Stephen King já nos ensinou que o melhor terror se constrói sobre um bom drama, e os irmãos Phillipou seguiram seu caminho. Os gêmeos australianos tomaram a rota do emocional desde seu primeiro longa-metragem, Fale Comigo, e agora voltaram a fazê-lo com um rolo compressor chamado Faça Ela Voltar. Sem meios-termos. É absolutamente devastador. Dura menos de duas horas, mas na metade do filme você já terá chegado ao seu ponto máximo de sofrimento.
Para os fãs de terror, isso é um presente cinematográfico. Existem poucos filmes do gênero que oferecem medo de verdade, daquele que quase faz você chorar de intensidade, mas Faça Ela Voltar é exatamente isso. Os cineastas escreveram um bom drama sobre luto e perda, e essa base, ancorada na verdade, permitiu-lhes construir um terror tão terreno que te arrasa. Como diz a atriz Sally Hawkins, o roteiro era tão real que não parecia terror, mas dói como há muito tempo não via no cinema.
O terror dos Philippou não se parece com nada que você tenha visto antes porque eles não guardam nada. Não têm piedade dos espectadores, tão acostumados como estamos a que os diretores nos deem, pelo menos, um "final feliz" com o qual podemos respirar aliviados. Aqui há pouco espaço para sair e tomar ar.
Assim como em Fale Comigo, o filme que os colocou no radar como novos mestres do horror, Faça Ela Voltar se baseia em tragédias familiares. Aqui, meio-irmãos que ficaram órfãos acabam na casa de uma mãe adotiva que tem fantasmas demais do passado para se encarregar de dois adolescentes sem pais.
Sony Pictures
Os próprios Phillipou reconhecem em uma entrevista ao site espanhol SensaCine que os limites são impostos pela produtora. O texto que colocam no roteiro costuma ser muito mais extremo do que se vê na tela mais tarde, mas são cortados pelo estúdio para que o filme não se torne um espetáculo sangrento vazio. Cada cena explícita está ligada ao desenvolvimento dos protagonistas na tela. Aqui não há impacto pelo mero fato de surpreender o espectador.
Ainda assim, as sequências violentas são tremendas. Em Faça Ela Voltar existe um terror físico brutal que não é adequado para estômagos sensíveis. Não entrarei em detalhes sobre essas imagens porque estragaria o filme, mas o departamento de efeitos especiais fez um trabalho que merece um Oscar. É quase impossível descobrir onde está o truque da maquiagem e das próteses.
Impressionante, além disso, a atuação de Sally Hawkins. Estamos acostumados a vê-la em papéis mais familiares, em um registro mais inocente e amável, mas em Faça Ela Voltar é o lado oposto do que nos tem acostumado. Por trás desse rosto de boa menina se esconde um abismo de dor e desespero. Possivelmente seja uma das melhores atuações de sua filmografia. Hawkins merece uma menção à parte, mas o resto do jovem elenco também oferece uma interpretação sobressalente. Desde o jovem Jonah Wren Phillips, que já se tornou um ícone do cinema de terror com esses olhos sangrentos e essa boca deformada, até Sora Wong e Billy Barratt, que interpretam os meio-irmãos de uma maneira muito terna e comovente.
Talvez Faça Ela Voltar não seja do gosto de todos. Talvez haja quem veja essa violência tão explícita como uma maneira de chamar a atenção do público, mas o filme possui uma profundidade emocional muito bem construída que o transforma em uma das histórias mais dilacerantes que este gênero nos deu nos últimos anos. Com este filme, Danny e Michael Phillipou se tornam os novos reis do terror. E espero que seja assim por muitos anos.