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    Aeroporto Central: "É importante não vilanizar a vítima", diz Karim Aïnouz sobre refugiados (Entrevista exclusiva)
    Por Barbara Demerov — 23 de abr. de 2020 às 14:27

    Novo documentário do diretor de A Vida Invisível é ambientado em antigo hangar nazista.

    Prestes a estrear diretamente nas plataformas de streaming nesta sexta-feira (24), o documentário Aeroporto Central, de Karim Aïnouz, premiado no Festival de Berlim em 2018, permanece com inúmeras questões atuais.

    Ambientado no aeroporto de Tempelhof, em Berlim, o filme possui "ironias históricas", segundo o diretor. Para começar, o aeroporto foi construído durante o regime nazista e foi muito utilizado durante a Segunda Guerra Mundial.

    Já no período pós-guerra, o local foi transformado em parque público (o maior da cidade) e, posteriormente, em um grande abrigo para refugiados em busca de asilo e proteção. Funcionou de 2015 a 2019. O que antes era um lugar que emanava os erros do passado alemão, hoje se transformou em um símbolo de redenção.

    O AdoroCinema conversou com Aïnouz sobre a questão que envolve os refugiados no mundo todo, a verdadeira crise que assola o planeta e muito mais. Confira a entrevista completa abaixo:

    AC: O filme traz um contraste entre a certa segurança que os refugiados sentem no aeroporto, com a realidade que não é nada fácil, afinal eles podem ser deportados a qualquer momento. Como você chegou a este lugar de mostrar essa dualidade? Aïnouz: Boa pergunta. Isso foi algo que me interessava muito. Eu olhava para aquele lugar e falava: "Gente, olha que maluquice. Essas pessoas morando aqui, onde consertavam aviões de guerra, e que agora estão fugindo de uma guerra aqui dentro". Foi curioso porque, na primeira vez em que fui lá, os hangares já estavam sendo transformados em centros para refugiados solicitantes. Foi em novembro de 2015 e foi literamente de uma hora para a outra que aquilo se transformou num abrigo. Então, fui acompanhando toda a transformação. De um lado eu dizia que era o abrigo de refugiados mais organizado do planeta, porque rapidamente os banheiros foram construídos, organizando cozinheiros vindos da Síria. Então tinha ali algo muito contraditório - ao mesmo tempo em que eles eram bem tratados no sentido técnico mesmo, era algo muito absurdo, porque ali não é um lugar para ser humano morar. Quando você pensa em retrospecto de onde aquelas pessoas estavam vindo, dos países completamente dilacerados pela guerra como a Síria, era uma contradição que me espantava a cada dia. É interessante você perguntar isso porque eu acredito que é algo que eles também se perguntavam. É muito duro. Ibrahim (um dos personagens) tinha ódio de estar ali, ele não conseguia dormir e não tinha privacidade. Mas também não ouvia explosões de bombas. Era uma contradição presente o tempo todo.

    AC: O início do filme é interessante, pois mostra a guia turística explicando a origem do aeroporto e traz as memórias da guerra. Hoje, o aeroporto segue um caminho totalmente contrário ao que Hitler queria seguir... Aïnouz: Foi muito importante construir esta camada histórica. Foi o que mais me impactou. O documentário não nasceu como uma história sobre os solicitantes de asilo, ele começou focado naquele parque que antigamente eram as pistas de pouso de um aeroporto que, outrora, era um centro do nazismo. Eu pensava "quantas vezes Hitler pousou aqui?". Tinha um fantasma ali, as pistas de pouso estavam cheias de sangue da guerra. Aí, me dei conta que, além das pessoas que estavam no que hoje é um parque, haviam mais pessoas morando ali dentro dos hangares. Existia algo irônico, historicamente falando. Foi importante dar nome àquela ironia. Não é como se fosse "apenas" um abrigo num aeroporto: era um abrigo num aeroporto que foi construído para servir o império nazista. O único que não foi bombardeado durante a guerra e que se manteve de pé para manter a entrada de mantimentos para Berlim. Isso foi o que mais me instigou quando comecei a fazer o documentário. Além de ser um retrato mais íntimo e individual dessas pessoas que estão fugindo da guerra e que são chamadas de "refugiadas", todas ali têm seu nome e uma razão para estar ali. AC: Estamos no meio de mais uma crise, agora de saúde. Mas você acredita que a crise dos refugiados é ainda maior? Aïnouz: Acredito que não existe crise dos refugiados, mas sim uma crise do Ocidente que produz armas e gera guerras que, por sua vez, produz refugiados. Quero dar outros olhos a isso. É como se botássemos a culpa neles sendo que eles são vítimas de um processo que o Ocidente está engrenando. É importante pensar assim para não vilanizarmos a vítima. Sua pergunta é complexa, mas acredito que a maior crise no momento do mundo é a da concentração de renda. Acho inacreditável. As pessoas fogem de seu país natal, de suas próprias casas, por conta da disparidade de renda mesmo. O grande mal dos nossos tempos é essa concentração que assassina à sua própria forma. Quem mais morre são os pobres. Como você tem 6% de humanos que concentram 30 bilhões de dólares? Isso é imoral e o capitalismo permite isso. Enquanto não houver uma distribuição de renda mais igualitária, enfrentaremos essa crise.

    AC: E seu filme mostra bem como as pessoas podem ajudar as outras. Berlim, uma cidade dividida que sofreu com o pós-guerra, transformou um aeroporto nazista num centro de acolhimento. Aïnouz: Exatamente. Existe um pouco de esperança neste mundo. Afinal, o hangar que acolhia a morte hoje escolheu por acolher a vida. Certas coisas podem ser reparadas historicamente.

    Aeroporto Central estará disponível nas plataformas Now, Vivo Play, Oi Play, Itunes, Google+, Filme Filme e Looke.

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