diversas provas sejam postas à mesa com relação a Jacob, Andy luta contra tudo e todos para provar que seu filho não deveria ser visto como o responsável.

    Jacob possui uma faca (a arma do crime), não tinha um bom relacionamento com o garoto assassinado e, para piorar ainda mais as coisas, escreveu e publicou um conto em que narra, em primeira pessoa, o crime completo (descoberto apenas no 7º e melhor episódio). Contudo, o fato de Andy ser o guia desde o princípio, até mesmo antes do julgamento começar, contribui para que a visão geral se torne um tanto nebulosa. Mas é no mínimo interessante observar que, se fosse em um caso normal, Andy certamente iria contra o réu por conta do assustador número de evidências que não param de surgir.

    Isso traz a maior reflexão de Em Defesa de Jacob. Se o espectador acredita na inocência de Jacob em algum momento, isso se deve efetivamente por conta do garoto ou porque o ponto de vista em destaque é o de um pai que não quer enxergar a verdade? Tal pergunta resiste até chegar em um ponto que Andy e Laurie não aguentam mais; especialmente Laurie, que sem dúvidas é a personagem mais desenvolvida na série - indo na contramão dos próprios Andy e Jacob, que têm bastante destaque, mas uma psique mais encoberta.

    A Laurie de Michelle Dockery é a personagem que ganha as camadas mais profundas, não Jacob. Entendemos toda a dor da família Barber através de Laurie e todos os estágios da dor: a negação, o medo, o conflito interno, a dúvida e a culpa. Ao longo dos oito episódios, é Dockery quem traz a carga mais densa e pesada desta situação traumatizante, enquanto que com Andy, nem mesmo a esposa ou o espectador podem traduzir o que se passa internamente. Ambas as atuações de Dockery e Evans são complementares e comoventes, pois, além do garoto assassinado, eles também passam por algo que mudará suas vidas para sempre.

    A direção consistente de Tyldum, aliado ao belo trabalho de fotografia, destacam o distanciamento visual e mental dos três personagens. A residência dos Barber vai ficando cada vez mais fria e sem vida com o passar dos episódios - seja pela paleta de cores como pela escolha dos enquadramentos, que oscilam entre paredes entre o trio ou planos com uma profundidade ampla demais, que emana mais solidão do que um vínculo estável. O mesmo acontece com Jacob: sua única amizade vai se enfraquecendo aos poucos e a dificuldade em se expressar fica cada vez mais latente, chegando ao ponto dele não dizer absolutamente nem uma palavra a seus pais.

    Em Defesa de Jacob trilha um caminho de pedras muito instável diante de tantas perguntas e, por vezes, repete círculos que afetam o andamento da narrativa no geral. Mas o evidente talento do trio principal mantém tudo de pé - especialmente quando o que está em pauta é estritamente a relação familiar. A produção faz uma grande provocação ao não responder a principal pergunta de forma proposital (diferente do que acontece no livro original), para que assim feridas que não cicatrizarão facilmente sejam expostas. Algumas já estavam lá, mesmo que intocadas.

    facebook Tweet
    Links relacionados
    Pela web
    Comentários
    Mostrar comentários
    Back to Top