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    Homem Mau Dorme Bem
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    Eduardo Kaneco
    Eduardo Kaneco

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    5,0
    Enviada em 22 de novembro de 2016
    O genial ataque de Kurosawa ao capitalismo

    “Homem Mau Dorme Bem” destaca o talento do diretor Akira Kurosawa no trabalho do formato de tela scope e na sua visão pessimista a respeito do Japão que foi reconstruído após a 2ª Guerra Mundial apoiado numa ideologia capitalista.

    O filme começa com uma longa sequência magistral, quando aproveita a cerimônia do casamento de Koichi Nishi (Toshiro Mifume, de “Yojimbo”, ator preferido do diretor) com Yoshiko (Kyoko Kagawa) para fins narrativos. Ele, um funcionário da Public Corporation, uma mega empresa cujo vice-presidente Iwabuchi (Masayuki Mori) é o pai da noiva. Durante essas cenas, Kurosawa aproveita o formato alongado da tela, posicionando minuciosamente os atores e figurantes como evidência da formalidade do evento. As mesas onde os convidados se sentam estão posicionadas na perpendicular, retratando-os como sendo em grande número e distantes dos noivos.

    No hall, os recepcionistas se enfileiram nos dois lados do quadro, reservando o espaço do meio para o elevador. Este, ao se abrir, introduz alguns dos personagens da estória, mas também um grupo barulhento de fotógrafos e repórteres que se agitam para registrar alguma notícia sobre os executivos da poderosa organização. Eles terão papel fundamental nessa parte do filme, pois através de suas conversas descobrimos detalhes da trama – uma astuta alternativa ao uso de um narrador.

    A noiva Yoshiko surpreende os jornalistas por ser manca, reforçando os boatos de que Koichi quer usar o casamento como escada para sua ascensão profissional na empresa. Por isso, durante os discursos, o irmão dela, Tatsuo (Tatsuya Mihashi), defende que acredita que o interesse de Koichi é genuíno. Mas outro problema, ainda maior, cerca o evento. A Public Corporation está sendo investigada por favorecer um fornecedor em uma licitação, usando assim dinheiro público para pagar mais caro pelo serviço. Como em “Cidadão Kane” (1940), uma montagem com capas de jornais revela o escândalo.

    Esse primeiro ato se encerra com a chegada de um bolo surpresa, confeccionado como o prédio da Public Corporation, e com um sinistro detalhe: uma bandeira espetada na janela de onde um funcionário saltou para se suicidar.

    Depois disso, conhecemos de perto os personagens. Iwabuchi mostra ser impiedoso com aqueles que atrapalham seus planos de enriquecimento ilícito. Para isso, conta com a ajuda de Moriyama (Takashi Shimura, de “Viver”, outro ator constante na obra de Kurosawa), seu braço direito e diretor da empresa. Ambos utilizam de maneira ardilosa a tradição japonesa, e em lugar de praticarem assassinatos, preferem induzir ao suicídio. Em um momento derradeiro, Iwabuchi prefere atender o presidente da empresa do que seus filhos.

    Koichi também é implacável. Seus planos são revelados aos poucos e vão se encaixando perfeitamente na trama. Ele executa sua estratégia tão calculadamente que está sempre a assobiar uma melodia, que se torna sua marca registrada. Essa música alegre reaparecerá de forma inusitada durante uma cena cruel de sequestro. Quando a motivação de seus atos é exposta, compreendemos toda a estória.

    Kurosawa surpreende. Utiliza a profundidade de campo no momento mais íntimo do casal, quando eles demonstram abertamente o que sentem um pelo outro, na construção em ruínas. No cinema clássico, essa situação seria registrada de forma oposta, com um close nos dois. O diretor faz uso também inesperado de um espelho para uma cena dramática, quando Yoshiko reaparece depois de ser envenenada, aumentando a surpresa para o espectador.

    Essa genial obra de Kurosawa fecha com mais uma quebra de expectativa, na utilização de elipse para revelar o destino do protagonista, que é contado por um dos personagens e não visualizado, como seria tradicionalmente.

    “Homem Mau Dorme Bem” manifesta o lado podre do capitalismo, e as várias camadas de poder em uma grande corporação. Iwabuchi é um homem mau, mas sofre. Não basta ser vice-presidente. Para ser um homem mau que dorme bem, é preciso estar no topo.

    Por Eduardo Kaneco
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