Quando os veículos anunciaram A Morte de um Unicórnio como uma produção que misturava comédia com terror envolvendo unicórnios, produzida pela A24 e com nomes de peso no elenco, as expectativas naturalmente foram altas. No entanto, o que é entregue aqui é um filme sem força narrativa, mesmo propondo temas interessantes. A direção do estreante em longas, Alex Scharfman, pesa negativamente no desenvolvimento da trama, assim como seu próprio roteiro, que carece de quase tudo. Não consegue ser engraçado como pretendido, não cria qualquer senso de urgência, já que os personagens e suas relações são mal desenvolvidos, e tampouco entrega um horror gore de impacto. O longa parece mais um rascunho de uma boa ideia, que poderia ter funcionado melhor em outras mãos ou com um tom mais bem definido.
A história gira em torno da construção de uma mitologia dos unicórnios e da relação entre Elliot e Ridley Kintner (Paul Rudd e Jenna Ortega). Scharfman até apresenta elementos interessantes ao inventar costumes, história e comportamentos da espécie, o que em um primeiro momento soa promissor por explorar um território pouco conhecido. Contudo, essa mitologia acaba se tornando um mero manual de instruções para os personagens, o que dilui completamente o impacto e o mistério que essas criaturas poderiam ter. Com isso, o diretor abandona essa construção e parte para um terror gore com unicórnios visualmente questionáveis.
Se os unicórnios fossem o único problema de CGI, até seria perdoável — afinal, estamos falando de criaturas mágicas. Mas quando o gênero sugere mortes criativas ou ao menos bem executadas, o mínimo esperado é um capricho visual. O filme recorre quase sempre ao CGI nesses momentos, com raras cenas de efeitos práticos. Scharfman até tenta disfarçar a baixa qualidade com cenas noturnas em florestas e neblina densa, mas é gritante o quão mal feito e amador é o trabalho. Isso prejudica diretamente a experiência.
Como mencionado, o longa também foca na relação de pai e filha (Elliot e Ridley), marcada pelo luto da mãe e esposa. No entanto, o drama familiar é tratado de forma genérica e rasa. A dor da perda é apresentada rapidamente no início e depois usada apenas como um artifício para uma reconciliação previsível, o que elimina qualquer envolvimento emocional. E isso mesmo com bons atores em cena. Jenna Ortega, por exemplo, mostra que continua em ascensão em Hollywood, mesmo com um material frágil. Will Poulter também se destaca pelo timing cômico, e suas cenas são as poucas que chegam perto de ser engraçadas. Já os personagens vividos por Richard E. Grant e Téa Leoni são caricatos, formando a clássica família gananciosa e descartável. O roteiro sequer tenta desenvolver um vínculo com eles, e nem com o público.
O filme até levanta algumas pautas relevantes, como a pureza de um unicórnio corrompida pela ambição humana, a forma como a natureza é tratada como recurso e críticas ao sistema capitalista. Ideias que, se fossem bem trabalhadas, poderiam dar ao filme alguma profundidade. No entanto, Scharfman as insere de forma tão exagerada que acabam se tornando o centro da narrativa, quando deveriam estar no subtexto. A princípio, parecem provocações interessantes, mas, ao longo da trama, quebram o ritmo e deixam tudo cansativo.
Em resumo, A Morte de um Unicórnio poderia ter sido mágico, pelos temas propostos e pela tentativa de Scharfman de trazer algo original. Mas o CGI mal executado, a comédia que raramente funciona, o terror que não assusta e as críticas sociais que tomam espaço demais fazem o filme parecer superficial. No fim, a experiência é rasa, emocionalmente ineficaz e facilmente esquecível. Pelo elenco e pelo selo A24, era de se esperar algo minimamente marcante, o que, infelizmente, se desfaz nos primeiros 15 minutos.