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    Cantora transgênero indicada ao Oscar decide boicotar a Academia e critica a premiação: "Vergonha e raiva"
    Por João Vitor Figueira — 25 de fev. de 2016 às 17:27

    "É um sistema de opressão social e poucas oportunidades para pessoas transexuais que foi imposto pelo capitalismo nos Estados Unidos para esmagar nossos sonhos e nosso espírito coletivo."

    Há uma semana, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou a lista de apresentadores e números musicais na cerimônia de 2016 do Oscar.

    Ao alegar que buscavam reduzir a duração do evento, os produtores do evento anunciaram que, ao contrário do que aconteceu em anos anteriores, apenas três das cinco músicas indicadas ao Oscar de melhor canção original serão apresentadas ao vivo: as faixas cantadas por Lady Gaga ("Til It Happens To You", do documentário The Hunting Ground), Sam Smith ("Writing's On The Wall", de 007 Contra Spectre) e The Weekend ("Earned It", de Cinquenta Tons de Cinza).

    Após a exclusão de duas canções, as faixas "Simple Song #3" (do filme Youth) e "Manta Ray" (de A Corrida Contra a Extinção), a cantora Anohni decidiu boicotar a Academia e publicou uma longa carta explicando os seus motivos.

    Conhecida previamente por seus trabalhos na cultuada banda britânica Antony and the Johnsons, Anohni foi a primeira cantora transexual a ser indicada ao Oscar de melhor canção (Angela Morley, outra transexual, já foi indicada previamente duas vezes, mas ela era "apenas" compositora e não performer). Ela compôs, em parceria com J. Ralph, a faixa "Manta Ray", do documentário pró-sustentabilidade A Corrida Contra a Extinção.

    Em sua carta, Anohni diz que se surpreendeu por ter sido indicada e que ficou confusa quando não foi convidada para se apresentar até que percebeu que os "executivos parecem ter escolhido apenas performances de cantores que são comercialmente viáveis". Ela afirmou que se sentiu "degradada" quando passou a ser mencionada apenas como "uma das artistas que foi cortada pela Academia" e ainda mencionou que Dave Grohl, líder da banda Foo Fighters, irá se apresentar mesmo sem ter sido indicado a prêmio algum.

    "Todos me disseram que eu ainda deveria ir à cerimônia, que passar pelo tapete vermelho seria 'bom para a minha carreira'. Noite passada eu tentei me forçar a entrar em um avião para Los Angeles para ir a todos os eventos dos indicados, mas os sentimentos de vergonha e raiva me impediram", contou.

    Ela ainda esclareceu que acha que não foi excluída pela Academia apenas por ser transexual. "Eu não fui convidada porque eu sou relativamente desconhecida nos Estados Unidos, canto uma canção sobre ecocídio e isso e isso pode não ser muito bom para os patrocinadores". Entretanto, ela afirma que sua condição enquanto mulher transexual andrógina foi fundamental para que ela fosse subestimada. "Da mesma maneira que o aquecimento global não é um evento isolado, uma série de eventos foi criada para mim ao longo dos anos para me prejudicar. É um sistema de opressão social e poucas oportunidades para pessoas transexuais que foi imposto pelo capitalismo nos Estados Unidos para esmagar nossos sonhos e nosso espírito coletivo".

    Anohni ainda criticou, de forma contundente, os artistas populares que vão se apresentar na cerimônia do próximo domingo (28). "Eu não serei embalada junto com algumas baladas bem intenciondas manufaturadas e um pouco de peitos e bundas. Não se esqueçam que muitas dessas celebridades são troféus de corporações bilionárias cuja única intenção é te manipular para conseguir seu consentimento para que você lhes dê até o último de seus centavos. Eles são pagos para sapatear enquanto Roma está em chamas."

    Como Antony and the Johnsons, Anohni lançou quatro álbuns, incluindo o elogiado "I Am A Bird Now' (2005), que foi premiado com Mercury Music Prize, maior prêmio da música britânica. Suas canções já foram usadas em filmes como Jogos Vorazes - Em Chamas, Não Estou Lá e V de Vingança.

     

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