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    Mostra SP 2018: "O momento da difusão que é realmente político, se não o filme está adormecido", diz Fernando Solanas (Entrevista exclusiva)
    Por Taiani Mendes — 28 de out. de 2018 às 17:05

    Diretor argentino denuncia o envenenamento da população por agrotóxicos em seu novo documentário, Viaje a los Pueblos Fumigados.

    Cineasta argentino com mais de cinquenta anos de carreira, Fernando Solanas apresenta na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo sua mais recente obra ativista, o documentário Viaje a los Pueblos Fumigados. No longa-metragem ele empenha-se numa jornada por sete províncias para investigar as novas regras do agronegócio e as consequências do uso descontrolado de agrotóxicos não apenas para as populações rurais, mas todos que comem qualquer coisa produzida na Argentina. Confira sua entrevista ao AdoroCinema:

    AC: Existe cinema apolítico?

    Fernando Solanas: Bom, para os americanos o cinema é entretenimento [risos]. Comprei um livro muito interessante num aeroporto que listava os cassinos, as editoras e o cinema como indústrias do entretenimento... Toda obra cultural incide de alguma forma na sociedade e em seu tempo. O paradoxo é que as obras culturais mais revolucionárias da história passaram inadvertidas em seu tempo, as pessoas rejeitavam. Existem filmes e novelas em que o tema é diretamente político, mas outros não. O impacto político não está só no conteúdo, mas também na difusão e no momento da difusão. Não é a mesma coisa ter um filme sobre um demagogo autoritário e fascista e exibi-lo quando não existe esse personagem ou hoje ou um mês antes das eleições brasileiras. O momento da difusão é o momento realmente político, se não o filme ou o livro estão adormecidos.

    AC: Você crê que o cinema argentino está corretamente atento ao seu momento? Existem muitas ficções propondo um novo olhar sobre o passado em tentativa de conexão com o agora e o futuro, enquanto você, por exemplo, dedica-se ao que acontece atualmente de fato. São duas vias possíveis?

    FS: Faço uma separação muito grande entre o cinema de testemunho, chamado documentário, e de ficção. Para contar uma história sobre os dramas das pessoas há a narrativa, a novela, o cinema de ficção. Que não existe para explicar o mundo e sim para expressar os dramas e conflitos dos seres humanos.

    AC: Não seria uma boa estratégia tentar unir os dois de alguma forma, para ser mais atraente aos espectadores? As pessoas gostam muito de discutir políticas nas redes sociais, mas só vão ao cinema pelo dito entretenimento, como filmes de heróis...

    FS: Mas vocês vivem um momento histórico absolutamente dramático, que vai marcar um antes e um depois. Na Argentina existem formas de censura. Você pode fazer o filme que quiser, mas onde irá exibi-lo? O cinema argentino produziu nos últimos anos 150 longas, metade ficção, metade documental. O circuito exibidor, no entanto, não expandiu junto. Dos 150 filmes, 10%, 15% são distribuídos nas salas dos shoppings. Nenhum documentário, todos ficções com atores conhecidos por causa da TV. Os filmes argentinos ficam em cartaz uma semana, com duas sessões por dia. É um desastre, a lei do cinema não é aplicada. E a televisão não passa filmes nacionais.

    AC: Como fazer então Viaje a los Pueblos Fumigados chegar às pessoas, sendo que este é o seu momento?

    FS: Hoje existem as redes. Muitos dos meus filmes estão disponíveis de forma gratuita na internet. Os documentários são difundidos nos colégios e nas faculdades, os professores exibem nas salas de aula e muitos DVDs são vendidos também. Esse é o caminho. No começo do governo de Nestor Kirchner o canal cultural exibia na TV esses documentários, mas tudo acabou quando apareceu a crítica ao governo.

    AC: Viaje a los Pueblos Fumigados apresenta um panorama trágico da nossa alimentação (e consequentemente de nós, afinal somos o que comemos), mas também uma saída esperançosa. Pessoas inclusive retratadas no longa ou que o verão, no entanto, talvez não tenham condições de mudar seus hábitos, se voltando para os mais caros orgânicos.

    FS: Esse filme propõe uma mudança cultural. Na Europa, no Canadá e nos EUA, os vizinhos se organizam para plantar em terrenos vazios e criam hortas comunitárias. No dia em que as pessoas entenderem que estão comendo veneno, vão plantar alface até na varanda de seus apartamentos. [...] O comportamento precisa ser mudado. O problema do mundo hoje é o aquecimento global por consumo excessivo de energia. As pessoas não têm consciência de que devem economizar, de que para fabricar qualquer coisa se gasta muita energia. É um chamado ao baixo consumo. Inclusive o Papa Francisco fez tal apelo na encíclica Laudato Si, que é um grande manifesto contra a sociedade consumista e capitalista e um dos maiores documentos culturais de nossa época.

    AC: Como o fato de ser senador influencia ou dialoga com o seu fazer cinema e qual a importância de continuar fazendo filmes como esse hoje?

    FS: Nenhum filme, nenhum livro e nenhuma manifestação isolada transforma o mundo. Contribui apenas, e, quando tem muito êxito, se multiplica. Durante a ditadura fiz clandestinamente La Hora de los Hornos, que ganhou vários prêmios internacionais. Havia censura, a Argentina inteira queria ver o filme e ele acabou tendo papel de destaque na queda do regime, mas não sozinho. Como não podia ser exibido nos cinemas, organizações políticas, estudantis e sindicais compraram seus projetores. Contamos 62 grupos que organizavam projeções. Hoje presido a comissão de meio ambiente do Senado, então recebo muitas denúncias, visito, converso com as pessoas. E se o tema é muito importante, acabo fazendo um filme. Quando chega o verão muitos vão à praia, mas minha maior diversão é desenvolver meu próximo trabalho cinematográfico. São os três meses que tenho geralmente para filmar. Não é possível separar a escritura do livro da vida do escritor.

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