Stephen King nem sempre foi um queridinho da crítica, mas não há dúvida de que ele é um dos escritores mais aclamados do terror. No entanto, o poder de King não reside apenas nisso. O romancista possui os ingredientes para cativar os leitores, e os números comprovam: seus mais de 60 romances venderam centenas de milhões de cópias em todo o mundo e foram adaptados para o cinema e a televisão dezenas de vezes.
Mas o que há em seu trabalho que atrai um público tão vasto? O próprio King descreve seu trabalho como "o equivalente literário de um Big Mac com batatas fritas".
A maldição (ou bênção) da popularidade
Talvez o distanciamento de King em relação à literatura elitista seja um dos principais fatores que o ajudaram a se tornar um favorito do público. Como a BBC descreveu, "King consegue simplificar, mas o faz sem desrespeitar seus personagens ou leitores. Talvez ele escreva demais, mas suas melhores obras perduram. Talvez ele seja, às vezes, juvenil, mas também muito gótico."
Olivia Wong/Getty Images
Protagonista de sua própria história de terror
Se havia alguém destinado a se tornar uma figura fundamental na literatura de terror, esse alguém era Stephen King. O amor de sua mãe por tudo que fosse "aterrorizante" e "assustador" o apresentou ao gênero, e ele começou a buscar o terror no cinema muito cedo: "Quando eu era criança, ia assistir a todos os filmes de terror que conseguia. Às vezes, meu irmão ia comigo. Meu irmão era dois anos mais velho e cobria o rosto com o chapéu. Eu nunca cobria o meu."
Mas o que mais o marcou foi uma tragédia horrível que lhe aconteceu quando criança, como ele relatou em seu livro de não ficção, Danse Macabre: "Aconteceu quando eu tinha apenas quatro anos. Segundo minha mãe, eu tinha ido brincar na casa de um vizinho – ao lado de uma linha férrea. Uma hora depois de sair, voltei, segundo ela, 'branco como um fantasma'. Não consegui falar pelo resto do dia. Não consegui dizer a ela por que não a esperei me buscar ou por que não a chamei para voltar para casa. [...] Acontece que o menino com quem eu estava brincando foi atropelado por um trem enquanto brincávamos ou atravessávamos os trilhos... Minha mãe nunca soube se eu estava perto dele quando aconteceu. Não me lembro do incidente, apenas do que me contaram depois", explicou King.
Warner Bros.
Muitos críticos sugerem que foi assim que a imaginação sombria do romancista despertou. Embora a influência desse evento não seja totalmente clara, o que é certo é que, tendo sido uma criança desajeitada, ostracizada pelas outras crianças ao seu redor, ele foi forçado a confrontar muitas emoções, e a morte sempre foi uma de suas obsessões. "Eu estava absolutamente convencido de que não viveria até os vinte anos. Eu me via caminhando para casa à noite, no escuro, em uma rua deserta, e alguém ou alguma coisa saltaria dos arbustos e seria o meu fim. A morte como conceito e as pessoas que a infligem me intrigavam."
O outro evento marcante que influenciou sua obra foi o acidente que sofreu em 1999. Stephen caminhava perto de uma rodovia estadual no Maine quando um caminhoneiro perdeu o controle e o atropelou. Ele permaneceu consciente durante todo o acidente e sofreu múltiplas fraturas na perna direita – os médicos chegaram a considerar a amputação –, um pulmão direito colapsado, uma fratura no quadril e um corte no couro cabeludo. King reconhece que o acidente não alterou seu estilo de escrita, mas lhe proporcionou novas experiências que ele utilizou em seus romances subsequentes.
O verdadeiro terror reside no cotidiano
Se as histórias de Stephen King conseguem perturbar até os mais estoicos, é porque o terror surge das cenas mais banais. O escritor é um especialista em medos terrenos, ou seja, nas ansiedades mais profundas do ser humano. Em Cemitério Maldito, o foco do terror é a morte de entes queridos e como cada pessoa vivencia o luto de maneira diferente.
CBS
O site The Conversation foi além, analisando em profundidade os temas recorrentes em sua obra: a perda da inocência, o abuso e a batalha entre o bem e o mal. "Uma das grandes habilidades de King como autor é a capacidade de compreender os medos de seus leitores e traduzi-los em ficção. Do abuso à solidão da pobreza ou da fome, King se conecta com seus leitores e lhes oferece uma sensação de esperança: pessoas como eles, parece dizer ele, podem superar qualquer provação."
A complexidade de seus personagens
Ele consegue fazer com que os leitores se identifiquem com os protagonistas do romance quase desde o início. Como observa Karen Woodward, um dos lemas do escritor é garantir que os leitores consigam "se apegar [aos personagens] desde o início". Como qualquer romancista, ele trabalha extensivamente nesse aspecto em sua escrita e compartilhou seu método de trabalho tanto em entrevistas quanto no livro Sobre a Escrita.
"Na vida real, cada um de nós se vê como o personagem principal, o protagonista, o chefão; a câmera está focada em nós. Se você conseguir transpor essa atitude para a ficção, poderá achar mais fácil criar personagens brilhantes e mais difícil criar os objetos unidimensionais tão comuns na cultura pop", explica, em uma de suas muitas dicas para adicionar complexidade aos protagonistas. Para ele, é fácil construir um bom personagem se nos inspirarmos diretamente na vida real: "o vilão" ou "o melhor amigo".
Em resumo, podemos observar o cuidado com que ele constrói seus personagens, sua capacidade de atingir os medos mais universais e reconhecer que seu estilo simples é uma verdadeira vantagem, mas é a combinação de tudo isso que faz de Stephen King um dos melhores escritores de terror e que torna suas histórias um enorme sucesso quando adaptadas para o cinema.