O cinema atual vive uma fase curiosa: nunca se produziu tantas continuações, remakes e reboots, mas raramente esses filmes conseguem justificar sua própria existência. Entre tantas repetições e fórmulas gastas, agosto se revelou um mês surpreendentemente positivo para as sequências. Primeiro tivemos a boa surpresa de Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda e depois o retorno divertido de Corra que a Polícia Vem Aí!. Agora, com Os Caras Malvados 2, a DreamWorks prova que ainda é possível entregar não apenas uma continuação competente, mas também uma que supera o filme original em vários aspectos.
O primeiro longa, lançado em 2022, já havia conquistado público e crítica com sua energia e estilo visual diferenciado, misturando 2D e 3D em uma estética que lembrava o impacto causado por Homem-Aranha no Aranhaverso (2018). O sucesso foi tão imediato que o diretor Pierre Perifel já tinha em mente planos para uma sequência antes mesmo da estreia oficial. Com a bilheteria confirmando o interesse, a DreamWorks se uniu a Sony Pictures Imageworks e conseguiu acelerar a produção sem sacrificar a qualidade. Pelo contrário: o resultado é um filme visualmente ainda mais refinado, com cenários variados, paleta de cores vibrante e um cuidado notável nas cenas de ação, algumas delas assumidamente inspiradas em Skyfall e True Romance.
Toda a equipe criativa retorna, mas desta vez há reforços. Perifel agora divide a direção com JP Sans, que até então havia trabalhado como chefe de animação de personagens, enquanto Etan Cohen recebe o apoio de Yoni Brenner no roteiro. Essa mistura de nomes experientes com novos talentos dá ao filme uma vitalidade extra. É quase como se o projeto fosse um laboratório para consolidar futuras vozes criativas da animação, e isso se reflete na ousadia de algumas escolhas narrativas.
A trama começa com os Caras Malvados tentando se reinserir na sociedade após a prisão. O contraste entre a vida de luxo e status que tinham no passado e a dificuldade de se adaptar como ex-presidiários gera boa parte do humor do filme. Há aqui uma leve crítica social, pincelada sem excessos, que funciona como pano de fundo para a comédia. Diferente do primeiro, que precisava apresentar o grupo e estabelecer a química entre eles, a continuação aproveita para investir no desenvolvimento individual de cada personagem. Essa mudança dá mais fôlego à narrativa, mostrando como eles funcionam dentro da coletividade, mas também como lidam com suas próprias crises e inseguranças.
Outro ponto que chama a atenção é o carisma quase inesgotável do grupo. A graça de ver esses personagens em tela não se esgota no primeiro filme. Pelo contrário, existe uma sensação de que ainda há muito a ser explorado neles, e é justamente esse apelo que impede a sequência de parecer apenas um caça-níquel. O público quer estar com eles, rir de suas trapalhadas e ver até onde conseguem ir tentando se adaptar a uma nova vida. Essa relação com os personagens é o que mantém o coração do filme pulsando.
No entanto, se o longa ganha em escala, também paga um preço por isso. O desejo de ampliar o universo narrativo traz mais núcleos, mais subtramas e novos personagens. A intenção é clara: deixar a história maior, mais grandiosa e com uma variedade de cenários e situações. Só que essa expansão acaba diluindo parte do impacto emocional. O grupo, que funcionava tão bem justamente pela dinâmica em conjunto, em alguns momentos perde espaço para coadjuvantes que não têm a mesma força dramática. É uma contradição inerente a muitas continuações: para ser “maior”, abre-se mão da simplicidade que fez o primeiro filme funcionar tão bem.
Os vilões desta vez são um bom exemplo disso. Eles cumprem sua função de antagonistas, mas não são memoráveis. Se fossem substituídos pelo vilão do primeiro longa, a trama seguiria praticamente intacta. Isso deixa claro que, em certos pontos, o filme está mais preocupado em sustentar o ritmo e a escala do que em criar novas figuras realmente relevantes. Essa escolha não compromete o entretenimento imediato, mas pode se tornar um problema no futuro, caso a DreamWorks insista em repetir a fórmula em possíveis próximas sequências.
Ainda assim, Os Caras Malvados 2 consegue escapar da armadilha das continuações preguiçosas. Ele não apenas mantém o frescor e a diversão do primeiro, como investe em uma estética ainda mais sofisticada e entrega sequências de ação de tirar o fôlego. A química entre os personagens continua sendo a alma da obra, e mesmo que a narrativa sofra com o excesso de subtramas, há um equilíbrio suficiente para que o público saia satisfeito.
Em resumo, estamos diante de uma das raras sequências que não parecem forçadas. O filme é divertido, visualmente deslumbrante e confirma que a DreamWorks acertou em cheio ao investir nesse grupo de personagens. Sim, existem problemas narrativos e escolhas que comprometem o impacto emocional, mas nada que impeça a experiência de ser envolvente do começo ao fim. Em uma época dominada por reboots e continuações sem brilho, Os Caras Malvados 2 surge como um alívio, mostrando que ainda é possível entregar algo maior sem perder completamente a essência.