Após sua consagradora vitória no Oscar por Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, era natural que o público aguardasse com grande expectativa o primeiro filme de Ke Huy Quan como protagonista em Hollywood. Amor Bandido surge como esse retorno, mas o que deveria ser uma celebração do talento recém-retornado do ator se transforma em um exemplo frustrante de desperdício criativo. Dirigido por Jonathan Eusebio, estreante na função após longa trajetória como coordenador de dublês em filmes como John Wick e Deadpool 2, o longa é uma verdadeira vitrine de promessas vazias, reunindo nomes premiados e uma proposta de ação e comédia que nunca decola.
A própria presença de Ariana DeBose, também vencedora do Oscar, não passa de um chamariz mal utilizado. Desde sua vitória por Amor, Sublime Amor, a atriz tem acumulado escolhas infelizes, e aqui não é diferente. Sua personagem, Rose, é mal desenvolvida, mal encaixada e sua relação com o protagonista Marvin (vivido por Ke Huy Quan) beira o inexistente. O problema vai além da falta de química – a diferença de idade entre os personagens chama atenção de maneira negativa, e a tentativa do filme de fazer isso funcionar dramaticamente ou romanticamente simplesmente falha. Fica evidente que o elenco foi escalado com foco nos nomes e no apelo mercadológico, não na coerência narrativa ou emocional.
O roteiro – assinado por nomes sem histórico relevante – é raso, previsível e carece de qualquer nuance. Os diálogos são genéricos, a estrutura é dispersa e a construção dos personagens secundários é praticamente inexistente. Relações fundamentais como a de Marvin com seu irmão Knuckless, seu chefe Cliff e sua assistente são apresentadas de forma apressada, jogadas em tela sem qualquer desenvolvimento ou contexto. É como assistir a um episódio solto de uma série antológica, sem começo, meio ou fim definidos. Ainda mais frustrante é o desfile de personagens coadjuvantes que já tiveram algum brilho em Hollywood, mas que aqui aparecem deslocados e irrelevantes.
Esperava-se ao menos que, vindo de um diretor com experiência em cenas de ação, o filme entregasse boas sequências nesse aspecto. Mas nem isso Amor Bandido consegue realizar. As lutas são mal coreografadas, os impactos não convencem e há uma notável falta de energia e criatividade nas cenas que deveriam ser o destaque do longa. É quase inconcebível que Ke Huy Quan, que mostrou tanta destreza física e expressividade em seu papel anterior, seja aqui subutilizado de maneira tão gritante. Há uma ou outra tentativa de cena mais agitada, mas tudo se limita ao básico – e mal feito.
A produção, por sua vez, já carregava sinais de que algo não ia bem. A Universal Pictures praticamente escondeu o filme do público brasileiro, divulgando sua data de estreia apenas semanas antes. Um lançamento tímido que indicava desde o início a falta de confiança do estúdio no resultado final. E a desconfiança se justifica. Amor Bandido não apenas desperdiça talentos – ele também falha em oferecer qualquer atrativo real para o espectador, seja no humor, na ação ou no drama. A comparação com os clássicos filmes de ação de Jackie Chan chega a ser ofensiva: o longa tenta emular esse estilo, mas entrega algo semelhante a uma cópia genérica e defeituosa.
No fim, Amor Bandido é um filme que não cria laços com o público, não estabelece identidade e tampouco respeita o talento que tem nas mãos. Ke Huy Quan tenta, com seu carisma, salvar o que pode, mas é engolido por uma narrativa mal escrita, uma direção inexperiente e uma execução que falha em todos os níveis. Jonathan Eusebio mostra que talvez seu lugar seja mesmo por trás das câmeras de ação e não na direção criativa de um longa. E DeBose segue acumulando tropeços em sua trajetória pós-Oscar. Amor Bandido não apenas não empolga – ele decepciona. É, sem dúvida, um dos filmes mais fracos do ano.