A Netflix parece não conseguir se livrar da sua obsessão por assassinos em série. Seguindo os passos da antologia criada por Ryan Murphy, Monstro: A História de Ed Gein, a série O Monstro de Florença causou burburinho no streaming, conquistando o Top 1 de mais assistido na plataforma e, de certa forma, se diferencia positivamente dos “monstros” americanos.
Para contar todo o caso do chamado Monstro de Florença, seriam necessárias mais temporadas e spin-offs do que Dexter e Yellowstone juntos. Os crimes que aterrorizaram a região da metrópole renascentista italiana entre 1968 e 1985 envolveram tantos suspeitos, tantos erros policiais e tantas teorias bizarras que daria uma série interminável.
A nova produção da Netflix, O Monstro de Florença – que não tem relação com a série de Ryan Murphy sobre Ed Gein – tem apenas quatro episódios. Dá para ver em uma noite, desde que você queira mergulhar num horror baseado em assassinatos ainda não solucionados.
A série é como uma mistura de Zodíaco com a linha “monstros” da Netflix
Netflix
Acredita-se que o “Monstro de Florença” seja responsável por pelo menos oito homicídios duplos. Em todos os casos, as vítimas eram casais assassinados dentro de carros, em estradas rurais ou trilhas isoladas. A maioria foi morta a tiros, e as mulheres também sofreram mutilações.
A história começa com Barbara (Francesca Olia) e seu amante Antonio (Claudio Vasile), assassinados a tiros enquanto o filho pequeno de Barbara assistia tudo do banco de trás. Stefano (Marco Bullitta), marido de Barbara, é condenado pelo crime, mas a arma nunca é encontrada.
Anos depois, outros casais são mortos seguindo o mesmo padrão – provavelmente com a mesma arma. O ponto de comparação mais próximo é o filme Zodíaco, de David Fincher. Ambos tratam de mistérios não resolvidos, e parte da tensão vem justamente da variedade de suspeitos – cada um mais plausível que o outro –, sem que se chegue a uma resposta definitiva.
Enquanto Fincher focou nos investigadores e na sua obsessão, a série de Leonardo Fasoli e Stefano Sollima se concentra nas histórias dos suspeitos. Cada episódio destaca um deles, lembrando um pouco a estrutura da antologia Monstro, que também explora perfis psicológicos.
A série não pretende esgotar o caso
Netflix
Stefano e sua esposa assassinada, Barbara, são o fio condutor da trama. Os quatro episódios acompanham apenas uma das pistas da investigação – a chamada “pista sarda”, que liga os crimes a conhecidos do casal com ascendência da Sardenha. Quem espera uma visão geral de todo o caso pode ficar decepcionado.
A narrativa salta entre becos sem saída da investigação nos anos 1980 e flashbacks dos anos 1950, quando Barbara é forçada a se casar. O casamento conturbado com Stefano é o ponto central para o qual a série sempre retorna, às vezes com revelações esclarecedoras, outras com repetições cansativas. Stefano cometeu o primeiro crime sozinho? Teve ajuda de algum amante de Barbara, que depois continuou os assassinatos?
Stranger Things continua em 2026: É assim que Eleven, Dustin e os outros retornam nesta nova série da NetflixMais interessante é o retrato da sociedade da época: filhos morando com os pais até o casamento, intimidade relegada a lugares afastados, desejos vividos às escondidas. Isso valia tanto para as vítimas quanto para uma verdadeira “microeconomia” de voyeurs que perseguiam os casais. Os diretores brincam com nossas expectativas: aquela figura à espreita na floresta é o assassino… ou só mais um observador?
De qualquer forma, O Monstro de Florença está cheio de momentos de desconforto intenso – talvez não no nível de Zodíaco, mas com uma direção precisa e atmosférica que se destaca entre as produções de true crime da Netflix. A série supera a sua popular antologia em alguns aspectos, mas não em todos. A violência é mostrada de forma mais contida aqui do que na série de Ryan Murphy. Em Ed Gein, a sucessão de cenas macabras pode até insensibilizar o espectador, com mutilações quase caricatas.
Já O Monstro de Florença explora como valores ultraconservadores e certas ideias de masculinidade alimentam fantasias violentas, aprofundando esses temas com mais sutileza que sua concorrente americana.
A série está disponível na Netflix desde de outubro.