Lincoln , da mesma maneira que outras recentes cinebiografias (Sete Dias com Marilyn, Hictchcock), não pretende contar a vida do retratado, mas sim fixar-se em um momento-chave dela, no caso, o empenho do presidente americano para ver aprovada a Emenda que garantiu erradicar a escravidão nos Estados Unidos.
Steven Spielberg há muito tempo vem oscilando entre gêneros e abordagens. Se ficou famoso junto ao grande público por filmes que eram puro entretenimento - como a série Indiana Jones, E.T., Parque dos Dinossauros - também gosta de mostrar que é um diretor sério, produzindo filmes como A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan. Às vezes, ele cede à tentação do melodrama - O Império do Sol, Cavalo de Guerra - por outras, faz filmes frios e cerebrais - Munique.
Neste Lincoln, Spielberg resolveu adaptar para o cinema o polêmico livro que defendia a tese que a abolição da escravatura nos Estados Unidos exigiu do presidente Abraham Lincoln seguir a máxima "os fins justificam os meios". E sua abordagem, embora contando com um excelente material, um ótimo roteiro e um elenco afinadíssimo, ficou no nível de um filme ou minissérie da HBO. Não que isto seja de forma alguma um demérito, porque faz tempo que a rede americana de TV por assinatura tem produzido material excelente, na maioria das vezes bem superior ao que Hollywood faz ultimamente. Mas do aclamado diretor americano, era esperado algo um pouco mais excitante, ou que ao menos ele colocasse um pouco mais de linguagem cinematográfica no filme, que parece o tempo todo apoiar-se somente nos diálogos e interpretações.
Daniel Day-Lewis é um caso à parte no filme. Ele é um dos principais motivos para se assistir o filme, pois não parece que está interpretando Lincoln, mas sim que ele é Lincoln. Depois desse filme, na memória do espectador, o presidente americano terá sempre a voz, os gestos e a postura que ele emprestou à sua interpretação. O resto do elenco, com destaque especial para Sally Field - como a primeira-dama - e Tommy Lee-Jones - como Thaddeus Stevens - é responsável por aquela magia do cinema que nos faz mergulhar na história, esquecendo que é apenas um filme. Dentre tantos coadjuvantes excelentes, não se pode deixar de destacar a participação de um James Spader quase irreconhecível no papel de Bilbo - talvez sua melhor interpretação até hoje.
A produção do filme é excelente, é claro - como é sempre de se esperar de um filme com a assinatura de Spielberg e Kathleen Kennedy. Cenários, figurinos, maquiagem, trilha sonora, tudo é orquestrado para nos fazer sentir na época retratada, com grande riqueza de detalhes. A fotografia do habitual colaborador de Spielberg, o polonês Janusz Kamininski, optou por tons pastéis, criando uma paleta de cores suave e com poucos contrastes - um primor de fotografia.
Mas talvez a maior colaboração do filme seja mesmo a intenção primeira do livro em que se baseia, que é desmistificar a história e um presidente quase endeusado pelo povo americano, revelando os bastidores nada nobres de um grande momento histórico dos Estados Unidos. As artimanhas para conseguir a aprovação da 13ª Emenda, retratadas pelo filme, fizeram muita gente no Brasil encontrar paralelos com o nosso recente "mensalão". Talvez esta curiosa e inusitada observação justifique o sucesso inesperado que o filme alcançou por aqui - onde já superou a marca dos 700.000 espectadores - fato raro para um filme histórico, gênero pouco apreciado pelo público em geral. Nos Estados Unidos, seja pelo nome de Spielberg, seja pelo marketing da boa recepção crítica, Lincoln acabou alcançando a melhor bilheteria dentre os 9 indicados ao Oscar de melhor filme este ano, superando os populares As Aventuras de Pi, Django Livre e O Lado Bom da Vida.