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    Olhos Azuis Entrevista exclusiva com Irandhir Santos
    Por Francisco Russo — 28 de mai. de 2010 às 00:55

    Entrevista exclusiva com Irandhir Santos

    Irandhir Santos ainda é pouco conhecido pelo público em geral, apesar de ter aparecido com frequência nos cinemas ultimamente. Ainda porque um de seus próximos filmes é o aguardado Tropa de Elite 2, onde é o antagonista do Nascimento de Wagner Moura. Ele conversou com Francisco Russo, editor do Adoro Cinema, sobre Olhos Azuis, seu mais recente filme a chegar ao circuito. ADORO CINEMA: Você está com um feito raro, com três filmes em cartaz no circuito (Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, Quincas Berro D'Água e Olhos Azuis). Como é ser o ator da moda no cinema nacional? IRANDHIR SANTOS: O que sinto neste momento é que, cada vez mais, estou gostando de fazer cinema. São três obras que surgiram neste momento, mas elas foram rodadas em anos diferentes, com histórias diferentes e em momentos distintos. Casou delas aparecerem agora em 2010, um ano que não é tão igual aos outros porque tem eleição e Copa do Mundo. Isso diminui o espaço para as estreias dos filmes. Não vejo nada mais do que coincidência, mas me sinto muito feliz de estar presente nestas obras. Acredito que as obras devem chegar ao público através da história, isso é que importa. Se acontecer em cada uma delas será maravilhoso, me darei por satisfeito. AC: Como o projeto de Olhos Azuis chegou até você? Irandhir: Foram feitos testes em Pernambuco. A Heloísa Rezende e o João Jr. me ligaram falando do projeto, querendo fazer um teste comigo. Quando peguei o material vi que era em inglês, algo que tinha dificuldade. Ainda assim me atrevi, pois queria fazer cinema. Queria saber como era isso e até então só se conhecia cinema fazendo cinema, ao menos era assim na minha terra. Então me dispus a isso, com toda vontade, em querer fazer. Fiquei muito feliz quando recebi a notícia de que tinha passado. Começou então uma nova etapa, que foi o processo de preparação. AC: Como foi esta preparação, você chegou a fazer algum tipo de pesquisa? Irandhir: Não tenho contato com os Estados Unidos, de nenhuma forma. Nunca fui lá, minha saída até então era para a Europa. Então precisava ter relatos o mais próximo possível do que se passava. Alguns amigos tiveram este tipo de experiência, não tão drástica quanto o Nonato mas algo parecido no sentido de comportamento. Fui atrás. Pessoas me indicavam, o próprio Joffily também. Mas a preparação fundamental para o Nonato veio na questão da fluência do inglês. Tinha uma noção básica da língua, especialmente de leitura, mas não a fluência necessária. E isto era primordial para o Nonato, alguém que está lá há mais de três anos, que aprendeu o inglês de rua, um inglês específico, mas que também quando é preciso pode usar um inglês um pouco mais sofisticado. É isso que acontece no início do filme e, à medida que ele é bombardeado, vai perdendo isso e quase que volta à língua mãe. É natural isto acontecer. Tinha que ter esta segurança na fala. Falei com o Joffily e ele definiu que iríamos estabelecer um tempo para isso. Foi super generoso em entrar em contato com uma escola de língua inglesa lá de Recife, onde tinha um professor norte americano que foi crucial neste sentido. O Joffily me deu o roteiro e disse para que colocasse da forma que achasse melhor, lembrando essa coisa do inglês de rua. Foram dois meses lapidando este roteiro e aí tornou-se algo mais sólido até a chegada do David Rasche e dos outros atores americanos, quando surgiu uma nova etapa, a do improviso. O David trouxe as suas referências, o que queria para o personagem, e eu tinha as minhas também. Então foi uma etapa de ajuste, entre aquilo que eu tinha e o que o David tinha. Aí sim, após isto, a gente foi pra cima. AC: Seu personagem começa calmo e, à medida que os eventos acontecem, ele fica cada vez mais irritado até explodir de vez. Como foi construir esta mudança emocional do personagem? Irandhir: Algo que faço para todos os meus personagens são registros, tenho um caderno para cada um deles. Isto me ajuda, é uma forma de concretizar a forma que o ator trabalha. Então é como se tivesse o personagem nas minhas mãos, pois nele tenho toda sua trajetória. Isto me ajuda muito quando faço cinema, pois há aquela quebra na ordem das cenas a serem rodadas. Dependendo da cena vou direto ao caderno e vejo em que situação o personagem está. Com o Nonato aconteceu algo muito especial, porque notei esta trajetória dele até uma tensão