Ao retratar questões culturais e sociais do país, as novelas brasileiras inevitavelmente acabam esbarrando em temas religiosos, muitas vezes estimulando debates e contribuindo para quebrar preconceitos sobre assuntos que fazem parte do cotidiano da população.
Em alguns casos, porém, a repercussão foi bem diferente do esperado e provocou forte reação de determinados segmentos, com críticas que, em diversas situações, foram apontadas como manifestações de intolerância religiosa. A seguir, relembre 7 novelas brasileiras que despertaram a mobilização de grupos religiosos.
1. Porto dos Milagres (2001)
Divulgação/TV Globo
Com um protagonista adepto do Candomblé, o pescador Guma (Marcos Palmeira) , a novela Porto dos Milagres recebeu críticas dos bispos líderes da Igreja Metodista do Brasil, que, divulgaram um manifesto propondo aos fiéis que boicotassem a produção.
Segundo os religiosos, a exaltação à religião de matriz africana e o culto a Iemanjá "não combinam com a formação cristã do povo brasileiro". A emissora carioca ainda foi acusada de fazer “propaganda religiosa em um Estado laico”.
"Usamos o candomblé como elemento dramático, não como propaganda religiosa. A novela se baseia em dois livros de Jorge Amado (A Descoberta da América pelos Turcos e Mar Morto), nos quais o candomblé tem papel de destaque. Aliás, eu sou católico", contestou Aguinaldo Silva, um dos autores de Porto dos Milagres, à Folha de S. Paulo na época.
2. Estrela-Guia (2001)
Marcela Haddad/TV Globo
Na mesma época, outra novela da TV Globo também desagradou o mesmo grupo de religiosos. Protagonizada por Sandy no papel da jovem Cristal, que vivia em uma comunidade hippie voltada ao culto da natureza, Estrela-Guia foi acusada de “promover o esoterismo”.
Segundo o manifesto dos bispos, a obra estaria influenciando milhares de pessoas, principalmente os adolescentes, a aceitarem uma “espiritualidade mágica”.
A trama de Ana Maria Moretzsohn ainda irritou parte dos católicos. Ao Estado de S. Paulo, o padre Wilson Victoriano Ferreira da Silva, diretor espiritual da Renovação Carismática Católica da Diocese de Jundiaí, em São Paulo, afirmou: "Abominamos o esoterismo, a leitura de horóscopo e acreditamos que os astros não influenciam na vida humana."
Para proteger Sandy, Globo vetou piada do Casseta e Planeta sobre tema incômodo: "Não pudemos fazer"3. Um Anjo Caiu do Céu (2001)
Divulgação/TV Globo
Ainda teve uma terceira novela naquele mesmo ano que despertou polêmica religiosa: Um Anjo Caiu do Céu, também da TV Globo. Membros da Igreja Católica não ficaram felizes com o retrato feito do anjo Rafael, interpretado por Caio Blat. Na trama, o ser angelical poupava o fotógrafo João Medeiros (Tarcísio Meira), dando-lhe seis meses a mais de vida.
Para integrantes de um movimento católico conservador, a obra mostrava uma “atividade angelical que é uma caricatura” e que não condizia com a doutrina da Igreja. "Não estamos em campanha, mas boicotamos as novelas que ferem a nossa fé", disse Reinaldo Beserra dos Reis, o então presidente do Conselho Nacional da Renovação Carismática.
4. Mulheres Apaixonadas (2003)
Divulgação/TV Globo
Os católicos tampouco ficaram contentes com o tabu abordado por Mulheres Apaixonadas envolvendo a paixão entre Padre Pedro Vicenza (Nicola Siri) e Estela (Lavínia Vlasak).
Na ocasião, o autor Manoel Carlos tomou o cuidado de fazer com que os personagens só se envolvessem de fato depois que o religioso já tivesse deixado a batina, mas isso não conteve as críticas ao tema. Ainda assim, o romance proibido conquistou o público, e a cena da primeira noite de amor dos personagens alcançou 50 pontos de audiência.
"Eu ia para a igreja todos os dias. Quando estreou a novela, as carolas da igreja quase me bateram, dizendo: 'Não pode!'", relembrou Nicola, intérprete do padre, ao Vídeo Show.
5. Salve Jorge (2013)
Divulgação/TV Globo
Já no caso de Salve Jorge, o incômodo não se deu exatamente por algum núcleo retratado na novela, mas sim pelo título e pela abertura da obra, que mostrava São Jorge montado em seu cavalo, simbolizando a luta do santo guerreiro contra o dragão.
Embora também faça parte da fé católica, a representação foi mais associada às religiões de matriz africana, nas quais São Jorge é sincretizado com o orixá Ogum, o que gerou desconforto em certos grupos e motivou episódios de intolerância religiosa.
Na época, uma campanha com o slogan "Queima o Jorge" convocou fiéis de igrejas neopentecostais a boicotar a trama e assistir à reprise de Rei Davi, da Record, no lugar.
Ao jornal O Globo, a autora Gloria Perez sugeriu que o boicote teria sido organizado por pessoas que tentam impor seus interesses por meio da fé alheia. "Não vejo protesto de evangélicos, o que vejo são interesses comerciais apelando para o fundamentalismo", afirmou.
6. Babilônia (2015)
Reprodução/Globo
A polêmica em torno de Babilônia surgiu logo no início da novela, a partir do par romântico entre as octogenárias Teresa e Estela, interpretadas pelas atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, respectivamente. As duas protagonizaram um singelo selinho no primeiro capítulo, o que foi suficiente para despertar a fúria de alguns grupos religiosos.
Na época, o pastor evangélico e deputado federal Marcos Feliciano promoveu um boicote a uma das empresas patrocinadoras da novela, afirmando que defendia “valores morais” com sua atitude. Outros parlamentares da bancada evangélica também divulgaram nota de repúdio.
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Reprodução/TV Globo
Já no caso de Segundo Sol, o grupo religioso que demonstrou incômodo com a história foi o dos umbandistas. Na trama de João Emanuel Carneiro, que chegou a provocar o arrependimento de seu protagonista por ter participado da novela, Laureta (Adriana Esteves) realizava um ritual para desejar o mal a seus inimigos e acabava sendo atendida.
Religiosos afirmaram que a cena demonstrava falta de entendimento sobre a Umbanda e o Candomblé, ao associar essas crenças a práticas maldosas. As críticas também apontavam que o retrato feito pela obra ofendeu muitos fiéis e reforçou preconceitos e a intolerância já existentes contra essas religiões de matriz africana no Brasil.
Felizmente, apesar da reação negativa de grupos religiosos, a maioria do público encarou boa parte dessas polêmicas como formas interessantes de abordar temas relevantes, e não como algo problemático. Em diversos casos, a controvérsia acabou despertando ainda mais curiosidade e impulsionando a audiência das novelas.