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    Festival de Berlim 2020: My Salinger Year abre a programação com tributo à literatura clássica
    Por Barbara Demerov — 20 de fev. de 2020 às 17:28
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    Com Sigourney Weaver e Margaret Qualley no elenco, festival se inicia dando espaço a um filme leve sobre escolhas.

    No ano passado, o filme que abriu a Berlinale foi The Kindness of Strangers, que não gerou tanto buzz quanto a animação Ilha dos Cachorros, de Wes Anderson (apresentada na edição de 2018). Este ano, o festival alemão - que visa reunir produções de diversos países a fim de se manter, de fato, internacional e atual - selecionou mais uma obra americana que não conversa diretamente com o tom seu político amplamente conhecido, mas que ainda assim soa mais acertada que a escolha de 2019. E isso muito se deve ao assunto principal do longa: a literatura - também universal.

    My Salinger Year, de Phillippe Falardeau, insere Sigourney WeaverMargaret Qualley dentro do cenário literário em Nova York. O mercado da área, o sonho americano e a intenção de uma jovem que busca entrar em um jornal para finalmente compartilhar com o mundo seus poemas escondidos são temas que poderiam muito bem fazer com que o filme caísse no lugar-comum de histórias com protagonistas sonhadores.

    Felizmente, isso não acontece; pelo menos não completamente. O mercado literário abordado no filme se encontra justamente na fase de transformação da máquina de escrever para o computador, na qual a agente literária Margaret (Weaver) não quer se adequar; e o sonho americano de Joanna (Qualley) é o de ser uma poetisa; mas, por conta de um atalho que quis tomar, isso é algo que ela está longe de fazer em seu novo emprego na agência de Margaret.

    Portanto, a intenção da protagonista em se tornar uma escritora mora nas entrelinhas em My Salinger Year, uma vez que Joanna tem cada vez mais certeza do que quer, mas ainda assim está num lugar que a impulsiona de forma natural. Sua vontade interna sempre está ali, mas as "distrações" são bem interessantes também. É interessante notar o conflito de duas gerações com pensamentos tão diferentes através de chefe e funcionária, ainda que isso destaque a impressão de que muito mais poderia ser dito ou até acontecido se não fosse o foco no tom nostálgico da narrativa.

    E, falando de distração, leia-se: J. D. Salinger. O autor de O Apanhador no Campo de Centeio é como se fosse um fantasma na trama, mas que também movimenta seu ritmo com fluidez e delicadeza. A direção de Falardeau prioriza uma sensação de fantasia, de romances feitos há muito tempo na literatura que imediatamente trazem nostalgia - até mesmo de algo que não chegamos a viver. O cinema fala. Por isso, atentando-se à linguagem do filme, My Salinger Year não deixa de ser uma boa escolha para abrir um festival deste porte.

    Talvez o possível estranhamento que a escolha possa causar à imprensa ou ao público geral recaia no fato de estarmos vivendo uma época de intolerância, violência, medo e falta de esperança em diversos âmbitos. Isso mundialmente falando. Mas, olhando pelo outro lado, My Salinger Year (que não está dentro da Competição)  ganha tal posto na Berlinale para nos lembrar que, além de político, cinema também pode ser refúgio.

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