A diretora Emerald Fennell levou o cartão de "livremente baseado em" bastante a sério em "O Morro dos Ventos Uivantes". Lançando mão das aspas no título, a cineasta aproveitou o máximo de liberdade criativa possível para desenvolver sua própria iteração do clássico gótico de 1847, incluindo o final da obra.
Em diversas entrevistas, Emerald defendeu que sempre quis fazer um filme onde pudesse traduzir para a tela a experiência que vivenciou quando leu o livro de Emily Brontë na adolescência. E, para elevar o conceito de "fanfiction" para uma proporção hollywoodiana de milhões de dólares, ela ainda "queria incluir coisas que nunca aconteceram", explicou em entevista ao Fandango.
Além da controversa escalação de Jacob Elordi e Margot Robbie como Heathcliff e Catherine, a diretora escolheu concentrar o recorte de seu roteiro somente sobre o casal protagonista, mudando o final e a mensagem dele. A partir dessa decisão, o último ato é cortado e a história termina muito antes do que no original.
O filme de "O Morro dos Ventos Uivantes" termina junto com a trajetória de Catherine Earnshaw
Atenção! A partir deste ponto, a matéria contém spoilers do livro e do filme de "O Morro dos Ventos Uivantes".
Warner Bros. Pictures
No filme, a Catherine de Margot Robbie morre sem deixar filhos, deixando Heathcliff com um luto incomparável e acaba assim. O livro de Brontë segue por mais de uma década e mostra como a dor de Heathcliff após a morte da amada alimentou sua ira e sede de vingaça.
No texto original, Catherine morre durante o parto da filha, a pequena Cathy, e a partir daí a trama ganha uma nova dimensão. Isabella Linton tem um filho com o irmão de Catherine, Hindley, que não aparece no longa-metragem. O menino Heaton vira o recipiente do remorso de Heathcliff, sendo mal-tratado e deixado de lado assim como ele foi na infância.
Com o passar dos anos, Cathy e Heaton se aproximam e criam um laço de afeto muito mais tranquilo do que o da mãe dela. Heathcliff eventualmente morre e a "maldição" do luto junto com ele, mostrando que é possível quebrar ciclos viciosos de violência e dor.
O cerne da história de O Morro dos Ventos Uivantes está nas consequências que a relação igualmente apaixonada e obsessiva de Heathcliff e Cathy depositam sobre todos, até mesmo transcendendo gerações. Porém, com o último ato descartado, o impacto reside em ser um amor trágico ao invés de falar sobre um ciclo de vingança e melancolia que perdura e também se transforma.
"O Morro dos Ventos Uivantes" já está em cartaz nos cinemas brasileiros.