A atriz, dançarina e cantora peruano-americana Q'orianka Kilcher entrou com uma ação judicial contra James Cameron e a Disney, acusando-os de usar sua imagem sem permissão durante o processo de criação de Avatar. Segundo a denúncia, quando ela tinha 14 anos e acabara de interpretar Pocahontas em O Novo Mundo (2006), de Terrence Malick, o diretor tirou uma foto dela, extraiu suas características faciais e ordenou que sua equipe artística as utilizasse como referência para criar Neytiri, uma das personagens centrais da saga de ficção científica.
“O que Cameron fez não foi inspiração, foi exploração”, afirmou Arnold P. Peter, do Peter Law Group, principal advogado de Kilcher, em declarações divulgadas pela NBC. “Ele pegou as características faciais e biométricas únicas de uma menina indígena de 14 anos, submeteu-as a um processo de produção industrial e gerou bilhões de dólares em lucros sem pedir permissão nem uma única vez. Isso não é cinema. Isso é roubo”, acrescentou com veemência, levando em conta o sucesso da propriedade intelectual.
Walt Disney Studios
A pergunta é: há alguma prova de tudo isso? De acordo com o documento apresentado a um tribunal distrital dos Estados Unidos, sim. Segundo os denunciantes, Cameron convidou pessoalmente Kilcher para visitar seu escritório. Quando ela compareceu, cerca de uma semana depois, o diretor não estava lá, e um membro de sua equipe entregou-lhe uma cópia emoldurada de um esboço acompanhada de uma nota manuscrita: “Sua beleza foi minha inspiração inicial para Neytiri. Pena que você estava gravando outro filme. Da próxima vez”. Kilcher não deu muita importância ao fato na época — ela achou que se tratava de uma vaga inspiração estética — até que, há alguns meses, se deparou com uma entrevista do veterano cineasta.
Nela, Cameron aparece diante do esboço de Neytiri e aponta diretamente para Kilcher como sua referência: ele identifica a fotografia, descreve suas características e confirma que ela serviu de base para o desenho. Foi então que a atriz compreendeu que aquela nota guardada como lembrança não era um gesto simpático da indústria, mas a ponta visível de um processo sistemático no qual sua imagem, sendo menor de idade, havia sido digitalizada, modelada em três dimensões e distribuída às diferentes equipes de efeitos visuais para que trabalhassem com ela.
Kilcher se sente um pouco traída
New Line/courtesy Everett Collection
A franquia arrecadou cerca de 3 bilhões de dólares apenas com o primeiro filme, dos quais Kilcher não recebeu um centavo sequer. “É profundamente perturbador saber que meu rosto, quando eu era uma menina de 14 anos, foi capturado e utilizado sem meu conhecimento ou consentimento para ajudar a criar um produto comercial que gerou um valor enorme para a Disney e Cameron”, declarou a atriz.
Até o momento da redação desta notícia, não tivemos conhecimento de alguma resposta por parte da Disney ou de Cameron. Kilcher reivindica indenização por danos compensatórios e punitivos, a devolução dos lucros decorrentes do uso de sua imagem, medidas cautelares e uma retificação pública. Por enquanto, não há informações sobre o valor solicitado.
Avatar e Avatar: O Caminho da Água estão disponíveis no Disney+