Clint Eastwood quebrou uma regra básica de seus filmes neste faroeste: Uma obra-prima que se tornou um de seus melhores filmes
Giovanni Rodrigues
Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).

O lendário ator revelou o passado de seu personagem pela primeira vez, criando uma das performances mais profundas de sua carreira.

Clint Eastwood trabalhou em muitos faroestes icônicos, mas raramente seus personagens têm um passado claramente definido. No entanto, houve um filme com o qual ele quebrou esse padrão, dando origem a uma das melhores interpretações de sua carreira.

Depois de revitalizar o gênero nos anos 80 com O Cavaleiro Solitário, Eastwood encontrou o roteiro de David Webb Peoples e nos ofereceu um retrato profundo e complexo de Will Munny em Os Imperdoáveis - que, por sinal, está disponível na HBO.

Nele, viu a oportunidade de fazer o faroeste definitivo, uma desconstrução do Velho Oeste que também funcionaria como declaração pessoal sobre o gênero. E foi um grande acerto com o qual ganhou até quatro Oscars, incluindo o de Melhor Diretor para Eastwood. Além disso, continua sendo considerado um dos melhores faroestes da história.

Os Imperdoáveis
Os Imperdoáveis
Data de lançamento 1 de setembro de 1992 | 2h 11min
Criador(es): Clint Eastwood
Com Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman
Usuários
4,4
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Desconstruindo o mito

Diferente de outros personagens de Clint Eastwood como o Homem Sem Nome ou o Pregador de O Cavaleiro Solitário, Munny tem um passado muito mais sólido. Antes de se aposentar da vida violenta, era um bandido e assassino impiedoso. No entanto, o amor por sua falecida esposa o transforma, abandonando as armas e o álcool para criar seus filhos e se tornar fazendeiro. O filme explora a culpa que ele sente e seu temor de ter que pagar o preço por suas ações, e é em parte o que o torna o faroeste mais tridimensional que Eastwood já fez.

Normalmente, Eastwood costumava eliminar as histórias de fundo de seus personagens para manter o mistério. Em Por um Punhado de Dólares, por exemplo, cortou diálogos e subtramas, deixando que o personagem fosse um enigma, e o mesmo aconteceu em 'Sem Destino', onde a relação do protagonista com um marshal assassinado é ambígua, gerando tensão sem explicações excessivas.

Warner Bros. / Malpaso Productions

O próprio Eastwood explicou anos depois em uma entrevista à Rolling Stone cujas declarações são citadas no ScreenRant: "O roteiro era muito expositivo. Era uma história escandalosa, e pensei que o personagem deveria ter muito mais mistério. Eu repetia para Sergio [Leone]: 'Em um filme de primeira, você deixa o público pensar junto com o filme; em um de segunda, você explica tudo'. Essa era minha forma de convencer".

Por isso, em Os Imperdoáveis, optou por respeitar o roteiro de Peoples, mostrando as motivações de Munny sem despojá-las de seu peso dramático e deixando que funcione também como um faroeste que desconstrói os mitos clássicos do gênero. Munny é um idoso que não deseja voltar a matar, mas que se vê obrigado a fazê-lo pelas circunstâncias, e não há heróis nem vilões como tal. Além disso, o xerife Little Bill (Gene Hackman) governa com violência e intimidação, e os tiroteios que vemos são caóticos e trágicos, distantes do mito do pistoleiro solitário.

Em resumo, é um filme que mostra um mundo cruel e impiedoso, onde a violência é atroz e devastadora, e os atos heroicos não existem. E graças a essa abordagem realista e à profundidade do personagem de Munny, Eastwood não apenas desafia os clichês do faroeste, mas também oferece uma de suas interpretações mais memoráveis e humanas, deixando uma marca indelével no gênero.

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