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    Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava: "Sentia que o filme ainda era um retrato muito fiel do machismo brasileiro" (Entrevista exclusiva)
    Por Francisco Russo — 24 de ago. de 2018 às 18:22

    Uma jornada pelas entranhas da pornochanchada.

    A pornochanchada como reflexo do Brasil nos anos 1970. Esta é a proposta de Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava, filme de estreia da diretora Fernanda Pessoa que se apropria das cenas exibidas por 27 filmes da época para contar a história não apenas de um fenômeno do cinema nacional, mas também do próprio Brasil.

    O AdoroCinema conversou com a diretora sobre o extenso trabalho de pesquisa em um gênero tipicamente brasileiro, por muitos considerado como maldito, e também sobre como as questões levantadas em tais filmes repercutem ainda nos dias atuais. Confira!


    ADOROCINEMA: Fernanda, este é seu primeiro longa e você já faz um filme revisitando a história do cinema e do Brasil. Como nasceu o interesse pela pornochanchada?

    FERNANDA PESSOA: O interesse nasce justamente da minha formação em cinema. Sou formada pela FAAP e trabalhava justamente com o acervo de fotografias do cinema brasileiro. Comecei a assistir muitos desses filmes, justamente para poder catalogar as fotografias, e comecei a ter um conhecimento acima da média.


    AC: Hoje em dia muita gente procura fugir da pornochanchada, por mais que tenha feito enorme sucesso. Na sua pesquisa, como foi lidar com o fato que são filmes meio malditos, por assim dizer?

    FERNANDA: Justamente me interessou o fato de que são os filmes mais vistos e produzidos dos anos 1970, e a gente não fala nada sobre eles! Apesar de terem várias coisas problemáticas, visões das mulheres super complicadas, são filmes que têm muita política, muita coisa dos anos 70 se revela. Então me interessava justamente olhar para esses filmes, que tanta gente viu ninguém fala hoje em dia. É claro que isso implica em uma certa dificuldade em achar os filmes, porque não são tão preservados. O acesso a eles é mais difícil.


    AC: Você falou sobre essa questão de como vários filmes da pornochanchada tratam as mulheres. No seu documentário este lado da objetificação, do machismo e do autoritarismo está muito escancarado. Dentro da construção da narrativa do documentário, como foi escolher as cenas de forma a denunciar esse tipo de situação?

    FERNANDA: Uma das coisas mais gritantes desses filmes, em relação à representação das mulheres, é o corpo feminino sendo usado como objeto de troca. Sempre tem a operação financeira em que um homem oferece com uma quantia ou alguma coisa para ter acesso ao corpo feminino, ou também narrativas em que o corpo feminino é usado como analogia para algum projeto da ditadura, a Ponte Rio-Niterói ou a Transamazônica. Então o corpo feminino serve como metáfora desse projeto de Brasil grande da ditadura militar, o que é algo muito surpreendente.

    No começo do filme, quando a gente fala muito do milagre econômico, isso fica muito claro. Tem muitas cenas em que aparece essa operação financeira, onde o corpo feminino vale alguma coisa ou a questão da analogia com algum projeto. Nesse primeiro momento a minha abordagem foi realmente levar isso à exaustão para gerar esse incômodo e, a partir do excesso, as pessoas se darem conta do que esses filmes têm em comum.

    Por outro lado, no meio de tudo isso tem também as personagens femininas fortes, que têm consciência de classe, do seu papel na sociedade. Uma mulher que quer abortar, por exemplo. De repente têm essas mulheres que já estão falando de assuntos muito atuais, então isso vai surgindo um pouco depois no filme, quando a gente vai falar dessa mudança de costumes, revolução sexual, esses assuntos.


    AC: E que, de certa forma, driblam a censura da ditadura naquela época, não?

