O tradicional espetáculo teatral da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, em Pernambuco, emociona os fiéis há 56 anos durante a Semana Santa. A cada temporada do evento, o papel de Jesus costuma ser interpretado por um ator da Globo – mas nem sempre foi assim. Em 1997, pela primeira vez, os principais papéis foram entregues a artistas famosos.
No entanto, o que era para ser um trabalho emocionante e pacífico acabou se tornando uma grande polêmica envolvendo Fábio Assunção, o "Jesus recém-contratado". Sua escolha causou revolta em José Pimentel, que tradicionalmente vivia o papel e havia sido demitido pouco antes da chegada do ator global.
Ator não aceitou ser substituído
De acordo com informações da Folha de S. Paulo, Pimentel havia interpretado Jesus por 19 anos e foi demitido após se recusar a ser substituído por Assunção. O artista também exerceu o cargo de diretor da peça por 27 anos e tinha um objetivo claro: defender a contratação exclusiva de atores nordestinos na cidade-teatro de Nova Jerusalém.
"Nosso mercado de trabalho é muito restrito e acho que não haveria necessidade alguma de a produção convidar atores do Sul/Sudeste. Na minha opinião, olhos azuis não significam talento", afirmou o "Jesus demitido" na época.
Acervo STFN/André Lombardi
Ele ficou tão inconformado com a decisão que chegou a acusar a produção da peça de ter agido como Judas Iscariotes – o apóstolo que, segundo a Bíblia, traiu Jesus Cristo e o entregou aos soldados romanos. "Jesus foi traído e morreu para salvar a humanidade. Eu também fui traído, vou oferecer um show aos excluídos, mas não vão me crucificar".
Diante da polêmica, José Pimentel decidiu montar sua própria versão da Paixão de Cristo no estádio do Santa Cruz, em Recife, e agendou as apresentações para os mesmos dias da encenação concorrente.
Grátis no streaming: Este é o filme com Ewan McGregor sobre a solidão de Jesus Cristo que você deveria assistir na PáscoaPosteriormente, as afirmações de Pimentel foram rebatidas por Carlos Reis, diretor da peça na época. O profissional afirmou que a substituição do veterano no papel principal foi necessária, á que o acúmulo de funções por parte de Pimentel "prejudicava a direção".
"O problema é que ele não aceitou a troca, e essa posição colocou toda a produção em xeque. Ninguém é eterno", disse Reis, que também já havia interpretado Jesus entre 1969 e 1977.
Fábio Assunção comentou a polêmica?
Na época, Fábio Assunção optou por não comentar o assunto, afirmando que havia sido contratado apenas para trabalhar. No entanto, a polêmica dividiu completamente o elenco. Cerca de 20 atores, fiéis ao antigo Jesus, pediram demissão.
Além de Assunção, Silvia Pfeiffer e Jackson Antunes também trabalharam na produção teatral daquele ano, interpretando, respectivamente, Maria e Pôncio Pilatos.