As salas de cinema entraram em uma crise inevitável durante a pandemia de coronavírus. Isso acelerou certas mudanças, como o fato de os filmes demorarem muito menos tempo para poderem ser vistos em casa. Agora, a maior rede de cinemas do mundo acredita que a solução para que as pessoas voltem a elas tanto quanto antes está em mudar precisamente isso.
Qual é a proposta? Adam Aron, um dos chefões da AMC Entertainment, revelou ao Deadline que se encontra em pleno processo de negociações com as seis majors de Hollywood com o objetivo de impor um período mínimo de 45 dias antes que os filmes possam chegar ao mercado digital ou em streaming. Ele mesmo defende que "como indústria, estamos deixando dinheiro na mesa ao não cumprir o prazo de 45 dias".
Atualmente, a Disney é a única que chega a esse prazo, e até o supera, pois tem uma janela nos cinemas de 60 dias, enquanto o resto oscila entre 18 e 36 dias. Aron destaca ainda que "a Disney tem sido um estúdio muito bem-sucedido" e insiste que, no mínimo, devem ser 45 dias:
"Até agora, iniciamos conversas com quase todos os grandes estúdios - ainda não chegamos a todos - no sentido de que, como indústria, temos que consertar isso coletivamente, e temos que restabelecer pelo menos um prazo de 45 dias, e depois podemos falar se deveriam ser mais de 45 dias. Mas não podem ser 25 dias. Não podem ser 28 dias, certo? Não pode ser 32 dias, porque está roubando dos cinemas, dos cinéfilos..."
AMC Theatres
A AMC não está sozinha. A princípio, pensaríamos que as majors têm todo o poder de negociação para impor suas condições, mas que por trás desta iniciativa esteja a AMC não é uma coincidência. Isso porque se trata da maior rede de exibição tanto nos Estados Unidos quanto na Europa e em todo o mundo, com mais de 900 cinemas e 10 mil salas espalhadas por todo o planeta. Qualquer acordo que possa haver também passa por eles.
Além disso, a AMC não está sozinha, pois Eduardo Acuña, diretor geral da Regal Cineworld, a segunda maior rede de cinemas dos Estados Unidos e também com presença mundial, apoia Aron: "Acho que finalmente chegamos a um ponto no setor em que podemos dar um maior impulso à janela de 45 dias". Michal O'Leary da Cinema United também defendeu o mesmo recentemente:
"Para que todos os filmes lançados em salas tenham sucesso, é essencial que exista um período de exclusividade claro e coerente, respaldado por um marketing significativo em escala nacional, tanto por parte da distribuição quanto da exibição. É a base sobre a qual se assenta nossa prosperidade coletiva".
O'Leary também aponta que "uma parte importante da população ficará em casa e esperará que o transmitam pela televisão, e a indústria cinematográfica não pode se permitir a perda de uma porcentagem de espectadores que costumavam ir às salas quando havia um prazo de 74 dias".
Disney
Qual é a posição dos estúdios? Aron garante que três estúdios já aceitaram voltar à janela de 45 dias, mas sem querer especificar quais, embora obviamente a Disney seja um deles. A última edição da CinemaCon nos dá algumas pistas a respeito, como que a Sony parece propensa a isso, mas a Universal nem tanto.
Por exemplo, Tom Rothman da Sony garantiu no painel que o estúdio realizou na CinemaCon que "o custo e as janelas podem jogar a nosso favor ou contra nós. O setor do cinema deve ser inteligente em ambos os aspectos. Deixo claro que a Sony trabalhará com vocês em ambos os aspectos". Uma clara posição de abertura ao pedido das salas.
No entanto, Peter Levinsohn da NBCUniversal Entertainment & Studios mostrou uma postura menos dada a acordos globais, já que os ajustes que o estúdio fez nos últimos anos no que se refere às janelas de distribuição "nos tornou mais rentáveis, sobretudo entre os filmes pequenos e médios" e que é preciso considerar a realidade de que os espectadores "não vão ver todos os filmes nas salas".
Sala Dolby Cinema Cinesa Barcelona
Condenados a se entender. Há um detalhe chave nas declarações de Levinsohn que não convém ignorar: essa nova estratégia não funcionou tão bem com as superproduções. Aí é cada vez mais difícil superar a barreira dos 1 bilhão de arrecadação, o que, unido aos altos custos, faz com que seja cada vez mais comum que haja grandes fracassos de bilheteria.
É aí que um esclarecimento final de Aron é especialmente revelador: "Se os estúdios de Hollywood querem que as salas de cinema continuem existindo para as grandes superproduções que querem lançar, então há um ecossistema que precisa ser apoiado para que haja receita suficiente fluindo através do sistema teatral, de modo que o sistema teatral seja saudável".
Os cinemas não podem existir somente para os blockbusters, porque além de não existirem garantias de que terão sucesso - bem recente temos o caso de Branca de Neve - se você mudar os hábitos de consumo dos espectadores dessa forma, pode simplesmente condenar as salas como algo massivo ao seu desaparecimento.