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    Pose: A voz da minoria conta uma revolucionária história sobre família (Crítica da 1ª temporada)
    Por Katiúscia Vianna — 28 de set. de 2018 às 09:01
    Atualizado 28 de set. de 2018 às 09:03

    Ryan Murphy acertou em cheio com uma bela série sobre a comunidade LGBT nos anos 80.

    Nota: 5,0 / 5,0

    Um dos grandes lançamentos de 2018, Pose é descrito como uma série sobre a comunidade LGBT de Nova York, durante os anos 80. Mas é algo tão maior que isso. É curioso ver como o show que mais sofre preconceitos de públicos conservadores é o melhor drama familiar do ano.

    Com o poderoso Ryan Murphy na produção, a trama acompanha Blanca (MJ Rodriguez), mulher transgênero que descobre ser portadora do vírus HIV. Sabendo que seus dias estão contados numa sociedade que não se importava com a epidemia de AIDS, ela decide sair da sombra de sua mãe/mentora Eletra (Dominique Jackson) para construir sua própria casa — e, consequentemente, um legado. Dentre seus filhos, estão o talentoso bailarino Damon (Ryan Jamaal Swain) que foi expulso de casa por sua sexualidade; e Angel (Indya Moore), trans em busca do verdadeiro amor para ter "a vida comum de uma mulher".

    Obviamente, Pose não ignora os grandes problemas sofridos pela comunidade em tal época. AIDS, preconceito, falta de oportunidades, condições pobres... Tudo isso está presente na história, mas não é o foco. É a humanidade de tais personagens que ganha as telas. É a chance de dar voz para aqueles que são sempre marginalizados. Pois seus relacionamentos e os fortes laços que criaram entre si foram essenciais para não permitir que suas histórias fossem apagadas pelo tempo. E acredite: eles têm muito para contar.

    Não é a toa que a história é centrada nos grandes bailes promovidos pela comunidade LGBT, na periferia negra de Nova York. Sabe aquela frase "The category is..." que você tanto ouve em RuPauls Drag Race? É de lá que surgiu! Tais festas surgem com grandes concursos que movimentam cada episódio de Pose. Ali, os protagonistas marginalizados diariamente encontram sua chance de brilhar e ainda proporcionam algumas das grandes sequências do show. Tendo o documentário Paris is Burning como clara inspiração, as cenas reúnem os incríveis trabalhos de direção, figurino, design de produção e fotografia de forma apaixonante. É impossível não ser transportado para as grandes celebrações de tal época, numa bela homenagem para o movimento que mudou a história da cultura pop — apesar de nem sempre ser lembrado por isso.

    Repare ainda no uso dos termos "casa", "mãe", "filhos" nos diálogos. Eles não são jogados simplesmente no roteiro de forma aleatória. Os protagonistas não são ligados pelo sangue, mas pela alma. Desde o primeiro capítulo, Blanca luta para cuidar e orientar seus protegidos, ao mesmo tempo que busca trazer um futuro melhor para a nova geração. Ela cria sua própria família, enquanto os mais jovens buscam construir seus próprios caminhos. Cada um dos personagens tem algum momento dramático de destaque na trama, mesmo que o ponto central seja a relação de Blanca e Damon. Até o alívio cômico Papi (Angel Bismark Curiel) ganha um episódio focado na sua decisão de trabalhar como traficante. Esses relacionamentos são lindamente construídos, de forma orgânica e emocionante, não devendo nada para outras "famílias de sangue" apresentadas na telinha. Ao mesmo tempo, trazem momentos de leveza e alegria para a narrativa, pois cada pequena vitória do grupo traz um sorriso no rosto do espectador.

    Já Elektra poderia ser facilmente usada como uma simples vilã para a jornada de Blanca. Mas Pose não tem medo de apresentar todas os diferentes ângulos de uma mesma situação. Assim, por trás de uma fachada sarcástica e poderosa, surge uma personagem capaz de arriscar toda sua estabilidade pelo sonho de fazer uma cirurgia de mudança de sexo. Diante disso, Dominique Jackson traz uma das melhores performances do ano, conseguindo transitar entre todas as nuances, de maneira eletrizante e soltando frases marcantes a cada episódio.

    Outro personagem que ganha destaque é Pray Tell, grande confidente e amigo de Blanca, que também é responsável por apresentar os bailes e ajudar a novata House of Evangelista nas competições. Já premiado na Broadway, Billy Porter traz grande humanidade e carisma para história, além de ser responsável por alguns dos momentos mais dramáticos, quando o arco de seu personagem cruza com a destruição causada pelo vírus HIV. Se Jackson e Porter não forem lembrados na temporada de premiações 2019, será uma das maiores injustiças cometidas na indústria nesses últimos anos.

    Com tais coadjuvantes de peso, seria esperado que os protagonistas fossem ofuscados. Porém, a diretora de elenco Alexa Fogel fez um belo trabalho encontrando as revelações necessárias para carregar tal história. Principalmente no caso de MJ Rodriguez, que representa o coração desta família inusitada. Ela se conecta com o espectador e é impossível não torcer por sua jornada. Já Indya Moore é simplesmente hipnotizante, misturando charme com vulnerabilidade. Por fim, Ryan Jamaal Swain não se destaca tanto, mas consegue expressar a inocência de Damon, ao mesmo tempo que possui grande talento para dança.

    O curioso é perceber que os nomes mais famosos do elenco são meras escadas para as histórias das protagonistas trans. Eterno DawsonJames Van Der Beek exagera na caricatura justamente para criticar a visão de uma sociedade heteronormativa que tenta julgar o outro, mesmo tendo um frágil teto de vidro. Kate Mara só se destaca realmente no fim da temporada, enquanto Evan Peters mostra ser uma verdadeiro camaleão dentre as diferentes produções de Ryan Murphy. Eles cumprem bem seus papeis, mas reforçam quais são as reais estrelas dessa história.

    Desde o anúncio da escalação de cinco atrizes transgênero em seu elenco regular (quebrando recordes na TV norte-americana), Pose já deixava clara sua mensagem: desmistificar qualquer lenda preconceituosa que impede a presença da diversidade nas séries. Mas isso não teria a mesma relevância se isso não acontecesse fora das telas. Além de Murphy e Brad Falchuk, o script ainda é criado pelo ativista gay Steven Canals e pelas roteiristas trans Our Lady J (Transparent) e Janet Mock (que fez sua estreia como direção na série também). Não adianta apenas vender diversidade na vitrine se não apresentá-la no interior da criação. Por isso, o texto da minissérie surge como algo natural e verdadeiro. O único defeito da produção de Murphy são seus longos episódios, com cerca de uma hora de duração cada. Mesmo assim, as histórias são tão boas que o espectador nem sente o tempo passar. Seja em visual, duração, tema ou elenco, Pose não hesita em ser ousada. Porém, não exagera ou polemiza para chamar atenção. É uma trama honesta, que traz algo revigorante para a TV. Tudo isso sem nunca perder a pose. Perdão pelo trocadilho.

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