Parecia que a Globo havia deixado essa novela no fundo da gaveta, sem nenhuma reprise ao longo de 35 anos. Agora, porém, Mico Preto está de volta e já integra o catálogo do Globoplay, como parte do Projeto Resgate. Exibida originalmente em 1990, na faixa das 19h, a obra segue sendo lembrada pelo título inusitado, pela irreverência e pelas controvérsias.
Escrita por três autores, Marcílio Moraes, Leonor Bassères e Euclydes Marinho, a trama acompanha o misterioso desaparecimento da empresária Áurea Menezes Garcia (Márcia Real), que nomeou o desconhecido Firmino (Luiz Gustavo) como seu procurador. Com o poder nas mãos, ele passa a enfrentar a disputa dos herdeiros pelos negócios da milionária.
A comédia e o deboche guiavam a narrativa. Gloria Pires, que viveu Sarita, “a pin up do subúrbio", definiu a novela como uma "comédia nonsense", "uma coisa inspirada em Pedro Almodóvar”, em seu depoimento ao projeto Memória Globo. Segundo a atriz, era um momento em que o cinema do diretor espanhol estava em evidência, e autores e diretores queriam apostar em uma “novela louca”, fora dos padrões tradicionais do humor.
Texto sem pé nem cabeça
Um dos grandes problemas de Mico Preto foi a condução do roteiro, que acabou criando uma verdadeira “colcha de retalhos”. Sem colaboradores, o trio de autores dividia o trabalho de forma igual, em um esquema de revezamento. Cada um escrevia dois capítulos por semana, sem escaleta, o resumo organizado das cenas que serve de base para o texto final.
“Éramos três autores e foi uma relação complicada. A trama se perdeu porque eu havia feito a sinopse e cada um fazia o que dava na veneta.”, afirmou Marcílio Moraes ao livro Biografia da Televisão Brasileira, de Flávio Ricco e José Armando Vannucci.
TV Globo
Em entrevista recente ao portal NaTelinha, Marcílio lamentou que a novela não tenha alcançado mais sucesso, justamente pela forte rejeição nos bastidores. “Apesar da audiência razoável, a novela foi muito criticada na época. Os atores falavam mal, reclamavam dos papéis, e, claro, acabavam colocando a culpa em mim, que era o titular.”, declarou.
Segundo o autor, o principal entrave foi uma disputa de poder nos bastidores da emissora. "O problema foi a luta de poder nas altas esferas. Havia disputa pela direção de dramaturgia da emissora [...] Uma das partes começou a me boicotar [...] na verdade queria me derrubar."
"Uma das piores experiências da minha vida": Há 20 anos, Globo concluía novela problemática que quase ninguém gostou – nem mesmo o autor!E Mico Preto se perdeu...
Os problemas internos, aliados à proposta experimental e ao estilo de escrita pouco convencional, acabaram abrindo espaço para que os atores improvisassem diálogos e até inventassem personagens. Ao livro Autores, Histórias da Teledramaturgia. Miguel Falabella, que interpretou os gêmeos José Luiz e Arnaldo, classificou Mico Preto como “a novela mais alucinada da televisão brasileira”. Sobre os improvisos e a falta de comando, ele comentou:
"Os autores enlouqueceram no meio e se perderam na história [...] Um dia eu disse: ‘Vou fazer essa cena toda em inglês’. Fiz e foi ao ar! […] Nós até inventamos uma personagem que não existia [...] Era uma maluquice. O público não entendia e a gente também não."
Apesar do caos criativo, há quem tenha gostado da novela, que acabou ganhando status de cult com o passar dos anos. Mico Preto apresentou, sim, personagens únicos e divertidos, além de uma história ousada, que abordava temas relevantes para a época. Não foi um sucesso absoluto de audiência, mas também passou longe de ser um fracasso.
Mico Preto também reuniu nomes como José Wilker, Eva Wilma, Louise Cardoso, Tato Gabus Mendes, Yara Côrtes, Mauro Mendonça, Bia Seidl, Marcos Frota, Sergio Viotti, entre outros. A novela marcou a estreia de Deborah Secco na televisão, ainda criança, assim como a de Charles Möeller, Marcélia Cartaxo e Daniela Camargo.