Edward às avessas
Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, de Tim Burton, mescla sangue e música numa história movida pela vingança. E pelo lirismo
É (quase) sempre noite neste filme de Tim Burton. Em mais esta parceria com o ator Johnny Depp, o diretor cria um mundo obscuro, marcado por um tom azul capaz de fazer com que todos adentrem no universo noturno – e soturno – do barbeiro injustiçado e sedento de vingança a qualquer preço. Em Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, Tim Burton transforma Johnny Depp em um novo Edward. Mas ao invés das tesouras, há navalhas com cabo de prata. E ao contrário da ingenuidade da fábula do início dos anos 90, agora há muito amargor, ódio e, como consequência disso tudo, abundância de sangue. A mescla de sangue e música conta a história do barbeiro Benjamin Barker. Após passar muitos anos preso injustamente, ele retorna com a intenção de vingar-se do juiz Turpin (Alan Rickman), que roubou sua amada e o lançou na prisão num estalar de dedos. Na verdade, não havia crime algum contra o barbeiro. Ao voltar para a Rua Fleet, em Londres, Barker encontra o andar de baixo de sua residência ocupado pela senhora Lovett (Helena Bonham Carter), confeiteira que faz as piores tortas da cidade. Agora autodeclarado Sweeney Todd, Barker reocupa seu lugar. Mas a forma como acaba o ato de fazer a barba dos clientes é apenas pretexto para atenuar a sede intensa de vingança até que a maior meta de sua vida seja alcançada. Enquanto esse apogeu não acontece, seu desejo de retaliação faz muitas vítimas e, de certa forma, espalha-se pela cidade. Isso porque nasce uma simbiose entre Todd e Lovett. Ele intensifica seus sentimentos mais rancorosos, ela atenua os percalços nos negócios. Enquanto ele, em cima, assassina e lança suas vítimas para o andar inferior, ela, embaixo, aproveita a carne fresca como principal ingrediente das tortas. O recheio misterioso faz sucesso, a loja fica lotada de fregueses e a cidade torna-se um antro de antropófagos, mesmo que involuntários. Sem saber, todos acabam partilhando do apetite de Todd por vingança. A interpretação desse ingrediente da trama pode ir além. É como se o casal provocasse, por meio da morte, uma ruptura nos limites das classes sociais. Ao tecerem conjecturas sobre quais seriam suas vítimas, Todd e Lovett ignoram distinções estipuladas pelas convenções sociais. Abastados e miseráveis compõem o mesmo cardápio e são servidos para abastados e miseráveis. “Não separaremos os grandes dos pequenos. Serviremos qualquer um para qualquer um”, afirmam. A frieza do barbeiro demoníaco da Rua Fleet é demonstrada de modo insistente, seja primeiramente pela interpretação do ator, seja pela iluminação, maquiagem e pelo encadeamento do roteiro. Uma das cenas mais emblemáticas disso é o reencontro de Todd com suas navalhas, carinhosamente por ele chamadas de “amigas”. Enquanto ele canta evidenciando profundo afeto pelos instrumentos frios e cortantes, a anfitriã confeiteira igualmente demonstra sentimento profundo pelo barbeiro. As palavras por ele cantadas às navalhas são praticamente as mesmas entoadas por Lovett a Todd: enquanto ele ama as navalhas, Lovett ama o ser humano que as impunha. Todd, inclusive, só retoma a consciência de que está acompanhado de uma pessoa quando vê o reflexo de Lovett na lâmina. Mas opta pela segunda em detrimento da primeira ao ordenar com o rancor habitual: “Deixe-me!” Essa cena torna-se ainda mais emblemática em seu final. As navalhas com cabo de prata funcionam como uma extensão do próprio corpo de Todd. A analogia com Edward – Mãos de Tesoura delineia-se de modo mais acentuado quando o barbeiro empunha uma das navalhas e afirma: “Finalmente meu braço está completo de novo”. Reunindo atores cuidadosamente ensaiados, composição artística louvável e um roteiro bem elaborado, Sweeney Todd… consegue provocar um resultado estranho, aparentemente contraditório: é capaz de ser poético mesmo em meio ao terror que permeia a narrativa. Dessa forma, pode ser capaz de agradar a gregos e troianos. Ou melhor: a fãs de drama, terror, musical ou de todos esses gêneros ao mesmo tempo. Tiago Luiz Bubniak