Há cinco décadas, uma protagonista de novela da Globo foi "morta" pela censura, interrompendo o que seria a vitória de uma mulher ambiciosa em uma trama que desafiava os padrões da época. Essa personagem era Nice, interpretada por Susana Vieira na primeira versão de Anjo Mau (1976), escrita por Cassiano Gabus Mendes.
Na história, Nice trabalha como babá na casa dos Medeiros e está determinada a mudar de vida conquistando o amor de seu patrão, Rodrigo, interpretado por José Wilker. Humilde, mas gananciosa, a jovem não hesita em usar manipulações e artimanhas para alcançar seu objetivo. Apesar dos truques, ao longo dos capítulos, ela realmente se apaixona por ele – e ele por ela.
Protagonista morreu por pressão da censura
No final da novela das sete, contudo, Nice teve um destino trágico: morreu no parto, incapaz de viver sua história de amor. Esse desfecho não foi uma escolha criativa do autor, mas uma imposição da censura durante o período da ditadura militar no Brasil.
"Fui censuradíssima porque a empregada não podia namorar o patrão. Era puro preconceito, tanto que eu morri no final da novela. Até hoje não me conformo. Sem censura, eu não teria morrido", afirmou Susana Vieira em entrevista ao Altas Horas, em 2020.
Divulgação/TV Globo
Naquela época, o regime militar de Ernesto Geisel controlava rigorosamente o que podia ser exibido na televisão brasileira. Temas considerados “imorais” ou que desafiassem os valores tradicionais eram rapidamente censurados. A narrativa de uma babá se envolvendo um ricaço foi vista como imprópria, e nem mesmo a Globo conseguiu se opor ao sistema.
Nem Senhora do Destino, nem Por Amor: O melhor papel de Susana Vieira despertou uma paixão avassaladora nos bastidoresEm uma live no Instagram com Marcos Michalak, criador do perfil Noveleiros, Susana relembrou a pressão sofrida pela emissora carioca em Anjo Mau: "O governo disse à Globo que precisava mudar o final, que tinha que matar a empregada. A Globo teve que aceitar porque vivíamos sob censura, tudo passava pela censura".
Para além da censura: público enxergava Nice com maus olhos
"Eu não me conformava com a ideia de alguém morrer de parto. Era 1976, ninguém morria de parto, a menos que estivesse em um lugar remoto", desabafou a atriz. Naquele tempo, a censura não apenas controlava o conteúdo das telenovelas brasileiras, mas também refletia os rígidos padrões sociais da época. Mulheres que, como Nice, ousavam desafiar o papel que a sociedade esperava delas eram frequentemente mal vistas.
Essa confusão entre a personagem e a atriz não se limitava às telas. Susana revelou que chegou a ser agredida fisicamente por uma vizinha que não separava ficção da realidade: “As pessoas ainda misturavam as coisas, por isso apanhei. Tinha uma vizinha de frente que me odiava, achava que o marido dela estava na minha casa”, contou.
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Apesar de seu jeito expansivo, a estrela não reagiu à agressão. Ela contou que, além do medo e da incompreensão, ainda teve que lidar com a pressão do trabalho: “Apanhei calada, porque tinha que chegar na Globo. A entrada era às 7 da manhã. Ainda levei uma bronca por estar atrasada, nem pude registrar queixa na polícia… Entendi que a mulher estava com ciúmes”.
A sociedade dos anos 1970 era muito diferente da atual. A televisão, especialmente as telenovelas, exercia forte influência sobre o comportamento e as opiniões das pessoas. Qualquer desvio do que era considerado “moralmente aceitável” era rapidamente punido, seja pela censura, seja pela própria sociedade, como exemplificou Vieira.
Remake de Anjo Mau chegou 21 anos depois
Embora tenha tido um final trágico e inesperado, Anjo Mau foi um grande sucesso de audiência, chegando a registrar picos de 90 pontos no Ibope no penúltimo capítulo, justamente quando a babá não resistiu ao parto de sua filha prematura.
No entanto, o impacto da interferência da censura foi duradouro, tanto para os envolvidos na produção quanto para o público, que reagiu negativamente à morte da protagonista.
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Em 1997, a Globo decidiu fazer um remake, desta vez com um final diferente. A nova versão, escrita por Maria Adelaide Amaral e protagonizada por Glória Pires, recontou a história de Nice, mas com um desfecho que permitiu à personagem ser feliz ao lado de Rodrigo (Kadu Moliterno). Sem as amarras da censura, Nice não precisou pagar com a vida por sua ambição.
Tanto a primeira versão quanto o remake de Anjo Mau estão disponíveis no Globoplay.