limite. Como trabalho com muitos desenhos e referências, que me ajudam, usei o que os aeroportos americanos passaram a ter após os ataques do 11 de setembro. Eles começaram a utilizar cores para definir o nível de alerta. Então existia um nível amarelo, laranja, até o vermelho. Foi mais ou menos a trajetória que o Nonato fazia. Havia cenas em que achava que o Nonato estaria no alerta amarelo, outras no laranja e onde ele chegaria até o vermelho. Fiz esta separação para interiorizar isto. Até nas horas de gravação o Joffily chegava e dizia "nível laranja, Irandhir". Isto me ajudou muito a pontuar esta trajetória. AC: Falando sobre Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, me chamou muito a atenção a figura do protagonista que não está presente nunca. Como foi construir um personagem com a limitação de apenas usar a voz? Irandhir: Foi muito desafiador neste sentido. Sempre tinha utilizado meu corpo como instrumento para todos os projetos até então, que é um elemento que me ajuda na construção para entrar na história. Tem a transformação física, o próprio Nonato passa por uma. Isto é importante para o ator porque acredito que o registro físico te ajuda no emocional. Quando chegou o convite do Marcelo e do Karim com esta proposta, de não ter o corpo e ir pela voz, foi como se tirasse minha ferramenta. Descobri então que existem outras ferramentas para o ator e a voz é uma especialíssima. A ideia era ter a voz que tem mãos, braços, coração. É preciso ter as mãos com a ênfase da palavra, com a respiração. É preciso estar, mesmo não estando aparecendo. Então perdi meu corpo, mas descobri minha voz. É um instrumento tão bom quanto e tão magnífico quanto. Outra coisa que acho curioso é que o fato de não aparecer dá vazão às pessoas que assistem para formar o José Renato da sua maneira. Inclusive depois, conversando com o Karim e o Marcelo, disse que não iria aparecer, nem antes do filme, que eles não iriam me apresentar, por causa disto. A gente tentou segurar ao máximo de não aparecer. Quem ia apresentar o filme nos locais em que era exibido eram os diretores. Apenas citavam meu nome, mas não aparecia fisicamente. Acho que aparecer daria um limite à imaginação das pessoas e a gente acabou optando por isso. AC: Sobre Tropa de Elite 2, como foi a sua experiência com as filmagens? Irandhir: Foi fantástica! O Padilha se cerca de histórias as quais ele quer fazer conversar para levantar pontos que serão muito discutidos. E são pontos novos, não abarcados pelo primeiro filme. Gosto deste tipo de cinema, que vem para provocar discussões. Mas acima de tudo ele está cercado por uma equipe que é simplesmente fascinante. Da parte técnica aos atores, ele tem um time perfeito. Wagner Moura foi um excelente colega, na construção do que era preciso para cada cena. Há uma equipe formada que dá uma sustentação que te dá a segurança necessária para se jogar na história. Quando senti que estava cercado e seguro desta maneira, a sensação era de se atrever, vai atrás que você está bem cercado. Fui muito bem aceito pelas pessoas. Estava um pouco receoso, pois não estava no Tropa de Elite e de repente você pega uma equipe bem casada e vencedora, por tudo que provocou, de repente vem alguém novo. Mas eles foram super abertos e generosos. Eu me senti muito feliz de ter feito Tropa de Elite 2. Confesso que a expectativa de fazer o filme não aconteceu durante as filmagens, pois a equipe se cercou a ponto de não deixar que a demanda interferisse no trabalho. Tanto é que para mim soou como outros trabalhos, minha entrega foi tanto quanto em qualquer outro que fiz, mas só veio cair a ficha do que é Tropa de Elite 2 depois que terminou. Porque aí voltei para casa e começou uma demanda de pessoas querendo saber como era tudo. Isto nunca tinha acontecido com nenhum filme que tinha feito até então. Foi aí que tive um pouco da noção exata do que seria o filme. Ainda bem que já tinha filmado tudo. AC: Em relação a novos projetos, já há algo em vista? Irandhir: TV tem surgido desde minha participação em "A Pedra do Reino", mas tem casado com projetos de cinema e, como tenho me colocado à disposição do cinema, não pude fazer televisão ultimamente. Em relação a cinema, estou com uma grande paixão na minha vida que é o Cláudio Assis. Foi ele quem me deu uma das primeiras oportunidades em cinema, em Baixio das Bestas. Agora ele vai rodar seu terceiro filme, A Febre do Rato, todo feito em Recife e Olinda. Ele me fez o convite e será agora no segundo semestre. Então este é meu próximo projeto.

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