No filme intitulado "Cinema, Aspirinas e Urubus", do cineasta pernambucano Marcelo Gomes, a história se passa no sertão nordestino, no ano de 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. Johann (Peter Ketnath) é um alemão que fugiu do conflito e percorre o interior do Brasil vendendo aspirinas. Ele dirige um caminhão pela região e utiliza pequenas exibições cinematográficas para divulgar o remédio, encantando a população local com as imagens em movimento. Durante sua jornada, Johann encontra Ranulpho (João Miguel), um homem nordestino que busca escapar da seca e da pobreza. Sem perspectivas, ele aceita viajar como ajudante do alemão. Apesar das diferenças culturais e linguísticas, os dois desenvolvem uma amizade marcada pelo contraste entre o estrangeiro, que enxerga o Brasil como um refúgio, e o sertanejo, que deseja escapar da realidade miserável em que vive.
Conforme atravessam o sertão, Ranulpho se frustra ao perceber que Johann, mesmo sendo um forasteiro, tem mais oportunidades do que ele. O alemão, por sua vez, vê no Brasil uma chance de recomeçar, longe da guerra que assola sua terra natal. Essa diferença de perspectiva fica evidente quando Johann, ao ser questionado sobre a miséria que encontravam durante a viagem, responde com a frase: “pelo menos não cai bomba”, revelando outra forma de enxergar a vida no sertão brasileiro. A jornada dos protagonistas é pontuada por encontros com pessoas simples, que evidenciam as dificuldades e a realidade da região, sem recorrer aestereótipos. No entanto, a guerra chega ao Brasil, e o governo determina que imigrantes alemães sejam deportados ou alistados. Johann é forçado a abandonar sua vida como vendedor e fugir mais uma vez.
No desfecho, os caminhos dos protagonistas se separam. Johann entrega o caminhão a Ranulpho, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de futuro. O sertanejo, antes sem direção, agora tem um meio para seguir em frente. O filme se encerra de maneira poética, refletindo sobre a fuga, o destino e a esperança em meio à adversidade.
Lançado em 2005, o longa se destaca no cenário do cinema brasileiro e internacional contemporâneo. Ambientado no sertão paraibano da década de 1940, a obra acompanha a jornada de dois personagens cujas trajetórias se cruzam, permitindo um diálogo entre o local e o universal. O filme dialoga com a tradição do "road movie" e com a herança do Cinema Novo, mas adota uma abordagem sincera, intimista e humanista da realidade retratada.
A narrativa se constrói em torno do encontro entre Johann e Ranulpho, personagens de origens distintas que compartilham um momento de transição. Baseia-se na perspectiva americana do "buddy movie", trazendo o antagonismo focado em dois personagens principais e quase exclusivos do enredo. A relação entre os dois evolui de forma sutil, explorando temas como deslocamento, identidade e as contradições entre o local e o global. Diferente da visão política do Cinema Novo, o sertão aqui é retratado como um espaço de encontros e descobertas pessoais. Marcelo Gomes utiliza uma cinematografia naturalista para capturar a aridez e a beleza do sertão. A fotografia, com tons secos e luz intensa, remete às obras de Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, evocando um realismo visual que contribui para a imersão do espectador. O uso da câmera na mão e a direção minimalista conferem ao filme um tom documental, reforçando a autenticidade da narrativa. As atuações de Peter Ketnath (Johann) e João Miguel (Ranulpho) são marcadas por naturalidade e sobriedade, tornando seus personagens críveis e humanos.
O filme ressignifica o "road movie", um gênero tradicionalmente associado ao cinema americano, inserindo essa estrutura na realidade brasileira. A estrada não é apenas um espaço de fuga, mas de transformação. Além disso, Cinema, Aspirinas
e Urubus se inserem no Cinema da Retomada, movimento que, segundo o crítico Adalberto Müller, desloca a ênfase dos conflitos sociais para as relações humanas e afetivas. Dessa forma, o filme rompe com a tradição alegórica do Cinema Novo e propõe uma abordagem mais subjetiva.
"Cinema, Aspirinas e Urubus" é uma obra sensível e contemplativa que
oferece uma visão diferenciada do sertão brasileiro. Sua força reside na simplicidade com que constrói a relação entre os personagens e na maneira como insere questões de identidade e globalização sem recorrer a discursos panfletários ou equilibrar influências do Cinema Novo e do road movie, Marcelo Gomes entrega um filme ao mesmo tempo poético e realista, recomendado para aqueles que apreciam narrativas introspectivas e reflexivas, que fogem do convencional e exploram a experiência humana em suas múltiplas facetas.