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    "Eu queria abordar os atentados através da tragédia íntima", explica Mikhaël Hers, diretor do drama Amanda (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo — 4 de mai. de 2019 às 08:03
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    Uma história sobre tragédias e recomeços.

    Acaba de estrear nos cinemas um dos grandes destaques do último festival de Veneza: Amanda, dirigido por Mikhaël Hers. O drama gira em torno da vida de uma garotinha (Isaure Multrier) que leva uma vida pacífica com a mãe em Paris.

    Um dia, no entanto, um ataque terrorista provoca diversas vítimas na cidade - entre elas, a mãe de Amanda. De repente, a menina precisa compreender o sentido da morte e aceitar o jovem tio (Vincent Lacoste) como seu novo protetor.

    O AdoroCinema conversou com o cineasta sobre o belo filme:


    A. Lamachère
    O diretor Mikhaël Hers

    Você trabalha novamente com a imagem granulada da película 16mm, assim como em Aquele Sentimento do Verão. Por que escolheu essa captação, ao invés do digital?

    Mikhaël Hers: Eu fiz essa escolha em quase todos os meus filmes. Para mim, o grão tem uma relação de proximidade com os personagens. Presto muita atenção à ideia de percepção nas artes de maneira geral, e acredito que o 16mm reforce esta percepção. Além disso, o efeito nas cores é impressionante. Este é o formato que, para mim, melhor conjuga o real e a ficção.

    É uma imagem que quase podemos tocar, que poderíamos segurar com as mãos. Isso também cria uma relação interessante com a temporalidade. Para os figurinos e acessórios, fizemos escolhas bastante contemporâneas, mas é verdade que esta imagem é mais atemporal. O grão e a película, hoje, remetem ao imaginário do cinema nos anos 1950 e 1960, por exemplo.

    Por que decidiu não se aprofundar nos aspectos políticos do atentado em Paris?

    Mikhaël Hers: Este era o maior desafio do filme para mim: abordar os atentados pelo ângulo da tragédia íntima, e tentar inscrever o drama dos personagens num pano de fundo terrivelmente contemporâneo. Eu não queria fazer um filme saturado de discursos políticos e sociais, apenas mostrar estes aspectos de modo periférico, deixando ao drama íntimo o papel de espelhar estas questões.

    Minha intenção era mais mostrar do que demonstrar as coisas. Para encontrar um discurso político, o espectador pode ler livros, procurar reportagens. Eu estava mais interessado na ficção, e na maneira como o mundo atual se transmitiria no melodrama.

    Como decidiu o que era preciso mostrar ou ocultar? Existem poucas cenas do atentado, mas quando aparecem, elas são fortíssimas.

    Mikhaël Hers: Esta é uma questão de sensibilidade. Sei que outros diretores escolheriam mostrar coisas muito diferentes. Existiriam mil maneiras de contar esta mesma história. Para mim, era inconcebível não mostrar uma imagem que representasse o resultado do atentado, ou ocultar a imagem do jovem rapaz tendo que anunciar à garotinha que a mãe dela morreu. Era indispensável.

    Por outro lado, não cabia no filme demonstrar o atentado acontecendo, ou então descrever o funeral da mãe e dos outros. Trata-se de algo muito intuitivo, difícil de explicar.

    De que maneira explicou à atriz mirim algo tão difícil quanto o luto e a violência de um atentado?

    Mikhaël Hers: Isaure [Multrier] leu o roteiro completo, e acredito que ela entendeu os conflitos. Além disso, ela conversou muito com os pais dela a respeito. Depois disso, eu tentei trabalhar com ela do mesmo modo que trabalharia com os atores adultos. O mais importante era criar uma atmosfera de confiança e compreensão mútua. Mas não quis esconder nada dela sobre as questões reais do filme.

    O que muda muito, quando se trabalha com uma criança na França, é uma questão legal: a legislação só permite que a gente faça diárias muito curtas com as crianças. Tirando isso, a maneira de me comunicar com a garotinha - que nem é tão pequena assim, e já tem idade de compreender os fatos - foi de dizer as coisas diretamente, porém com ternura.

    Ao mesmo tempo, é claro que não ficamos discutindo todas as circunstâncias de um atentado: a questão era buscar as emoções convenientes à cena dentro da atriz, através de sua experiência pessoal, das coisas que a deixavam feliz, triste, angustiada, com suas amigas ou em família, por exemplo.

    Vincent Lacoste é conhecido principalmente pelas comédias. Por que optou por um ator tão extrovertido para um papel minimalista?

    Mikhaël Hers: Vincent Lacoste é um ator muito intuitivo. Ele tem essa falsa aparência de despojamento e malandragem, mas é alguém que trabalha muito. Eu acreditava que, para este papel difícil e bruto, era melhor escolher um ator solar, de aparência leve. Este contraste me interessava. Então, fui buscar um ator que transmitisse algo desengonçado, mas de maneira terna. 

    Que lado de Paris você queria mostrar no filme?

    Mikhaël Hers: Eu queria mostrar o lado mais cotidiano de Paris. Filmei alguns bairros que realmente foram vítimas de atentados recentes, mas meu foco era procurar os bairros pouco conotados. Em Paris, muitos bairros carregam uma conotação imediata: tem o bairro burguês, o bairro chinês, o bairro estudantil... Mas eu preferia um bairro sem reconhecimento fácil, com muitas pessoas misturadas, com arquiteturas variadas. A ideia é que o cenário não condicionasse demais a interpretação.

    Por abordar uma ferida muito específica à França, acredita que o drama possa ser interpretado da mesma maneira em outros países?

    Mikhaël Hers: O filme está começando a ser lançado agora em outras partes do mundo. Sei que ele foi muito apreciado no Japão, país sem histórico de terrorismo. Mas para eles, o mais comovente foi a relação com a fatalidade - isso, eles conhecem muito bem, ainda que através de catástrofes naturais ou nucleares.

    Além disso, acredito que tenham gostado do fato como um drama íntimo reflete a tragédia de uma sociedade inteira, porque é algo que faz parte da cultura deles. Acredito que as reações sejam realmente diferentes de país em país, de acordo com as culturas locais. Estou ansioso para descobrir como o Brasil vai reagir ao filme.

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