E não é que a questão racial está de volta às telonas, justamente quando o episódio Grafite ainda domina os noticiários tupiniquins. O queridinho das adolescentes, Ashton Kutcher, interpreta Simon Green, funcionário de uma companhia de Wall Street, que namora com Theresa (Zoe Saldaña). Atentem para o detalhe: ela é negra, ele é branco. O tumulto atingirá o seu ápice quando Theresa apresenta Simon para os seus pais no evento em que eles estão prestes a renovar os laços de matrimônio, após 25 anos de vida em comum. Marilyn (Judith Scott), a mãe de Theresa, aceita o namoro inter-racial. O mesmo não pode ser dito de Percy Jones (Bernie Mac), o pai da futura noiva. Ele almejava alguém que praticasse esporte, especialmente basquete ou futebol americano, fosse médico, conhecesse a família Cosby e a do falecido reverendo Martin Luther King, e, principalmente, fosse negro, se possível Denzel Washington. Nos primeiros diálogos com Percy, Simon sentiu-se obrigado a mentir ao dizer que havia participado de corrida de automóveis Nascar, que os americanos tanto adoram. Somando-se a isso o fato de Percy ter pego os dois jovens pombinhos se agarrando no quarto da filha, a decisão foi de levar Simon para uma hotel próximo. Ao levar o futuro genro para algum hotel da cidade de Nova Jersey, Percy liga o rádio e repare nas músicas que estavam tocando: "Ebony and ivory", de Stevie Wonder e Paul McCartney; "Walk on the wild side", de Lou Reed, músicas que fazem mençãò à questão racial. Igualmente engraçado é o jantar familiar em que Simon é forçado a contar piadas de negros. É evidente que a relação entre Percy e Simon, após um grande período de de inépcia, se normalizará no final. O mérito do diretor Kevin Sullivan é atualizar o filme "ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR", aquele que notabilizou o ator negro Sidney Poitier, que encontra-se com a família de sua noiva branca. A opção é nítida pela comédia romântica, não pelo discurso político-racial característico de um Spike Lee. E o ator Bernie Mac dá conta do recado. O mesmo não pode se dizer de Ashton Kutcher, que filme após filme, parece só conseguir interpretar a si mesmo. A comparação óbvia entre "A FAMÍLIA DA NOIVA" e "ENTRANDO NUMA FRIA", recentemente exibido, deixa o primeiro numa condição de inferioridade. Vale como uma sessão da tarde descompromissada.