A primeira imagem que se vê são empoeiradas caixas de som sendo empilhadas até formarem um imenso paredão que causa muita estranheza pelo contraste que faz com o cenário em torno. Esse muro sonoro chega a lembrar o monolito negro de "2001, Uma Odisseia no Espaço", clássico de Kubrick. Na sequência seguinte, uma multidão se balança em se contorce, em êxtase, ao som de repetitivas batidas eletrônicas.
É em meio a essa celebração hedonística que somos apresentados a Luis (Sergi López) e Esteban (Bruno Núñez Arjona), pai e filho e busca da irmã mais velha, Mar, que desapareceu a 5 meses e que possivelmente estaria em alguma "rave" no deserto do Marrocos. É o início de uma jornada ao inferno, passado por paisagens belas e desoladas. Luis mostra a foto da filha a todos que encontra mas ninguém a viu e parecem responder a ele com muita má vontade. O cansaço e o desespero subjugan Luis e Esteban, mas eles estão dispostos a qualquer coisa para achar a menina.
O diretor Óliver Laxe, lança mão do som, da ambientação hostil e de intérpretes extraordinários para nos conduzir a essa travessia infernal, onde a cada kilômetro rodado, esse sombrio "road movie" vai se tornando cada vez mais exasperante.
Após o exército dissolver a "rave", Luis e Estebam resolvem acompanhar um grupo, que está saindo em busca de outra festa, na fronteira com a Mauritânia. Os dois recebem a solidariedade do grupo, que, indiferentes um grande conflito armado que está em curso, pensam unicamente em se divertir. Para esse grupo, parece não haver mais nada a que se apoiar, sendo a diversão a única fuga possível. Se a situação parece incontornável não há nada a se fazer. O fim está próximo. Em determinada passagem do filme, uma das personagens pergunta "a terceira guerra já começou, é assim que nos sentimos com o fim do mundo?", ao que o outro responde "o fim do mundo começou há muito tempo". A dança e a música como panacéia para o desencanto.
Poeira, sol inclemente, penhascos, areia e minas são os grandes antagonistas dos personagens nessa penosa jornada. Antes de surgir na tela a primeira sequência, já somos avisados de que a passagem é "mais estreita que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada".
Talvez a imagem que melhor defina a desesperança que o filme quer passar seja a de trilhos infinitos e cobertos de areia e poeria, cortando o deserto e que parecem não levar a lugar nenhum.
Sirat é um áspero poema apocaliptico.