    FERNANDA: Sim, também! Tem um mito de que esses filmes não eram censurados, que a ditadura gostava desses filmes, mas isso é mentira! Pesquisei muito a censura e o que encontrei foram vários documentos, várias listas de corte, vários processos burocráticos pela liberação dos filmes. Então esses filmes eram sim muito censurados, mas eram mais por questões morais do que políticas. Às vezes censuravam planos de posições sexuais com as mulheres por cima, tem vários casos assim nas listas de corte. Então são filmes que, de uma forma ou de outra, acabaram driblando a censura.


    AC: O filme tem várias cenas que incomodam bastante, mas ao mesmo tempo chama a atenção como ele ecoa nos dias atuais. Muito do que se vê escancarado ainda hoje em dia se encontra, só que maquiado. Quando você foi montando a narrativa do documentário, houve o interesse também de denunciar esse machismo e autoritarismo que existem ainda nos dias atuais?

    FERNANDA: Quando estava montando o filme eu sentia que ele era muito atual, principalmente nessas questões. Sentia que ele ainda era um retrato muito fiel do machismo brasileiro, um retrato muito fiel do racismo, porque isso ainda está muito posto em questão. Especialmente as mulheres negras hiper-sexualizadas, que são mais sexualizadas ainda que as mulheres brancas e geralmente postas como empregadas domésticas. Também existe a homofobia, que a gente percebe como muito atual. A representação dos homens gays em novelas e filmes da Globo ainda é muito voltada para o personagem meio ridículo, alívio cômico, cheio de trejeitos. Então eu senti que o filme era muito atual por isso, é algo que as pessoas assistem e se identificam. Quando acaba a sessão passa essa sensação de “Meu Deus, nada mudou ou estamos voltando a isso?”

    Acho que o filme também ganha outra atualidade no momento em que a Dilma Rousseff é deposta, a gente tem um golpe institucional que acontece, e a gente vê coisas como o medo do comunismo voltando. Coisas que pareciam estar no passado e acabam voltando, essa crise da democracia, tudo isso também é atual.


    AC: Além do trabalho de pesquisa, deve ter sido difícil montar um documentário a partir do recorte de outros filmes. Como nasceu esta proposta de construir um filme usando cenas de outros filmes?

    FERNANDA: A parte da montagem foi bem difícil, mas foi bem legal. Foi uma brincadeira de quebra-cabeça construir essa narrativa junto com o Luiz Cruz, o montador do filme. A ideia já nasceu como um filme de montagem, quando estava fazendo meu mestrado na França. Tive uma aula sobre a reutilização de imagens no cinema experimental e comecei a ver muitos filmes que usavam o trabalho de outras pessoas para ressignificar, para mostrar uma coisa que estava ali e ninguém via. Foi quando resolvi juntar isso com o meu conhecimento de pornochanchadas, que já tinha. Sempre soube que queria fazer um filme de montagem, queria que esses filmes contassem essa história. Não queria impor nada a priori, eu queria rever esses filmes com um olhar histórico e deixar que eles contassem essa história.


    AC: Teve algum filme que você queria ter usado no documentário, mas não pôde por algum motivo?

    FERNANDA: A seleção final era de 30 filmes e temos 27, foram três filmes que não podemos usar por questões de direitos autorais e um por questão de cópia. A gente não conseguiu uma cópia boa e o detentor dos direitos preferiu não usar uma cópia ruim, que é o que a gente tinha. Então, a gente respeitou a vontade do detentor dos direitos.


    AC: Pensei nisso vendo o documentário, se por problemas de deterioração da cópia teve algum filme que não pôde ser incluído.

    FERNANDA: Alguns filmes que estão com má qualidade são cópias que a gente só achou no YouTube, que alguém um dia pegou de um VHS e subiu lá. Decidimos usar porque, para a gente, isso não era um fator excludente. A diferença de qualidade fala muito do estado de conservação destas cópias, tem filmes que estão super bons, que foram restaurados, e outros que mal vemos a imagem na tela do cinema. A gente só não usou um filme que o detentor dos direitos não quis usar a cópia ruim, mas a gente queria usar tudo.

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