Muito mais do que prestígio entre o público, os críticos e a repercussão em festivais internacionais – incluindo as indicações ao Oscar 2025 –, o impacto do filme de Walter Salles, baseado nas memórias de Marcelo Rubens Paiva, tem se mostrado de extrema importância para além das salas de cinema.
Isso porque a investigação sobre o assassinato do ex-deputado Rubens Paiva foi reaberta pouco antes do lançamento do longa. Nos últimos meses, a repercussão da obra impulsionou ainda mais o debate sobre o caso, que segue sem conclusão há mais de 45 anos, mas voltou a receber atenção do Supremo Tribunal Federal (STF).
Antes de Fernanda Torres, 4 atores brasileiros foram indicados ao Globo de Ouro e perderam – incluindo Fernanda MontenegroAinda Estou Aqui retrata um fragmento do impacto da ditadura militar na vida da família Paiva – uma das centenas que tiveram suas rotinas destruídas pelo golpe de 1964. Na história, Eunice Paiva (Fernanda Torres) busca justiça após o desaparecimento de seu marido, Rubens Paiva (Selton Mello), sequestrado por agentes do governo. A narrativa acompanha diferentes fases da vida da família, revelando a luta solitária que enfrentaram ao longo dos anos.
O que está acontecendo no caso de Rubens Paiva?
Sony Pictures
Rubens Paiva era engenheiro civil e deputado federal, mas teve seu mandato cassado após o golpe militar de 1964, tornando-se um símbolo de resistência e luta por justiça no Brasil. Em 1971, foi preso, torturado e morto nas instalações do DOI-CODI, unidade de repressão no Rio de Janeiro.
Como mostrado no filme, Eunice Paiva só conseguiu a confirmação oficial da morte do marido 25 anos depois. Somente anos depois, durante o governo de Dilma Rousseff, a investigação do assassinato foi reaberta com o auxílio da Comissão Nacional da Verdade, que apurou crimes cometidos contra presos políticos durante a ditadura.
A família do ex-deputado ainda busca na Justiça respostas sobre o assassinato, que segue sem conclusão e sem que os culpados tenham sido responsabilizados. Para se ter uma noção da demora, três dos cinco militares acusados pelo crime já faleceram antes de serem julgados.
Ainda Estou Aqui esconde uma parte muito importante da família Paiva durante a Ditadura Militar Brasileira: Uma cena poderia fazer filme vencer o OscarO principal obstáculo para a responsabilização dos envolvidos é a interpretação da Lei da Anistia, decretada ainda durante a ditadura. A legislação concedeu perdão geral para crimes cometidos no período, permitindo, por um lado, o retorno de exilados e a libertação de presos políticos, mas, por outro, se tornou um obstáculo para as famílias que buscam justiça e punição para os torturadores.
Em entrevista à BBC, Marcelo Rubens Paiva falou sobre a importância de sua obra, do filme e do impacto da reabertura das investigações:
“O nosso papel como cineasta, escritor, roteirista, pessoa das artes, é falar aquilo que os vencidos não conseguem falar”, comentou. “Mostrar, denunciar, apontar... é muito complicado em um país que sofreu um processo de ditadura tão longo e que, na redemocratização, fez um pacto sinistro entre a sociedade civil e os torturadores”, completou.
“Não são personagens, são pessoas”: Fernanda Torres e Selton Mello relembram emoção de Ainda Estou Aqui (Entrevista)O caso de Rubens Paiva chegou a um momento decisivo no STF. O ministro Alexandre de Moraes é o relator do julgamento, que pode ser impactado pela ADPF 320, uma ação que questiona a aplicação da Lei da Anistia com base em uma sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Paralelamente, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) segue com as investigações reabertas em abril de 2024.
Segundo informações do portal de notícias da Globo, G1, o próximo passo é a formação de um grupo de trabalho para definir prazos e coletar novas provas. Ao final das apurações, um relatório será divulgado e poderá levar o caso ao Ministério Público ou à Polícia Federal. A decisão do STF será fundamental para determinar se os responsáveis ainda podem ser julgados, marcando um momento crucial para a justiça dos crimes cometidos durante a ditadura no Brasil.
O filme está em exibição nos cinemas.